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Muro
israelense prende palestinos na Cisjordânia |
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LOURIVAL SANTANNA |
Segunda-feira,
25 de junho de 2007
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BELÉM, CISJORDÂNIA Uma semana antes do
Natal de 2005, o menino Daniel, de 8 anos, caminhava de volta para casa
triste. Na escola haviam dito que ele não deveria ter ido à
aula com os sapatos sujos de esgoto, porque poderia transmitir doenças
para outras crianças. Escavações dos israelenses
ao redor de seu quarteirão tinham feito o esgoto refluir, cobrindo
o chão de uma sujeira fétida, da qual não havia como
desviar. Quando chegou perto
de casa, Daniel notou uma sombra diferente no chão. Olhou para
o alto e viu que o prédio onde mora tinha sido cercado por um muro
nove vezes o seu tamanho. As placas pré-moldadas de concreto foram
colocadas em apenas um dia. Entre a ida e a volta de Daniel à escola,
seu prédio tinha sido enclausurado no canto do muro, isolando-o
de Jerusalém, das terras que eram da família de seu pai
e do Túmulo de Raquel, local sagrado para judeus, cristãos
e muçulmanos. Daniel sentou-se na sua cama e chorou. "Fomos enterrados vivos?", perguntou para sua mãe, Claire. "Como Raquel, estamos enterrados aqui?" Claire não soube o que responder a Daniel. O muro de 9,2 metros que cobre três lados de seu prédio foi a última de uma longa série de derrotas. "Quando pensamos que não pode piorar, piora", diz ela. A família de seu marido, cristã como a dela, construiu o prédio em 1963. Quatro anos depois, Israel ocupou Jerusalém Oriental e a Cisjordânia, além da Faixa de Gaza. A família sempre considerou que vivia em Jerusalém, em cujas escolas cristãs seus filhos mais velhos - uma garota de 17 anos, um menino de 14 e uma de 11 - chegaram a estudar. Quando começou
a segunda intifada, em setembro de 2000, o prédio ficou no meio
do fogo cruzado entre uma instalação militar israelense
e os palestinos que lhe atiravam pedras, coquetéis molotov e armas
de fogo. No ano seguinte, no calor do levante palestino, Israel fechou
a milenar estrada que ligava Belém a Jerusalém. Claire e
todos os outros comerciantes perderam suas rentáveis lojas na avenida,
que vendiam souvenirs aos turistas. A estrada, por onde provavelmente
Jesus e Maria caminharam rumo a Jerusalém, nunca mais foi desbloqueada,
assim como a fonte de renda da família, que a partir daí
mergulhou em dívidas. Passaram o ano de
2002 sob toque de recolher, só podendo sair de casa duas horas
por dia. Há um ano e meio, o muro colocou um fim em todas as esperanças
da família. "Perdemos tudo", diz Claire, de 38 anos.
As casas do tio de seu marido e de sua irmã, que ficavam a cinco
minutos de caminhada, agora estão do outro lado da barreira cinzenta.
Para visitar o tio, seu marido precisa de autorização especial
do Exército israelense. Tem conseguido duas vezes ao ano: na Páscoa
e no Natal. Por medo de não conseguir mais nem isso, ele prefere
não dar o seu nome. Serpenteando pelas
cidades da Cisjordânia, separando comerciantes de suas lojas, fazendeiros
de suas terras, trabalhadores de seus empregos, crianças de suas
escolas, parentes e amigos, o muro é hoje a representação
gráfica do histórico esforço de Israel de garantir
sua segurança, e ao mesmo tempo de criar fatos consumados na geografia
palestina. No último ano, ao mesmo tempo em que ele é construído,
Israel tem convertido os principais bloqueios militares, de precárias
instalações de blocos de cimento e arame farpado, em grandes
estruturas de concreto armado, aço e vidro, parecidas com praças
de pedágio modernas. O investimento, custeado, segundo o governo
israelense, por doadores judeus americanos, confere uma permanência
ao que parecia antes provisório. Do ponto de vista
dos palestinos, pouco mudou, no entanto. Eles continuam tendo de esperar
horas nas filas de pedestres ou de carros, para terem seus documentos,
roupas, objetos e motivos minuciosamente escrutinados antes de seguirem
viagem. Para um olhar brasileiro, a realidade palestina é absurda.
Vinte quilômetros na Cisjordânia podem representar uma longa
viagem, consumir boa parte do dia. Na verdade, o Brasil
pode estar mais perto de Gaza e da Cisjordânia do que uma da outra.
Foi o que sentiu Nour Odeh, correspondente da rede de TV Al-Jazeera em
Gaza, quando quis se casar, em julho de 2002. Seu noivo, o diplomata Ammar
Hijazi, estava em Gaza e não tinha autorização israelense
para ir para a Cisjordânia. Já seu pai, o embaixador Kifah
Odeh, na época representante palestino em Brasília, só
conseguia permissão de Israel para entrar na Cisjordânia.
Nour e Hijazi se casaram em Brasília. "Só no Brasil
pude colocar meu marido e meu pai no mesmo lugar." Por aqui também
há "jeitinho". Um motorista palestino habituado a transportar
jornalistas conta como pagou diversas vezes 50 shequels (US$ 12,50) para
meninos no posto de controle de Kalandia, entre Ramallah e Jerusalém,
jogarem pedras nos soldados israelenses. Tendo de se proteger detrás
das barricadas, os soldados liberavam a passagem dos carros. De maneira
geral, no entanto, os obstáculos criados pelos 540 postos de controle
da Cisjordânia são incontornáveis. No auge dos atentados
terroristas, os soldados israelenses faziam os jovens palestinos se ajoelharem
de cueca - não por pouco, mas por muito tempo - até se certificarem
de que não havia bomba alguma. As medidas costumam ser um misto
de prevenção e de punição coletiva, uma política
para induzir a população palestina a se opor ao terrorismo
- freqüentemente causando o resultado inverso. Um árabe israelense
(palestino das áreas ocupadas por Israel em 1948, com cidadania
do país), conta que, no início do ano, estava embarcando
com a família de férias para a Turquia no aeroporto Ben
Gurion, em Tel-Aviv. Depois de passarem pelas exaustivas revistas a que
são submetidos os palestinos, uma camiseta de seu filho de 11 anos
ficou caída no chão. Uma policial afastou-a com o pé.
"Meu sangue subiu", recorda ele. "Comecei a xingá-los
em hebraico, árabe e inglês." Enquanto 20 policiais
o rodeavam, ele perguntou, aos gritos: "Como vocês querem que
meu filho goste dos judeus? Por que um menino de 11 anos tem que ser revistado
sem roupa, se vocês têm todos esses equipamentos de raio-X?"
Um dos policiais ameaçou não deixá-lo viajar, mas
no final ele embarcou. Os poucos palestinos
que têm dinheiro e autorização para viajar por Ben
Gurion relatam "humilhações" no aeroporto só
por serem árabes. Os que provêm das áreas ocupadas
em 1967 vivem uma situação muito mais precária. Em
vez de passaporte israelense, eles têm um documento de laissez-passer,
no qual os outros países cada dia colocam mais obstáculos
para carimbar um visto. De curta duração, esses documentos
podem deixar de ser renovados a qualquer momento, segundo os caprichos
da política israelense. Essa é a realidade
da Cisjordânia. A da Faixa de Gaza é muito pior. Um dos territórios
mais densamente povoados do mundo - 1,4 milhão de pessoas confinadas
em 360 quilômetros quadrados -, ela é chamada de "formigueiro
humano", ou de "prisão". É preciso ter uma
razão muito convincente para obter permissão de sair da
Faixa de Gaza, nem que seja para ir para a Cisjordânia, separada
dela por uma faixa de 45 quilômetros de território israelense.
Ser deputado palestino, por exemplo, não é suficiente. Os
parlamentares de Gaza e da Cisjordânia realizam sessões por
videoconferência. Apenas funcionários de organizações
não-governamentais e dirigentes palestinos bem vistos por Israel
- como os do Fatah - podem cruzar de um lado para outro. Os moradores de Gaza
se queixam de que jamais verão a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém;
os de Jerusalém, de que jamais verão o Mediterrâneo;
e os da Cisjordânia não verão nenhum dos dois. Mesmo
para quem mora em Jerusalém, Israel proíbe a entrada na
mesquita dos homens com menos de 40 anos. Para viajar para outro país, os moradores de Gaza precisam sair pelo Egito. Mediante autorização de Israel, eles embarcam num ônibus sujo do posto de fronteira de Rafah para o Cairo, e têm de pagar pela viagem de cinco horas 120 libras egípcias (US$ 21) - o triplo do que custaria num táxi. Se Israel fecha a fronteira, os viajantes vão se aglomerando e dormem no chão por uma ou mais noites. Quando isso acontece,
o ônibus sai superlotado. Chegando ao aeroporto do Cairo, os viajantes
recebem o tratamento de deportados, acompanhados todo o tempo por policiais.
"Para ser sincero, me dói mais a humilhação
dos egípcios que a dos israelenses", diz o gerente de uma
ONG que viaja com freqüência. "Pelo menos, sei que Israel
é meu inimigo." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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