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Disputas
antigas impedem aproximação |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
24 de fevereiro de 2008
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MITROVICA, Kosovo No começo,
Vuka Jovanovic, de 75 anos, vestida de luto, recusa-se a falar ao repórter.
À medida que conta a sua história, é fácil
entender por quê. "Tudo o que eu tinha ficava do outro lado
do rio", conta Vuka, usando um vocabulário servo-croata antigo
que o intérprete, um estudante de direito sérvio de 29 anos
que lutou na guerra de 1999, custa a entender. "Os albaneses queimaram
a minha casa na guerra (de 1999). Eu tinha uma filha inválida,
e não conseguia ir mais depressa enquanto fugia para o norte empurrando
a cadeira de rodas. Os albaneses me perguntaram por que eu não
matava minha filha." A filha única
de Vuka morreu em 2006. Viúva, ela recebe uma pensão de
3 mil dinares sérvios (R$ 92), e vive só num minúsculo
apartamento. Vuka tinha 11 anos quando os alemães invadiram o povoado
de Leposavic, no norte de Kosovo, e teve que fugir com a família
para as montanhas, onde ficaram durante quatro meses, em 1943, durante
a 2ª Guerra Mundial. "Os alemães matavam e roubavam,
e os albaneses eram aliados deles", recorda Vuka. "Os albaneses
tinham uma unidade da SS (polícia secreta nazista) muito temida,
a Skenderbeg." Como todos os sérvios
de Kosovo com que o Estado falou, Vuka é contra a independência
do território em relação à Sérvia.
"Temos de lutar pelo Kosovo", diz ela. "As igrejas são
dos sérvios, não dos albaneses." Em Kosovo se encontram
alguns dos mais antigos santuários dos ortodoxos sérvios.
Os albaneses são em sua maioria muçulmanos, e os restantes,
católicos. Gazimestan, a apenas
5 quilômetros de Pristina, a capital do novo país, foi palco
da primeira Batalha de Kosovo (1389), em que o Império Otomano
derrotou os sérvios. Desde a proclamação da independência,
no domingo, o monumento que lembra esse episódio-chave da história
sérvia está cercado por soldados eslovacos a serviço
da Kfor, a força internacional liderada pela Otan em Kosovo. A cerca de cem metros
de onde o repórter do Estado deixou Vuka, do outro lado
do Rio Ibar, o albanês kosovar Luan Krelona, de 65 anos, caminha
com a neta sob o frio cair da tarde de inverno. "Nossa casa ficava
em Barilet, um bairro misto no norte de Mitrovica", conta Krelona,
que se aposentou como gerente da feira da cidade. "Em 1992, fomos
agredidos pelos sérvios, e tivemos que deixar tudo. Vim com minha
mulher e cinco filhos." Krelona, cujos pais
nasceram em Mitrovica, lembra que antes não havia tantos sérvios
na região. Foi o marechal Josip Broz Tito, fundador e governante
da Iugoslávia entre 1945 e 1980, quem os trouxe, recorda. "Os
sérvios são selvagens", resume Krelona, cujo irmão
foi morto logo depois da guerra de 1999. Nascido em 1942, ele não
se lembra da ocupação da Itália fascista seguida
pela da Alemanha nazista, na 2ª Guerra. "É verdade
que alguns albaneses colaboraram com a Itália e a Alemanha, mas
não todos", intervém o intérprete albanês,
Alban Beci, de 23 anos. Ele conta que seu avô, Sherif Bekteshi,
era um "partisan", ou seja, participou da resistência
contra a ocupação nazista. Bekteshi morreu há 2 anos,
aos 78 anos de idade. De uma esquina da
Avenida Rainha Teuta, Azem Janusij aponta para um prédio marrom
do outro lado do rio. "Eu tinha um apartamento no quinto andar daquele
edifício", afirma ele. "Durante a guerra (1999), tive
que fugir para cá. Nunca mais pude voltar lá." Gerente
de fornecimento da companhia elétrica KEK, Janusij diz que a energia
nunca falta para os sérvios, enquanto os albaneses convivem com
blecautes cotidianos. "Os sérvios
vêm falar das igrejas deles", desdenha Janusij. "Eles
não sabem o que é igreja. Sou muçulmano e tenho respeito
pelos católicos. Mas os ortodoxos não são civilizados." A administração
de Kosovo, supervisionada pela ONU, contrabalança a ajuda sérvia
com recursos doados sobretudo pelos Estados Unidos e pela Europa. "O
que dói nos sérvios é que antes todas as oportunidades
boas de trabalho sempre ficavam para eles, independentemente de sua qualificação",
diz o motorista de ônibus albanês Artan Beca, de 36 anos.
"Agora, o que importa é a qualificação. Eles
não conseguem lidar com essa realidade." Como em muitas casas
e empresas, Arben Kamberi estampa uma bandeira da Albânia em sua
loja de fotocópias. Ele diz que, quando a nova bandeira de Kosovo
(fundo azul, com o mapa do território amarelo e seis estrelas brancas)
estiver à venda, ele poderá pendurá-la também,
mas faz duas ressalvas: "A Albânia é nossa nação,
não o nosso Estado. Mas, no futuro, seria melhor se nos juntássemos.
Ficaríamos mais estáveis e nossa economia, mais forte." Kamberi, cujo pai
aposentado foi morto pelos sérvios em 1999, quando saiu para comprar
cigarros, conclui: "Os sérvios trouxeram a violência
para cá, e estão tentando nos eliminar. É melhor
que nós albaneses sejamos todos uma nação. Assim,
não vão mais nos massacrar." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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