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Perdi tudo. Israel
rouba nossos sonhos |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Terça-feira,
15 agosto de 2006
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TIRO, SUL DO LÍBANO O clínico geral
Ghassan Farran estava atendendo feridos de guerra num ambulatório
improvisado no prédio da prefeitura de Tiro, no dia 26, quando
recebeu a notícia. O prédio onde ele vivia com a mulher
e quatro filhos tinha sido completamente destruído por mísseis
israelenses. Farran, o único médico que restara na cidade
de 120 mil habitantes, dos quais 90 mil saíram fugindo da guerra,
ainda ficou dois dias atendendo, antes de ir ao local, ao qual não
pretende voltar jamais. "Fiquei chocado",
conta Farran, que é vereador de Tiro e, como seus 20 colegas e
o prefeito, não recebem salário. Em seguida, voltou para
continuar atendendo os pacientes, que não paravam de chegar. No
prédio, diz ele, funcionava um escritório de relações
públicas do Hezbollah, sem função militar. "Perdi tudo o
que eu tinha", resume o médico, que, com o cessar-fogo, pretende
agora voltar para seu consultório particular, abandonado há
mais de um mês. Ferran conta que estava feliz porque, uma semana
antes do ataque, seu filho mais velho tinha passado no exame final do
ensino médio. "Agora, não sei como vou fazer para bancar
a universidade dele." "Israel rouba
nossos sonhos", declarou Farran. De religião xiita, ele conta
que nunca teve grande apreço pelo Hezbollah. "Vejo a vida
de uma forma muito diferente da deles", explica o médico de
49 anos. "Não fui, não sou nem serei Hezbollah. Mas,
quando Israel destruiu minha casa, empurrou-me para o Hezbollah."
Das cidades importantes do Líbano, Tiro, a maior do Sul, foi a
mais castigada pela guerra. O Hezbollah esconde
em seus extensos bananais na costa do Mediterrâneo suas baterias
de foguetes Katiucha, e os lança dali, atraindo os bombardeios
israelenses. Tiro e arredores foram cenário de alguns dos mais
encarniçados enfrentamentos entre os guerrilheiros xiitas e os
soldados israelenses. Com 60% de xiitas,
25% de cristãos e 15% de sunitas, e mais ainda uma população
de 55 mil refugiados palestinos distribuídos por cinco campos,
Tiro, 80 quilômetros ao sul de Beirute sempre foi vista por Israel
como um reduto político e militar do inimigo. Depois da guerra,
a hostilidade dos moradores dessa cidade histórica, fundada pelo
fenícios há 7 mil anos e ocupada pelo império romano,
parece muito maior - independentemente de seu grau de simpatia pelo Hezbollah. "Muita gente
que não apoiava o Hezbollah passou a apoiar, porque é a
primeira vez que Israel perde uma guerra", diz Tareq el-Ali, de 17
anos, da segunda geração de palestinos nascidos no campo
de refugiados de El-Buss. "Se tivermos
de procurar culpados por essa guerra, teremos de começar pela criação
do Estado de Israel, em 1948", diz Raymond Salha, um cristão
melequita (segue o papa e o rito grego ortodoxo) de 71 anos, dono do Hotel
al-Fanar, na beira-mar, cujos dez quartos deveriam estar cheios, como
em todos os verões, de turistas franceses, italianos, holandeses,
japoneses e coreanos, em vez de correspondentes de guerra. "Em seguida,
os árabes, por não terem aceitado metade da Palestina (no
Plano de Partilha da ONU, em 1947). Hoje, eles provavelmente não
têm nem um Líbano." Para Salha, "você pode
considerar que o Hezbollah está errado, é tolo, fora da
lei, o que você quiser, mas não era necessário Israel
ter destruído o país por causa da captura de dois soldados". O enfermeiro Mohamad
Rachid, de 45 anos, muçulmano sunita, voltou há cinco anos
de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, onde recebia um salário
de US$ 3 mil. Aqui, não conseguiu encontrar emprego em sua profissão,
e vinha trabalhando num supermerdado, com um salário de US$ 300,
que sua mulher, contratada como secretária, complementava com outros
US$ 200. Com a guerra, ambos foram dispensados, e estão com dificuldade
de sustentar os cinco filhos. A oficina mecânica de frente para o apartamento onde moram (alugado por US$ 200) foi atingida por dois mísseis há duas semanas. Eram 17h30, e seu filho mais novo, Abbas, de um ano e meio, estava no pátio do apartamento térreo, que ficou coberto de pedras e pó. Mas o menino não se machucou. O dono da oficina, Ahmad Karaoum, morreu na hora. Sua mulher e dois filhos, que estavam em casa, nos fundos, ficaram feridos. "Eu culpo Israel
e a América", diz Rachid. "A América é
o grande demônio do mundo. Todos os problemas vêm dela."
Para ele, se Israel trocar prisioneiros com o Hezbollah e devolver ao
Líbano as Fazendas de Shebaa, não terá mais problemas
com o grupo guerrilheiro. "Todos aqui gostam do Hezbollah." Obviamente, o entusiasmo maior está na maioria xiita. O comerciante xiita Hassan Awali, de 43 anos, percorria ontem as ruas de Tiro com as filhas Sara, de 12, e Salia, de 11, no seu imponente Mercedez-Benz, com a bandeira do Hezbollah. "É algo que sobe à cabeça, é um motivo de orgulho", disse Awali, que antes da guerra já apoiava o Partido de Deus. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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