Protesto contra independência reúne 5 mil sérvios em Kosovo
Separados dos albaneses por um rio, representantes de minoria sérvia da cidade de Mitrovica rejeitam divisão

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial

Sábado, 23 de fevereiro de 2008

MITROVICA, Kosovo

Eram 12h44 quando o hino nacional da Sérvia começou a tocar, despertando fortes sentimentos nos cerca de 5 mil kosovares sérvios que se reuniram ontem em Mitrovica, no noroeste de Kosovo, para protestar contra a independência da ex-província sérvia, proclamada no domingo. Se os albaneses são minoria na Sérvia, os sérvios são minoria no novo país criado pelos albaneses - e não se conformam com essa condição.

Desde a proclamação da independência pelo Parlamento de Kosovo, no domingo, os sérvios do norte de Mitrovica - separados pelo Rio Ibar dos albaneses que vivem ao sul da cidade - se reúnem nesse mesmo horário. O número é uma referência à resolução 1244 do Conselho de Segurança da ONU, que em 1999 assegurou a "integridade territorial" da Sérvia, com "autonomia substancial para Kosovo", ao criar uma missão das Nações Unidas (Unmik) no território.Com base nela, os kosovares sérvios consideram "ilegal" a independência de Kosovo, proclamada pela maioria albanesa e reconhecida pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Turquia, entre outros.

"Kosovo é Sérvia e nunca nos renderemos, apesar da chantagem da União Européia", discursou Dragan Deletic, representante do governo sérvio, que não reconhece a independência, assim como a Rússia, tradicional aliada do país. A União Européia, que se prepara para enviar 1.800 policiais, juízes, promotores e fiscais de alfândega para ajudar o governo do novo país a manter a lei e a ordem, acena com um futuro ingresso no bloco tanto de Kosovo como da Sérvia, em troca da reconciliação e da aceitação da independência.

"Não reconheço o Estado albanês de Kosovo", disse Melissa Rakic, estudante de sociologia de 21 anos, que participava da manifestação junto com duas colegas, com o rosto pintado de branco, azul e vermelho, as cores da bandeira sérvia. À pergunta sobre se a solução não seria manter na Sérvia apenas a região norte, onde se concentra a maior parte dos 120 mil sérvios de Kosovo (de uma população de 2 milhões), Melissa respondeu: "Não quero a divisão de Kosovo. Esta é a terra santa da Sérvia."

Nas caixas de som do palanque montado na Avenida Sumadija, a principal do norte de Mitrovica, tocava a tradicional canção patriótica Vidovdan, para comoção dos manifestantes: "Onde quer que eu vá no mundo todo, tenho de voltar a Kosovo. Deus poderoso, você deve nos ajudar a manter Kosovo em nossa alma. Temos de lutar por ele."

O pequeno território de menos de 11 mil km² foi cenário, nos últimos séculos, de sangrentas batalhas entre os sérvios e os árabes, turcos e albaneses, e nele se encontram algumas das mais importantes igrejas e locais sagrados para os cristãos ortodoxos sérvios, que dizem que eles não podem ficar nas mãos dos albaneses (90% da população), em sua maioria muçulmanos. Melissa e suas colegas contaram que nunca tiveram amigos albaneses, apesar de a pouco mais de cem metros dali, cruzando o rio, e na mesma cidade de Mitrovica, a população ser praticamente toda albanesa.

Helicópteros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que assumiu a defesa do território depois de bombardear as forças sérvias em 1999, sobrevoaram Mitrovica durante todo o dia. As ruas eram patrulhadas por veículos blindados da Kfor, a força liderada pela Otan com 16 mil soldados de 35 países.

Soldados franceses a serviço da Kfor impediram ontem a entrada no território de ônibus com manifestantes vindos da Sérvia. Mas, segundo a Associated Press, alguns parecem ter conseguido furar o bloqueio, e participado de uma escaramuça com a polícia, na ponte sobre o Rio Ibar, que separa os lados sérvio e albanês. Os manifestantes jogaram pedras e garrafas nos policiais, mas ninguém saiu ferido.

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