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Irã expõe
contradição de Bush |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo,
6 agosto de 2006
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DAMASCO Essas imagens são
a representação gráfica do intrincado xadrez que
se desenrola no Oriente Médio. Ele vem de longe, mas se pode convencionar
que teve início na invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1990.
Saddam Hussein anexou o que chamou de "a 19ª província
iraquiana" depois de receber, por canais diplomáticos, o sinal
de que o governo do então presidente George Bush, pai, não
reagiria militarmente. A invasão do
Kuwait era uma oportunidade aguardada pelos Estados Unidos para estabelecer
no Golfo Pérsico presença militar robusta. O único
território disponível com dimensões compatíveis
era o da Arábia Saudita, apesar das previsíveis reações
à presença de forças estrangeiras na terra sagrada
do Islã. Ela desencadeou a fúria do saudita Osama bin Laden
contra os Estados Unidos, ao lado de uma onda de atentados dentro do reino
que sacudiu a monarquia. As Forças Armadas
americanas precisavam de um novo santuário na região. Em
2003, George Bush, filho, movido, entre outros, por algum ímpeto
edipiano, decidiu que o Iraque estava maduro para o papel, depois de desidratado
por uma década de sanções econômicas. Saddam Hussein, causador
de uma guerra com o Irã que deixou 1 milhão de mortos (1980-88),
era arquiinimigo do regime iraniano, mas os aiatolás denunciaram
a intervenção americana com a máxima veemência.
O Iraque, com sua vasta maioria xiita (60%), funcionava como anteparo
entre os Estados Unidos e o Irã, e sua ocupação pelos
americanos os colocaria frente a frente com o Irã. O aniquilamento de
Saddam e o redirecionamento das prioridades americanas para a "guerra
ao terror" arruinaram até mesmo uma bem-sucedida política
de boa vizinhança tácita entre o Irã e Israel, frente
aos rivais árabes comuns. (O então líder palestino
Yasser Arafat visitava em Bagdá na época da invasão
do Kuwait.) A nova configuração elevou para um nível
insuportável a crônica sensação de vulnerabilidade
do Irã, rodeado de vizinhos hostis. Os antigos planos
nucleares, que vinham sendo conduzidos sem alarde, converteram-se, com
a eleição do ultraconservador Mahmud Ahmadinejad, em 2005,
em trunfo para negociação ou em elemento dissuasivo, conforme
os humores internacionais. Nas últimas
semanas, o impasse acerca do programa nuclear iraniano aproximava-se do
clímax, chegando ao fim o prazo que Teerã se deu (20 de
agosto) para responder à proposta de incentivos dos cinco membros
do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha (Grupo dos Seis)
para desistir dele ou agüentar as conseqüências. O Irã percebeu
que podia lutar com as armas dos Estados Unidos. A estratégia
de Bush para o Oriente Médio tem dois pólos. O pólo
negativo é a guerra ao terror; o positivo, a promoção
da democracia, o "legado" que o presidente americano fantasiava
deixar, com o Líbano como principal laboratório. Depois
da morte de Arafat, em 2004, e do assassinato do primeiro-ministro Rafic
Hariri - do qual a Síria foi considerada suspeita -, em 2005, Bush
pressionou pela realização de eleições "livres"
na Autoridade Palestina e no Líbano, sem medir as simpatias pró-islâmicas.
Resultado: o Hezbollah
e seus aliados obtiveram 27% das cadeiras do Parlamento libanês
e um papel proeminente no novo gabinete, enquanto o Hamas arrebatou o
governo da AP. Ultimamente, o Hezbollah
vinha sendo pressionado a depor armas - a parte não cumprida da
resolução 1559 do Conselho de Segurança que exigiu
a saída da Síria. Eleito o governo do
Hamas, Israel passou a negar-lhe os repasses de impostos, enquanto EUA
e União Européia suspenderam a ajuda financeira. O Irã
veio a seu socorro, com US$ 50 milhões. Israel já havia
flagrado, nos últimos anos, o Hamas trazendo armas do Irã.
A amizade do Hamas (sunita) com o Hezbollah (xiita) data de 1992, quando
foi acolhido por ele, depois que Israel o expulsou para uma "terra
de ninguém" no sul do Líbano. O jogo estava armado. Ciente de que o novo
governo do inexperiente Ehud Olmert, destituído de credenciais
no tema da segurança, reagiria desmedidamente para se provar confiável,
o Hamas atravessou a fronteira e capturou um cabo israelense, atraindo
para a Faixa de Gaza a fúria israelense. Era o primeiro sinal,
antes de uma reunião crucial do secretário-geral do Conselho
Supremo de Segurança do Irã, Ali Larijani, com representantes
europeus, sobre o tema nuclear. Nesse encontro, as portas se fecharam
de vez para as pretensões iranianas de levar adiante seu programa
nuclear sem enfrentar sanções do Conselho de Segurança.
De Bruxelas, a delegação iraniana voou diretamente para
Damasco. No dia seguinte, comandos
do Hezbollah cruzaram a fronteira do Líbano, mataram oito soldados
israelenses e capturaram dois. Israel seguiu o padrão, e tratou
o Líbano como a Faixa de Gaza. O governo israelense sabe que o
sinal verde dos EUA para a ação no Líbano muda para
vermelho se ameaçar derrubar o primeiro-ministro anti-sírio
Fuad Siniora - que quase certamente daria lugar a um governo mais pró-sírio,
além de pró-Hezbollah. Assim, no tabuleiro
fraturado do Líbano, o Irã conseguiu expor a óbvia
contradição entre democracia e guerra ao terror - os dois
pólos da política de Bush. A carnificina de Qana,
há uma semana, foi a senha para Ahmadinejad anunciar que seu governo
estava "reavaliando" sua resposta final à oferta de incentivos
do Grupo dos Seis. É jogo jogado. O Irã parece ter saído
com as brancas. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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