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Brasileira exibe orgulho
do filho mártir |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado,
19 agosto de 2006
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YATAR, SUL DO LÍBANO Os homens levaram
os 11 caixões envoltos na bandeira amarela e verde, entoando: "Inta
Hezbollah, laka al-shahada" (se você é do Partido de
Deus, para você é martírio). Poderia ser apenas um
slogan político, uma frase de efeito mecanicamente repetida, um
consolo vazio. Não para a família de Ibrahim Saleh, 17 anos,
o filho de mãe brasileira que morreu lutando pelo Hezbollah. "Graças
a Deus estou muito bem, muito orgulhosa", disse ao Estado
Saqiba Kourani, mãe de Ibrahim, depois de se despedir ontem do
filho, cujo corpo atingido por fragmentos de mísseis foi cortado
em pedaços. "Nesse mundo, não tem nada", continuou
Saqiba, nascida em Itapevi (SP) há 43 anos. "A gente acredita
que a vida começa no paraíso." Dez dias depois de
iniciada a guerra (no dia 12 de julho), Ibrahim disse para a mãe
e as irmãs que estava indo lutar com o Hezbollah. Seu irmão
de 21 anos já estava na guerra - da qual voltaria a salvo. "Foi
de bom coração que eu aceitei, porque desde pequeno ele
falou que ia pegar esse caminho" recordou Saqiba, em português.
"Quando tinha três, quatro anos, ele só queria armas,
porque ele via como vivíamos em guerra." Ao se despedir, contou
Saqiba, seu filho "disse que não voltava mais, e não
voltou mesmo". Ela concluiu: "Ainda tenho dois, que vão
seguir o mesmo caminho, se Deus quiser." "Perdi dois netos muito queridos", disse Ramzia, de 78 anos. Hamid Suaidan, de 21 anos, primo de Ibrahim, cujos pais nasceram no Líbano, também morreu lutando pelo Hezbollah e foi enterrado ontem. Aparentemente, os dois atuavam em bases de lançamento de foguetes Katiusha, bombardeadas por Israel. "Aqueles vagabundos
israelenses, a gente estava andando na rua, e eles bombardeavam tudo",
prosseguiu em português a avó, que se mudou com o marido
para o interior de São Paulo em 1960, e até hoje tem casa
e dois filhos em Itapevi. "Nós perdemos nossa gente, mas,
graças a Deus, eles perderam a guerra." A casa vizinha à
sua - em cujo andar de baixo mora a mãe de Ibrahim - foi inteiramente
destruída, assim como boa parte das casas de Yatar, reduto do Hezbollah
a 6 quilômetros da fronteira com Israel. "Viu que os israelenses
atacaram até nosso cemitério?", perguntou Sara, de
44 anos, tia de Ibrahim e de Hamid, que como as outras irmãs que
nasceram no Brasil se casou e se estabeleceu no Líbano. "Eles
querem nos apagar duas vezes, porque sabem que, aqui, até os mortos,
a terra, o capim são Hezbollah. Nós, mulheres, só
não lutamos porque temos que criar nossos filhos para poderem lutar
contra Israel." Sara, também
nascida em Itapevi, explicou a serenidade da família: "Quem
tem um mártir fica muito feliz com ele. Agora, a gente anda de
cabeça bem erguida, porque tem um menino que morreu na guerra."
Famílias de mártires têm ajuda em dinheiro e os melhores
hospitais e escolas, patrocinados pelo Hezbollah, que recebe dinheiro
do Irã. Fotos do líder da Revolução Islâmica
no Irã, Ruhollah Khomeini, decoram as entradas e saídas
das cidades da região. Um dos xeques presentes
ao enterro passava consolando os parentes dizendo: "Nem mesmo o mundo
inteiro vale uma gota de sangue de Ali", referindo-se ao genro de
Maomé e, na visão dos xiitas, seu sucessor. Os parentes
e amigos cumprimentavam Ali Suaidan, o pai de Hamid: "Parabéns!
Que bom para você que seu filho é um mártir."
Um cheiro forte de
corpos em putrefação dominava o ar. Ibrahim morreu há
dez dias. Seu corpo, como os demais, aguardava o fim da guerra numa vala
temporária em Tiro, para ser enterrado em Yatar. Uma menina carregava
um retrato emoldurado do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah,
e chorava olhando para ele, como se buscasse consolo. "Eu amo Nasrallah",
disse Zena, de 37 anos, outra tia paulista de Ibrahim e Hamid. "Ele
é um homem forte." Ibrahim, que nasceu em Abidjã (Costa
do Marfim), onde seu pai trabalhava, adorava futebol e sonhava conhecer
o Brasil um dia. Já tinha até passaporte brasileiro. Mas
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