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Uma cidade
dividida pela intolerância |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
24 de fevereiro de 2008
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MITROVICA, Kosovo A estrada estreita
que sobe para o bairro de Micronassiliev, na encosta de uma colina, mal
dá para um carro passar, mas é de duas mãos. Quando
dois carros vêm na direção contrária, um tem
que dar ré até encontrar um canto para o outro passar. O
bairro era um dos poucos lugares de "população mista"
que restavam em Kosovo depois da guerra de 1999, que culminou nos bombardeios
da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)
contra forças sérvias que começaram combatendo o
Exército de Libertação de Kosovo e acabaram engajadas
numa "limpeza étnica". Depois da proclamação
da independência, domingo passado, quando se pergunta pelos albaneses
em Micronassiliev, os sérvios apontam para casas fechadas e vazias.
No alto da montanha, o silêncio é entrecortado pelos rádios
dos soldados portugueses, que patrulham o norte de Mitrovica, onde se
concentra a minoria sérvia de Kosovo. Conforme se vai descendo
de volta a colina escarpada, tornam-se mais nítidas as canções
nacionalistas entoadas pelos sérvios na avenida principal da cidade.
O protesto diário é iniciado às 12h44, para lembrar
a resolução 1244 da ONU, de 1999, que assegura a "integridade
territorial da Iugoslávia" (na época, Sérvia
e Montenegro). Sentado sobre o capô
de um carro, o advogado Nikola Petrovic, de 44 anos, ativista sérvio
dos direitos humanos, explica de forma simples por que não aceita
a independência de Kosovo: "Os albaneses não querem
mais ser minoria na Sérvia. Pois nós não queremos
ser minoria em nosso país. O plano da ONU (apresentado em fevereiro
de 2007) nos oferece direitos de minoria. Não sei o quão
generoso ele será. Mas sei que é menos do que o que temos
agora." "Não quero
que meus filhos aprendam na escola que Kosovo foi ocupado pela Sérvia",
diz Petrovic, citando um receio muito nítido também entre
os albaneses. Depois da drástica redução da autonomia
de Kosovo pelo ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic, em 1989,
os albaneses criaram escolas próprias para assegurar o ensino da
história ao seu modo - e não que Kosovo é o "coração
da Sérvia", por exemplo. Na verdade, se sérvios
e albaneses conversassem, perceberiam que dizem as mesmas coisas uns dos
outros, com sinal trocado. Mas desde o conflito dos anos 90 os albaneses
do lado sul de Mitrovica e os sérvios do norte não cruzam
a ponte de 50 metros do Rio Ibar, que divide a cidade. "Nunca conhecemos
um sérvio", dizem os albaneses Enas Ahmaetaj e Libor Halile,
ambos de 16 anos, voltando da escola pela Avenida Rainha Teuta, que termina
na ponte isolada por um cordão de policiais da ONU. Desde 1999,
os carros dos albaneses têm placas com iniciais KS, emitidas pela
administração da ONU. Os sérvios continuam usando
as iniciais KM, da prefeitura de Mitrovica, integrada ao Estado sérvio.
Se um carro é visto do "lado errado", corre o risco de
ser apedrejado, ou pior. Com a injeção
de US$ 11 bilhões em ajuda internacional desde 1999, os albaneses
adotaram o euro; os sérvios continuam usando o dinar sérvio
(1 euro = 82,5 dinares sérvios). Nem a cerveja é igual.
Os albaneses, muçulmanos liberais, tomam a Peja, feita na cidade
de Pec, oeste de Kosovo. Os sérvios bebem Jelen Pivo, fabricada
em Apatin, na Sérvia. "Entendo que
os albaneses não se sentem confortáveis na Sérvia,
mas não dou a mínima", diz o economista Colic Zdravko,
um produtor cultural de 22 anos, enquanto toma uma Jelen Pivo com os amigos
numa mesa do moderno bar Incógnito, na calçada da Avenida
Sumadija. "Isto aqui é parte da Sérvia há mil
anos. Essa independência é uma lorota. Seria o mesmo que
tirar um pedaço do Brasil e dar para outros. Ficaremos aqui para
sempre." O guitarrista Jovanovic Miljah, de 32 anos, que baixou da
internet os filmes brasileiros Carandiru e Tropa de Elite ("é
violento, mas real"), chegou a tocar com albaneses antes da guerra.
Depois de 1999, nunca mais os viu. "Claro que há gente boa
do lado albanês", testemunha o líder da banda Lazy.
"Mas não podem dizer que isto é a terra deles." "Os albaneses
já têm o país deles, chama-se Albânia e a capital
é Tirana", define Slavko Boshkovic, de 47 anos, engenheiro
mecânico, desempregado pela semiparalisação da mineradora
Trepca, que operava dos dois lados e teve os negócios prejudicados
pelo conflito étnico. "Vai haver guerra", resume Bekim
Bajiun, 38 anos, dono de um café. "Você aceitaria se
eu arrancasse a sua mão?", compara Zoran, de 38 anos, que
não quer dar o sobrenome porque está trabalhando para a
ONU. Eles são conhecidos como membros da milícia sérvia local, que começou no fim dos anos 90 com um grupo que vigiava a ponte, para impedir albaneses de cruzar para o norte. "Aqui, todos somos voluntários", define o advogado Petrovic, rejeitando o termo "milícia". "Todos estamos dispostos a defender nossa terra. Nossa vantagem, aqui, é que somos muitos." Os 110 mil habitantes
de Mitrovica dividem-se mais ou menos ao meio entre sérvios e albaneses.
Ao norte do Rio Ibar, espalhados por três municípios, vivem
cerca de 70 mil dos 120 mil sérvios de Kosovo (cuja população
total soma 2 milhões). Os milicianos sérvios dispõem
de armas pequenas, como pistolas. Também na disposição
de lutar os dois lados se encontram. "Nunca fomos a favor da violência,
mas se o pior acontecer estamos prontos para nos sacrificar por nossa
terra", garante o albanês Azem Janusij, gerente de fornecimento
da companhia elétrica KEK. Como na estrada de
Micronassiliev, albaneses e sérvios seguem em direções
opostas, e não há espaço para os dois. Mas, nesse
caso, ninguém está disposto a ceder. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |