|
Reduto do Hezbollah é
agora pó e entulho |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Segunda-feira,
14 agosto de 2006
|
|
BEIRUTE Quem entra no bairro
de Haret Hreik deve aguçar a audição e a visão.
E ignorar o olfato. Os estrondos dos aviões israelenses são
o aviso de que se está no lugar errado na hora errada. Os objetos
no chão coberto de pó, dentro das casas, dos pátios,
entre os destroços, são mais reveladores que a destruição
em si - que com o tempo se banaliza. O cheiro de cadáveres que
exala dos escombros produz primeiro náusea, depois dor de cabeça,
até secar completamente a garganta. Mesmo depois de destruído
e evacuado, a entrada no bairro continua sendo controlada por milicianos
do Hezbollah, que circulam em motocicletas. Jornalistas têm de credenciar-se
perante eles. E esperar a ordem para entrar. Nem o Exército nem
a polícia libanesa podiam entrar na área onde ficava o quartel-general
do Hezbollah - chamada de Praça de Segurança. O prédio
que abrigava a sede da organização e o escritório
de seu líder, Hassan Nasrallah, foi reduzido a um monte de pedaços
de concreto e pó. Os bombardeios ao
reduto do Hezbollah no sul de Beirute começaram no dia 12 de julho,
poucas horas depois da captura de dois soldados israelenses e morte de
outros oito. O último antes da visita do Estado ocorrera
na noite de sábado. A visita foi entre as 11h e as 13h30 de ontem.
Às 14h45, recomeçaram, com uma barragem de 20 mísseis.
E seguiram tarde e noite adentro. Novos panfletos caíram sobre
Beirute de noite, avisando para ficar longe de toda a área xiita
do sul da cidade, chamada de Dahye. Os mísseis
e bombas soterram consigo uma parte dos objetos que estavam dentro dos
prédios e casas; outra parte é lançada para fora.
Dos escritórios do Hezbollah, voaram documentos cujos fragmentos
ainda estão na rua. Um deles é o rodapé de algum
memorando: "Em nome de Deus. O Hezbollah são os conquistadores.
Resistência islâmica. 28 de fevereiro de 2005. Por favor,
cumpra a ordem. Preparação da Unidade 600. Número
de referência 127.5509. Com a bênção de Deus." A poucos metros dali,
um velho livro da poetisa Daisy al-Amir está aberto na página
94, no poema Al-Waad, ou A Promessa - o mesmo nome que Nasrallah deu à
operação do dia 12 de julho. Esquecido no meio da destruição,
o poema parece dialogar com ela: "Fiz um seguro na minha vida contra
a palavra promessa. Promessas se tornam tão perigosas que ameaçam
a vida das mulheres, de todas as pessoas. É por isso que as pessoas
se asseguram contra esse perigo, que engole os dias e os anos, porque
promessas sempre ficam seladas com cera vermelha. E matam os sonhos e
nunca realizam nada, porque o que fica é a decepção." A Praça da
Segurança estava rodeada de prédios residenciais, cujos
objetos domésticos - sapatos, brinquedos, roupas, cadernos, cadeiras
- se misturam agora no chão com os objetos do Hezbollah, numa metáfora
da proximidade física entre a população civil e a
organização político-militar. Uma embalagem de brinquedos
"seguros e duráveis" se espreme debaixo de um tonel de
aço. Ao seu lado, um casaco e uma boina militar. Mais adiante,
uma mala de viagem, inteiramente aberta e vazia. Tudo isso está
espalhado no chão do que era o estacionamento do Hezbollah. Bombardeios dispõem
as coisas de forma caprichosa. Colchões se debruçam nas
paredes retorcidas, metendo-se entre fendas de lajes demolidas, como se
fossem línguas. Cobertores projetados no ar se penduram nos fios
elétricos, que se entrelaçam sobre as ruas como teias de
aranha, sustentando os postes, numa inversão de papéis. Blocos inteiros de
concreto viraram pó. Mas um óculos de leitura caiu com as
lentes intactas, quebrando apenas uma de suas hastes. Um peão de
brinquedo, feito de papel machê vermelho vivo, equilibra-se sobre
sua base esférica, apoiado num pedaço de tijolo de concreto.
Uma bola de plástico amarela permanece cheia de ar, enquanto portas
de aço se dobram como se fossem de papel. As roupas no ateliê
de costura Veneza aguardam suas donas, intactas em seus cabides. Fardas
militares de camuflagem e coletes à prova de bala continuam perfeitamente
dobrados nas prateleiras de um depósito. Às vezes, os
mísseis arrancam a fachada inteira de um apartamento, deixando
visível um quarto ou cozinha, com todos os seus móveis e
objetos, como se fosse uma casa de bonecas. Na parede de um escritório,
um cartaz de campanha pede votos para cinco xeques candidatos da Coalizão
Iraquiana, do aiatolá Mohamad al-Moussaoui, líder xiita
no Iraque. E do lado de fora de uma loja de baterias e alarmes antifurto,
a folhinha de um calendário com a foto de Nasrallah, publicado
pelo Comitê de Apoio à Resistência Islâmica,
ainda está no dia 12 de julho de 2006, ou 16 de jamade de 1427,
segundo o calendário muçulmano. O tempo parou em Haret Hreik. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |