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Em Kabrikha, toda casa já
foi destruída uma vez |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Quinta-feira,
17 agosto de 2006
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KABRIKHA, SUL DO LÍBANO Sentada na varanda
da casa de Ali, sobre a qual tremula uma grande bandeira do Brasil, Zakie
vai desfiando o longo novelo de conflitos que presenciou em Kabrikha,
o vilarejo onde nasceu, assim como seu pai, e para onde seu avô
se mudou no século 19, vindo de Aitit, outra localidade do Sul
do Líbano. Uma das recordações mais vivas de Zakie
é a de seu pai sendo levado à força pelos turcos
para lutar na Primeira Guerra Mundial. Finda a guerra, vieram
os franceses, e ela se lembra dos novos colonizadores invadindo sua casa
e quebrando um espelho grande, em castigo pelo fato de os moradores não
darem informações sobre esconderijos de combatentes da resistência.
Finalmente vieram os israelenses, cuja fronteira hoje se encontra a 10
quilômetros de Kabrikha, em linha reta. Dali se vêem torres
de televisão israelenses. O repórter
quer saber quem foram, do ponto de vista de Zakie, os piores: os turcos,
os franceses ou os israelenses. "Bem, antigamente pelo menos não
havia bombardeios aéreos", responde. Com audição
reduzida, ela diz que os bombardeios a atordoam, porque sente a terra
tremer mas não sabe exatamente de onde eles vêm. "Fico
num cantinho." Israel bombardeou e invadiu a área em 1948,
1972, 1978, 1982, 1993, 1995 e neste ano, contabilizam os moradores. "Aqui, não
há nenhuma casa que não tenha sido destruída no mínimo
uma vez por Israel", afirma Ali, 42 anos, que em 1985 se mudou para
Foz do Iguaçu, hoje tem loja de eletrônicos em Ciudad del
Este, mas mora do lado brasileiro, onde seus filhos nasceram. Também
não há nenhuma casa que não seja de pessoas que moram
no Brasil ou que tenham parentes no Brasil. Kabrikha é, num certo
sentido, um reduto brasileiro do Hezbollah, onde o verde e amarelo das
duas bandeiras competem e se mesclam, a do Brasil nos telhados das casas,
a do Partido de Deus nos postes das ruas. A cidade tem cerca
de 5 mil habitantes, dos quais apenas 1.500 passam todo o tempo aqui.
O resto costuma vir nas férias de verão, precisamente esta
época do ano. "Quem é daqui gasta seu dinheiro para
construir casas boas aqui", explica Mohamad Hijazi, casado com uma
brasileira de Foz do Iguaçu, com quem mora, com quatro filhos,
num apartamento no sul de Beirute. Com as estradas congestionadas
pelos milhares de pessoas retornando para o Sul, aproveitando a trégua
iniciada na segunda-feira, ontem foi dia de reencontro em Kabrikha, 120
quilômetros ao sul de Beirute. Os que voltaram para ver o que se
passara com suas casas abraçavam e beijavam nas ruas aqueles que
ficaram e enfrentaram os bombardeios durante 33 dias. Ahmad Hijazi, de
84 anos, tio de Ali, vasculhava o armário da cozinha - provavelmente
o único móvel intacto em sua casa. Aparentando mais exaustão
do que altivez, Abed Atwi, de 60 anos, contava como aturou o bombardeio
todo esse tempo, com sua mulher. "Melhor morrer em casa do que na
rua", disse ele, na frente do sobrado semidestruído - mas
cuja estrutura, como a maioria das casas parcialmente atingidas, parece
comprometida. "E evitar que Israel tome nossa terra." De frente, há
uma casa bombardeada em 1972, reconstruída, bombardeada em 1978,
reconstruída, e bombardeada agora de novo. Da original, contam
os vizinhos, só resta um pé de amora. "Volte daqui
a seis meses, para ver como esse povo se levanta e reconstrói",
diz Ali. Mais adiante, está
a casa e ateliê do artista Mortada Hijazi, de 70 anos, que talha
figuras de cimento nas paredes, inspirado nas colunas romanas encontradas
em grande quantidade em Kabrikha. "Aqui é minha casa, minha
cidade", orgulha-se Mortada, ao responder por que não foi
embora durante o bombardeio. Seu filho, sua nora brasileira e seus dois
netos moram no sul de Beirute e estavam de férias em Kabrikha quando
começou o bombardeio. Mas conseguiram chegar a salvo à capital.
"Adoro minha nora", diz Mortada. "Eu torço pelo
Brasil." "Ninguém
deseja voltar para casa e encontrá-la destruída", diz
Ali. "Ninguém quer ter que matar para sobreviver. Queremos
viver em paz. Mas não esqueça que foi Israel que invadiu
o Líbano." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |