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Brasileiros enfrentam o
dilema de ficar ou partir |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Quinta-feira,
10 agosto de 2006
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SULTAN YAQOUB,
VALE DO BEKAA A saída do
comboio brasileiro do Vale do Bekaa estava marcada para as 7h de ontem.
Pontualmente, os 99 passageiros - entre brasileiros, parentes libaneses
e sete canadenses, de carona - estavam prontos para embarcar nos três
ônibus. No meio da noite, no entanto, a embaixada do Brasil em Washington
havia ligado avisando que as autoridades israelenses pediram para segurar
até as 8h30. Enquanto isso, os
pais que ficavam - para trabalhar e cuidar do patrimônio da família
- prolongavam, com os olhos marejados, as despedidas das esposas e dos
filhos. Entre eles, estava Mostafa el-Orha, tesoureiro da prefeitura de
Sultan Yaqoub, cidade de 12 mil habitantes, dos quais dois terços
são brasileiros. "Nunca fui ao Brasil", contou Mostafa,
em português ensinado por sua mulher paulistana de origem libanesa.
"Tirei visto para o Brasil, mas vou pensar muito antes de ir. Não
posso deixar meu trabalho, minha casa." O desespero de muitas
famílias para serem retiradas do Líbano ofusca outra realidade:
os dilemas de muitas outras entre ficar e partir. Dos 10 mil a 20 mil
cidadãos brasileiros que moram no Bekaa, apenas cerca de 2 mil
foram embora (metade nos comboios). A resistência tem vários
motivos: não ter como se sustentar no Brasil; os riscos de deslocamentos
(qualquer veículo em movimento é um "alvo legítimo",
segundo Israel); e até o medo de voltar e encontrar suas propriedades
ocupadas pelo milhão de libaneses que deixaram suas casas por causa
da guerra. Na terça-feira,
o Estado testemunhou a aguda indecisão de uma biomédica
de pais libaneses nascida em São Paulo. Ex-funcionária do
Hospital das Clínicas, ela se casou com um libanês, tiveram
cinco filhos e se mudaram para Ghazze, também no Bekaa. "Aqui,
não conseguimos dormir a noite inteira, por causa dos bombardeios",
disse ela. "Mas o que vou fazer no Brasil? Vou viver lá de
quê?" Depois de se casar, há 18 anos, ela abandonou
a profissão, e não se sente capaz de voltar a trabalhar.
Às 8h30, seguindo
o procedimento, o diplomata Ruy Amaral, que organiza os comboios no Bekaa,
liga para a embaixada em Beirute, em busca da confirmação
israelense. Que só vem às 9h10. Um minuto depois, o motorista
Khaled, cuja mãe é brasileira, sai liderando o comboio.
Numa partida triunfal, ele vai buzinando para os moradores da cidade,
sorrindo e acenando. Quando passamos pela
vizinha Ashtura, Abdalla Fares, um ex-policial libanês de 61 anos,
mostra a avenida onde um míssil israelense destruiu completamente
um táxi sírio que trafegava ao seu lado, matando os cinco
passageiros, há duas semanas. Abdalla e sua mulher Hamdi, de 62,
que moram há 35 anos em São Paulo, não vêem
a hora de voltar. "Vamos para nossa terra", diz Abdalla. "Nunca
vi igual o povo brasileiro. Eles têm um coração diferente." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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