Com declínio econômico, italiano quer salário maior e menos impostos
Essas são, segundo pesquisas, algumas das prioridades da população

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial
Domingo, 13 de abril de 2008

ROMA

Grande parte da desilusão dos eleitores italianos está associada à perturbadora sensação do declínio experimentado pela Itália nas duas últimas décadas. Depois de se equiparar à Grã-Bretanha em renda per capita em 1987, a Itália veio caindo de posição até ser ultrapassada recentemente pela Espanha. Os versados em história vêem uma analogia com a República de Veneza, que depois de 500 anos de apogeu, decaiu lentamente a partir do século 16, até ser ocupada por Napoleão Bonaparte, em 1797.

Entre os anos 50 e 90, a economia italiana prosperou, e seu peso no cenário da guerra fria foi valorizado pela aliança com os Estados Unidos, da qual era um "semiprotetorado", recorda Lucio Caracciolo, editor da revista de geopolítica Limes. A década de 90 selou o fim do apogeu italiano, com dois eventos. O primeiro foi o fim da guerra fria. O segundo, a adesão ao euro, que entrou nas contas fiscais em 1999, antes de ser introduzido como moeda física, em 2002.

Até então, a Itália, um pouco como o Brasil antes do real, fechava suas contas por meio da emissão da lira, que acumulou uma quantidade folclórica de zeros. Preocupados com o risco de a instabilidade econômica da Itália respingar sobre suas economias, os aliados europeus fizeram vista grossa ao descumprimento, pela Itália, das condições do Tratado de Maastricht para a adesão ao euro: dívida pública de até 60% do PIB e déficit público máximo de 3%.

Num livro publicado há 30 anos, intitulado Entrevista sobre o Capitalismo, o empresário Guido Carli, morto em 1993, dizia que, se a Itália não tivesse sido uma das co-fundadoras da Comunidade Européia, em 1957, estaria reduzida a um nível de desenvolvimento africano. Advertia, porém: "Mas foi um grave erro pensar que podíamos estar na Europa sem mudar nossos comportamentos, seja na economia ou na política." A advertência de Carli continua atual.

Nos últimos anos, a Itália tem mantido o déficit público abaixo dos 3%. O governo de centro-esquerda de Romano Prodi encerrou o ano passado com com uma cifra de 2,2%. Com isso, a dívida pública tem caído lentamente - no governo Prodi, ela diminuiu de 106,8%, em 2006, para 104,8%, em 2007. Em termos absolutos, no entanto, Prodi não diminuiu os gastos públicos, afirma Luca Paolazzi, economista-chefe da Confindustria. Eles caíram em relação ao PIB, graças a um aumento da arrecadação.

A Itália é o país que menos cresce na União Européia. No ano passado, seu PIB aumentou 1,5%. O desemprego não é alto: 6,2%. Mas 11% dos italianos vivem abaixo da linha de pobreza. Sua infra-estrutura, considerada uma das melhores da Europa nos anos 70, está obsoleta, sobretudo no que se refere a estradas e ferrovias. Segundo relatório de janeiro de 2007 do Consórcio Nacional Inter-Universitário para os Transportes e a Logística (Nitel), os investimentos da Itália em infra-estrutura representam 13% da União Européia; os da Alemanha, 30% e os da França, 20%.

A carga tributária, de 43,3%, é considerada alta, para os serviços oferecidos pelo Estado. Ela "sobrecarrega os empresários honestos", diz Paolazzi, já que a sonegação atinge 20%. E seria de 50%, se não fosse essa evasão. Outros entraves para o crescimento e a competitividade são: o mau funcionamento das instituições (burocracia, Justiça lenta, etc.), o crime organizado e a má qualidade do ensino.

De acordo com as pesquisas, as prioridades para os italianos são, nessa ordem: o aumento dos salários e das aposentadorias, que não têm acompanhado a alta do custo de vida; o combate à criminalidade; a redução da inflação (3,3% em 2007); a diminuição da carga tributária; e o controle da imigração (há 3,7 milhões de imigrantes).

Mas, na maioria desses temas, as diferenças entre O Povo da Liberdade e o Partido Democrático descem a detalhes técnicos. Tanto Silvio Berlusconi quanto Veltroni prometem, essencialmente, cortes de impostos, aumento das ajudas de custo e das aposentadorias, mais gastos sociais e investimentos em infra-estrutura.

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