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Intifada
e bloqueios estrangulam economia |
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LOURIVAL SANTANNA |
Segunda-feira,
25 de junho de 2007
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DEIR AL-BALAH,
FAIXA DE GAZA Abd Nasser Abu Assad
tem 24 donums de terra (24 mil metros quadrados, ou 2,4 hectares) em Deir
al-Balah, no sul da Faixa de Gaza. Para os padrões da região,
é uma fazenda, na qual ele cultiva milho, tomate, berinjela, abobrinha
e pimenta, usando estufas, irrigação e adubos. O tomate
está passando da hora de colher, mas não tem compradores,
e Assad já se resignou: "Vai se perder." Tudo parou desde que
o Hamas lançou sua ofensiva contra o Fatah, há duas semanas.
O posto de fronteira de Karni, no norte da Faixa de Gaza, cordão
umbilical econômico do território com Israel, com a Cisjordânia
e com o mundo, está fechado desde então. Mas, para o fazendeiro,
os problemas vêm de antes. Desde que o Hamas venceu a eleição,
em janeiro do ano passado, foi cortada a ajuda financeira internacional
e o repasse da receita de Imposto sobre Valor Agregado que Israel arrecada
dos palestinos e, com eles, os salários dos funcionários
públicos, que representam um terço dos empregados na Faixa
de Gaza. Abu Assad vai mais
longe ainda, no entanto. Seus problemas econômicos agudos começaram
com a segunda intifada, em setembro de 2000. O que não quer dizer
que estivesse bom na fase anterior, quando o processo de paz levou à
instalação da Autoridade Palestina, primeiro em Gaza e Jericó,
em 1994, depois também na Cisjordânia. "Bom mesmo era
durante a ocupação israelense", recorda Abu Assad,
sem nenhuma inibição. "Os distribuidores israelenses
vinham até aqui comprar os meus produtos, e eu também levava
para Israel na minha caminhonete. Podia dirigir daqui até Tel-Aviv."
Naquela época, ele estima que vendia US$ 10 mil por ano. "Hoje,
não ganho nada", diz o fazendeiro de 39 anos e seis filhos.
O pessoal que cavou seu poço de 70 metros e instalou a bomba d'água
está cobrando os 9.500 shequels (US$ 2.375) pelo serviço,
e ele não tem de onde tirar. A percepção
de Abu Assad sobre o período da ocupação anterior
à Autoridade Palestina (AP) é geral, e se aplica também
à Cisjordânia. "Esse foi o impacto 'positivo', entre
aspas, da Guerra de 1967", explica o economista Omar Shaban Ismail,
consultor em Gaza. "Cisjordânia e Gaza tornaram-se um só
país. Tudo passou a ser Israel." O estabelecimento
da AP desencadeou uma intensa entrada de dinheiro nos territórios.
Entre 1994 e 2002, a comunidade internacional doou US$ 6,5 bilhões
para projetos de infra-estrutura, assistência social e implantação
do governo palestino. A partir de 2002, a assistência foi caindo
ano a ano, chegando a US$ 340 milhões em 2005, por causa da falta
de transparência no uso do dinheiro e da falta de reformas recomendadas
pelos organismos internacionais. Até que, em 2006, com a eleição
do Hamas, a ajuda foi cortada de vez. Mesmo com essa intensa
ajuda, o impacto econômico da segunda intifada foi brutal. Em 2000,
o Produto Interno Bruto da Cisjordânia e de Gaza era de US$ 5,75
bilhões. Hoje, é de US$ 3,50 bilhões, o que representa
uma queda de 40%. O desemprego na Faixa de Gaza oscila entre 40% e 45%;
na Cisjordânia, entre 30% e 35%. Os palestinos produzem
verduras, frutas, flores, biscoitos, sorvetes, granito, mármore,
vidro, porcelana, sapatos, confecções e móveis apreciados
em Israel, na Europa, nos Estados Unidos e até no Brasil. "Os
israelenses gostam da mão-de-obra palestina e há boas relações
entre os empresários dos dois lados", atesta Ismail. A fábrica Bama
("Puma", em árabe) é uma das três exportadoras
de sapato em Hebron, na Cisjordânia. Ela fabrica 200 mil pares de
sapatos completos por ano, e outros 500 mil pares de solas. Fornece 110
mil pares por ano para Israel, incluindo os coturnos usados pela polícia.
Este ano, já vendeu 25 mil para os Estados Unidos, 12 mil para
a Inglaterra, 10 mil para a Jordânia e 5 mil para a Arábia
Saudita. Antes do fechamento de Karni, enviava 5 mil pares por mês
para a Faixa de Gaza. As exportações
são feitas por meio de traders israelenses, e Sadeq Ebeido, dono
da fábrica, não tem queixas: "Fazemos bons negócios
com eles." Os sapatos saem da fábrica e de Israel com preço
fechado (um sapato de homem, por exemplo, sai por US$ 22) e não
enfrentam tarifas de importação na União Européia,
como parte de uma política para ajudar a economia palestina. Mas segundo Ebeido,
os melhores anos da empresa foram entre a fundação, em 1980,
e o início da primeira intifada, em 1987. "Trabalhávamos
em três turnos, 24 horas por dia." A fábrica chegou
a ter 470 empregados. Hoje, são 220, e apenas um turno de 8 horas.
"Entre 1994 e 2000 foi razoável", diz Ebeido. "Depois
da segunda intifada, ficou ruim de novo." Ele e o irmão, seu
sócio, estão pensando em instalar uma fábrica na
Jordânia, para escapar aos atropelos do conflito árabe-israelense.
"As coisas aqui só têm piorado." Há três
meses que a loja da fábrica de vidro e porcelana Al-Salam, em Hebron,
não vê um turista. Até 1987, vinham 15 ônibus
por dia visitar a cidade bíblica, conta Fariz el-Natche, cuja família
está no negócio há 105 anos, desde o seu avô.
"Depois da primeira intifada, eles nunca mais voltaram." A fábrica
se sustenta com vendas para o exterior. O irmão de El-Natche está
no Brasil, participando de uma feira. "Sem isso, não teríamos
o que comer." Para Johnny Canavati,
dono de uma loja de souvenirs em Belém, os melhores anos foram
entre 1997 e 2000, por causa das comemorações do segundo
milênio de nascimento de Cristo. Vieram o papa, os presidentes dos
EUA, da Rússia e da França e, com eles, muitos turistas.
Canavati, de uma das cinco famílias cristãs de origem italiana
em Belém, que provavelmente chegaram nas Cruzadas, está
agora otimista. "A comunidade internacional apóia o novo governo,
e isso é bom para nós", diz ele. "Em três
meses, veremos uma verdadeira mudança." Para que ela se reflitisse
no resto da economia palestina, seria preciso abrir as fronteiras e os
bloqueios militares israelenses. Do norte da Cisjordânia, a carne,
frutas e vegetais saem baratos e chegam caros a Ramallah, por exemplo,
por causa de todas as barreiras que têm de cruzar. "Depende
do humor do soldado naquele dia", descreve Jafar el-Sadaka, editor
de economia do jornal El-Ayam, de Ramallah. "Se ele não quiser
deixar passar, os produtos se perdem, e ninguém responde por isso."
Ele estima que entre 100 e 150 fábricas tenham fechado as portas
ou reduzido sua produção para menos da metade desde o início
da segunda intifada (2000). Youssef al-Makadma
tem uma fábrica de biscoitos em Deir al-Balah e uma de sorvetes
em Khan Younis, também na Faixa de Gaza. De seus 250 empregados,
que recebem diárias de 40 a 60 shequels (US$ 10 a US$ 15), 60 estão
trabalhando e 90 estão em casa. "Israel nos matou ao fechar
Karni", diz Al-Makadma, que enviava diariamente 5 mil caixas de seus
sorvetes e biscoitos Al-Arees ("O Noivo") para a Cisjordânia. "Os palestinos
não precisam de ajuda", conclui o economista Ismail. "Precisam
é que os deixem trabalhar e vender. Se você coloca as pessoas
numa prisão, tem de dar-lhes comida. Se as solta, elas se viram
sozinhas." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |