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Sem respostas, guerra completa
um mês |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado,
12 agosto de 2006
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BEIRUTE Um mês depois
do início dos ataques israelenses, há mais perguntas do
que respostas sobre as conseqüências dessa guerra para o Líbano.
Neste momento, os bombardeios israelenses galvanizam um sentimento de
união nacional perante um inimigo comum, e a resistência
reveste o Hezbollah de heroísmo. Depois da guerra, a política
deve voltar às suas disputas cotidianas, fincadas em identidades
religiosas. Mas uma lição poderá ficar: a de que
o Líbano precisa se tornar um Estado-nação, se não
quiser ser destruído periodicamente. Hoje em dia, são
poucas as vozes que ousam criticar publicamente o Hezbollah, ou ao menos
co-responsabilizá-lo por essa guerra, desencadeada pela morte de
oito soldados israelenses e captura de outros dois, numa operação
de comando da milícia xiita, no dia 12 de julho. O sentimento contra
Israel é mais forte. Entretanto, terminada a guerra - não
se sabe quando -, esse sentimento se dissipará, acreditam analistas
de diferentes correntes, ouvidos pelo Estado. E o Hezbollah poderá
ter de pagar politicamente pelo que fez. Na verdade, afirma
Boutros Labaki, presidente do Instituto para o Desenvolvimento Econômico
e Social, o Hezbollah já começou a pagá-lo, ao ter
de aceitar o plano de sete pontos do primeiro-ministro Fuad Siniora, que
prevê o destacamento de 15 mil homens do Exército libanês
no Sul do Líbano. "Todos sabem que foi o Hezbollah que deu
o pretexto para Israel atacar", diz Labaki, um cristão maronita.
"Nesse sentido, ele está enfraquecido politicamente. Não
pode correr o risco de ficar fora do consenso nacional." Camille Habib, professor
de ciência política e reitor da Faculdade de Economia e Administração
de Negócios da Universidade Libanesa, acredita que o Hezbollah
sairá politicamente mais forte da guerra. Ele admite que, entre
os xiitas que perderam tudo, há muitos que perguntam "por
que nós?" Mas, avalia Habib, a maioria dos xiitas está
com o Hezbollah e a Amal, antes sua rival, hoje sua aliada no Parlamento,
onde somam 27% dos deputados. "O Hezbollah,
tendo ou não um bom desempenho militar, continuará tendo
uma voz na política libanesa", considera Habib, um cristão
que não gosta de ser rotulado assim. "Mesmo os libaneses que
não apóiam o Hezbollah apóiam o Líbano. Israel
está destruindo a infra-estrutura do país. E a única
facção libanesa que está resistindo é o Hezbollah."
A maioria dos libaneses, prossegue Habib, "está feliz de ver
tanques israelenses sendo destruídos no Sul do Líbano". Jihad Zein, editor
de Opinião do jornal An-Nahar, um dos mais importantes do Líbano,
não arrisca prever se o Hezbollah sairá enfraquecido politicamente
ou não dessa guerra. "Estamos num ponto de inflexão",
observa Zein, de origem xiita. "O Hezbollah tem uma base muito sólida
na comunidade xiita. Mesmo que venha a enfraquecer-se, demorará
anos." O editorialista acredita que, se quiser, o Hezbollah pode
dispensar seu braço militar e se consolidar como partido político.
Em todo caso, concordam
os analistas, o Líbano continuará sendo um Estado confessional,
com política e identidade religiosa fortemente entrelaçadas,
por muitos anos (dois séculos, segundo Zein). Nas comunidades cristãs,
drusas e sunitas, ao lado do sentimento de união nacional, sedimentam-se
visões longamente nutridas sobre os xiitas. "Os xiitas no
mundo são como os judeus", comparou o múfti (principal
autoridade sunita) do Estado do Vale do Bekaa, Khalil el-Maiss, em entrevista
ao Estado, em Sultan Yaqoub, 50 quilômetros ao sul de Beirute.
"Eles têm uma capital só e um líder só:
o Irã." Sobre as chances de os xiitas, que representam 40%
dos 3,85 milhões de libaneses, se integrarem num Estado-nação
libanês, o múfti pondera, com sua sinceridade cortante: "Os
xiitas em geral acreditam que têm de submeter-se politicamente a
líderes religiosos. Para eles, religião e luta armada são
uma coisa só. A ideologia xiita é baseada na força
militar. Mas é claro que uma parte dos xiitas quer voltar para
suas origens árabes." O que deve ficar evidente,
mais cedo ou mais tarde, é que o Líbano está sendo
destruído porque suas facções religiosas deixam-se
utilizar por interesses que não são libaneses. "Toda
a força do Irã está mobilizada no Hezbollah. O Hezbollah
é o Irã no Líbano", diz o múfti. "Não
existe conflito religioso no Líbano. É político.
O que está acontecendo no Líbano é um conflito entre
o Irã e os Estados Unidos através de Israel. Enquanto o
Hezbollah continuar armado, haverá pretexto para Israel atacar
o Líbano. Todos os libaneses entendem essa realidade." Pergunte ao general
Adnan Daoud, o libanês que comanda os 2 mil soldados franceses,
chineses, indianos e ganeses da Finul, a força de observação
da ONU no Sul do Líbano. "Não temos Exército
libanês aqui, e esse é o problema", disse o general
ao Estado, em seu quartel-general em Marjeyoun, Sul do Líbano,
na segunda-feira. A área de Marjeyoun estava então sob intenso
bombardeio israelense, enquanto o Hezbollah continuava disparando seus
foguetes Katiucha contra o Norte de Israel. Na quinta, Israel avançou
por terra e ocupou a área. Um milhão de libaneses vive -
ou vivia - no Sul do Líbano. "Aqui, só tem a foto do
presidente e a bandeira libanesa", ironizou Daoud, um cristão
ortodoxo. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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