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Após
2 anos, Itália volta às urnas desiludida |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Segunda-feira,
14 de abril de 2008
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ROMA Dois anos depois de
terem eleito um governo, que perdeu a sua exígua maioria no início
do ano, os italianos, entre resignados e indignados, voltaram às
urnas ontem, no primeiro de dois dias de eleições parlamentares,
provinciais e municipais. Até o encerramento das urnas às
22h de ontem, 63,64% dos 47 milhões de eleitores habilitados a
votar para a Câmara dos Deputados tinham comparecido - um pouco
menos que o encerramento do primeiro dia em 2006, quando foram 67,61%. Uns votaram pensando
no bolso, outros em nome de princípios, e alguns conseguiram conciliar
os dois critérios. Foi o caso do profissional de informática
Luca, de 40 anos (que não quis dizer seu sobrenome). "Votei
por O Povo da Liberdade, porque eles têm representado valores como
a família e a educação, que não encontro noutros
partidos", disse Luca ao sair de uma missa, referindo-se ao partido
do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, de centro-direita. "São pessoas
que estão na política há muito tempo, e levam adiante
temas como a educação, o ensino público e a ajuda
à família concretamente", continuou Luca. "No
outro governo de Berlusconi, nasceram meus dois filhos gêmeos, que
agora estão com dois anos e meio, e recebi um bônus de €
1.500 por cada criança, coisa que nunca aconteceu nos sucessivos
governos de centro-esquerda." Luca tem razões de sobra para
se importar com isso. É pai de seis filhos: além dos gêmeos,
um de 6 anos, um de 9, uma de 12 e outra de 14. "Do ponto de vista
fiscal, ter seis filhos ou nenhum é a mesma coisa", queixou-se
ele. Berlusconi prometeu
retomar esse programa, se for eleito. As últimas pesquisas, divulgadas
há duas semanas, quando se encerrou o seu prazo legal, colocam
o magnata da mídia, de 71 anos, entre cinco e nove pontos à
frente de seu principal adversário, o ex-prefeito de Roma Walter
Veltroni, de 52 anos, líder do Partido Democrático (PD),
de centro-esquerda. Muitos italianos se
sentem desiludidos pela crônica estagnação econômica
(o país é o que menos cresce na Europa, registrando 1,5%
no ano passado) e com o sistema político, pelo qual se vota em
listas partidárias, com um esquema de prêmio para garantir
a maioria na Câmara e base de cálculo regional para o Senado,
o que termina distorcendo os resultados. Apesar dessa desilusão,
Renato Mannheimer, diretor do Instituto de Estudos da Opinião Pública,
prevê que a maioria dos eleitores continue votando como sempre:
"O voto na Itália é pouco móvel." Exemplo disso é
a professora de química aposentada Paola Gombi, de 66 anos. "Votei
no PD porque sempre votei na esquerda. Em quem mais iria votar?",
perguntou ela. "A esquerda mudou muito. Esperamos que tenha aprendido
algumas coisas." Uma lei aprovada em
2006, no início do governo do ex-primeiro-ministro Romano Prodi,
do partido de Veltroni, destinada a combater a sonegação
tributária, foi identificada como aumento de impostos, e o tornou
bastante impopular. Outra explicação para a desvantagem
de Veltroni nas pesquisas é colapso na coleta de lixo em Nápoles,
também administrada pela centro-esquerda. Mas isso não
abala Paola. "O governo Prodi fez coisas boas, que não foram
avaliadas como deveriam", disse ela. "Prodi não tem lá
muita capacidade de comunicação e seguramente cometeu erros.
Mas fazer os sonegadores pagarem impostos é uma coisa que nenhum
governo havia conseguido antes." "Berlusconi não
se interessa de verdade pela fatia mais frágil do país,
mas só pelos mais ricos", disse Roberto, de 45 anos, eleitor
de Veltroni, formado em ciência política e funcionário
do Parlamento. Nas eleições
anteriores, a centro-esquerda apresentou-se aliada à Esquerda Arco-Íris,
que reúne comunistas e verdes. Veltroni rompeu com ela, criando
o PD e levando-o mais para o centro do espectro. Não sem um custo.
Muitos eleitores não atenderam a seus apelos pelo "voto útil"
da esquerda. "O voto útil é um erro, um tipo de polarismo
que não aprovo", disse um pesquisador de fármacos aposentado,
de 68 anos, que votou na Esquerda Crítica, nova dissidência
dos comunistas. "Acho que o programa deles é melhor: redução
dos gastos militares, retirada de nossos militares do exterior, aumento
dos gastos com educação e saúde, melhora das aposentadorias
e do salário mínimo." Quanto a ter de voltar
às urnas, disse o aposentado Massimo Di Marco, de 60 anos: "Estou
habituado a isso." Ele e sua mulher, Anna Grau, também de
60 anos, não acreditam que nem Berlusconi nem Veltroni vão
cumprir a promessa de aumentar as aposentadorias. "A Itália
precisa de uma mudança radical, que os partidos que se têm
revezado no poder dificilmente farão", disse Paolo Oghini,
um motorista de táxi de 44 anos. "Vamos de um lado para outro
e a situação não muda. Prova disso é o fato
de ter que votar de novo dois anos depois. Mas o bom senso me obriga a
votar." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |