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Hamas
abre prédios do Fatah aos saqueadores |
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LOURIVAL SANTANNA |
Sábado,
16 de junho de 2007
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RAMALLAH Os disparos dos fuzis-metralhadoras
continuaram a soar estridentemente ontem na Cidade de Gaza, não
mais em ataques do Hamas aos redutos da Fatah, mas na celebração
da vitória, que coincidiu com o dia do descanso semanal e de orações
dos muçulmanos. Milhares de militantes fundamentalistas saíram
às ruas, empunhando enormes bandeiras verdes da organização
islâmica, e exibindo carros blindados tomados da Fatah, presumivelmente
adquiridos com dinheiro americano. A repentina conquista
da Faixa de Gaza, concluída em apenas cinco dias na madrugada de
ontem com a tomada da sede da presidência, encheu de temores e incertezas
as pessoas comuns. Um jornalista palestino que pediu para não ser
identificado contou ao Estado, pelo telefone, que as mulheres estavam
com receio de sair nas ruas sem a cabeça coberta pelo véu
islâmico - uma situação nova entre os palestinos,
um dos povos mais laicos e liberais do mundo muçulmano. "Ninguém
tem dúvida de que o Hamas vai passar por cima dos nossos valores
liberais e impor a lei islâmica", lamentou o jornalista, de
28 anos. "Por favor, consiga para mim um visto para o Brasil."
Enquanto falava com o Estado, o jornalista participava do funeral
de uma vítima do Hamas. Segundo ele, o homem não pertencia
à Fatah, mas teve os olhos e o estômago arrancados com uma
faca, depois de morto, e sinais indecifráveis riscados em sua pele. Numa cena que lembra
o Iraque depois da queda de Saddam Hussein, os militantes do Hamas abriram
os escritórios do governo palestino antes ocupados pela Fatah para
a população saquear. Retratos do presidente Mahmud Abbas
e de seu antecessor, o líder palestino Yasser Arafat, fundador
da Fatah, foram jogados no chão. Diante das câmeras de TV,
um militante apontou um fuzil para o rosto de Abbas na foto. Os militantes
levaram carros e armas e os saqueadores, tudo o que pudessem carregar. No gabinete do presidente
Mahmud Abbas, um militante mascarado pegou o telefone e brincou: "Alô?
Condoleezza Rice?", referindo-se à secretária de Estado
americana. "Agora você vai ter que lidar comigo." O Hamas
acusa Abbas, um líder moderado que defende negociações
de paz com Israel, de receber ordens do governo americano. Além da imposição
estrita da Sharia (código de conduta islâmica), os moradores
de Gaza se preocupam com a situação econômica do território.
Israel se recusa a repassar ao Hamas a receita de impostos que cabe aos
palestinos, e a ajuda dos Estados Unidos e da União Européia
seguiria cortada para Gaza, enquanto fluiria para um governo da Fatah.
Desde o início
dos conflitos, as fronteiras de Gaza com o Egito e com Israel estão
fechadas. Mesmo tendo retirado os colonos judeus da Faixa de Gaza em 2005,
Israel mantém mobilização militar do seu lado da
fronteira, por causa dos ataques com foguetes que o Hamas lança
contra a cidade israelense de Sderot. Os funcionários das agências
humanitárias pararam de trabalhar, depois que alguns colegas foram
alvejados e os combatentes invadiram hospitais. Segundo as agências
de notícias, médicos informaram que três pessoas foram
mortas ontem a tiros, elevando para mais de cem o número total
desde domingo na Faixa de Gaza. Na Cisjordânia,
continuou ontem o acerto de contas de militantes da Fatah contra o Hamas.
Escritórios do grupo fundamentalista foram destruídos em
Nablus, como já tinha acontecido em Ramallah, onde homens encapuzados
patrulhavam ontem as ruas. A Fatah faz questão de demonstrar força
na Cisjordânia. Até por causa da presença militar
israelense, o Hamas tem uma atuação discreta na Cisjordânia
e, nesses dias, seus militantes, embora também numerosos, sumiram
de vista. O motorista palestino
com placas de Jerusalém que levou o repórter do Estado
para a Cisjordânia brincou que agora já não sabia
mais o que usar para garantir sua segurança: o keffieh (longo lenço
de cabeça) quadriculado preto e branco, identificado com a Fatah,
já não é mais garantia de proteção.
"Vou andar com uma bandeira da Palestina e outra do Hamas no carro",
brincou, amargamente. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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