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Baalbek é o enclave
do Irã no território libanês |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo,
20 agosto de 2006
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BAALBEK, LÍBANO Sobre as ruínas
da antiga Baalbek, Alexandre, o Grande mandou, em 333 a.C., construir
um templo para Zeus. E chamou a cidadela de Heliópolis, por causa
de seu clima seco e dias ensolarados, que lhe valeram seu primeiro nome
fenício: baal, de sol; bek, do Vale do Bekaa. Depois vieram os
romanos, que ali ergueram o maior complexo de templos pagãos da
Antigüidade. Em seguida, os cristãos deixaram sua marca, com
uma estupenda igreja bizantina. Finalmente, as conquistas árabes
de 636 converteram a cidadela numa fortaleza militar. Catorze séculos
depois, Baalbek continua a síntese do espiritual e do bélico.
O quiosque de souvenirs em frente à cidadela vende camisetas com
o fuzil verde sobre o fundo amarelo e as inscrições: "Hezbollah
hum al-ghaliboun" (O Partido de Deus são os conquistadores)
e "Al-mukawama al-islamiya" (A resistência islâmica)
. Numa versão
kitsch dos esplendorosos pórticos greco-romanos, a entrada de Baalbek
é hoje emoldurada por uma estrutura de ferro que exibe, no meio,
o retrato do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, ladeado pelo
líder da Revolução Islâmica, Ruhollah Khomeini,
e pelo atual líder espiritual iraniano, Ali Khamenei. Os dois ícones
iranianos reaparecem mais adiante, no santuário para a filha do
Imam Hussein, construído com dinheiro de Teerã e as mesmas
pastilhas de vidro que revestem o santuário de Qom, no Irã. Baalbek é um
enclave do Irã no Líbano. Sobre a casa bombardeada do xeque
Mohamad Yazbek, número 3 na hierarquia do Partido de Deus, tremulam
três bandeiras iranianas - mais do que todas as bandeiras libanesas
que o Estado encontrou na cidade de 140 mil habitantes. Foi por
causa de Yazbek que, no dia 2, comandos israelenses desceram de helicóptero
e invadiram o Hospital Dar al-Hikma, pensando que ele estava internado
lá. Como todos os hospitais e escolas do Hezbollah, considerados
os melhores pelas comunidades xiitas, o Dar al-Hikma foi construído
com dinheiro iraniano. Baalbek é também
o quartel-general - no sentido militar - do Hezbollah. Na cadeia de montanhas
El-Hermel, que se ergue a leste, na fronteira com a Síria, o Hezbollah
mantém o seu principal campo de treinamento. A 15 quilômetros
da fronteira com a Síria, a cidade é o grande centro de
recepção e distribuição de armamentos da milícia
xiita. O financiamento iraniano
e o apoio logístico sírio são assumidos abertamente,
por aqueles que apoiam o Hezbollah, como algo perfeitamente legítimo.
"Os Estados Unidos mandaram mísseis 'inteligentes' - que não
deram em nada, se revelaram burros - para Israel bombardear o Líbano,
e ninguém diz nada", analisa Abbas Termos, que foi candidato
a deputado pela Amal, o partido xiita aliado do Hezbollah. "A Síria
deixa passar as armas do Irã, apesar de ficar com metade para ela.
O Egito (o outro vizinho árabe) não deixa passar
nem ficando com a metade", completa Termos, ilustrando a falta de
opções do Hezbollah. Transformado pela
guerra no fator dominante da fragmentada política libanesa, como
o único exército que conseguiu derrotar Israel, na leitura
do mundo árabe-muçulmano, o Hezbollah é resultado
de uma combinação bem-sucedida entre política, assistencialismo
e força armada. No campo político,
a chave de seu sucesso está na união com a Amal. Durante
a guerra civil libanesa (1975-90), os dois grupos xiitas lutaram entre
si, a Amal apoiada pela Síria e o Hezbollah, pelo Irã. "Para
mim, essa foi a pior guerra, irmão matando irmão",
recorda amargamente Termos, que morou em Foz do Iguaçu entre 1980
e 2001, quando voltou para o Líbano. Depois da guerra,
Irã e Síria decidiram unir forças. A Amal (resistência,
em árabe) se desarmou - como todas as outras milícias com
exceção do Hezbollah - e passou a dedicar-se apenas à
política, enquanto o Partido de Deus manteve as duas frentes de
atuação. Hoje, Nasrallah se
refere ao fundador da Amal, Mussa Sadr - que desapareceu misteriosamente
na Líbia em 1978, mas cujo retrato figura em todos os redutos xiitas
- como a um "professor". E a Nabih Berri, líder da Amal
e presidente do Parlamento, como a um "irmão mais velho".
Escondido durante a guerra, Nasrallah declarou que a negociação
política do conflito estava a cargo de Berri. Juntos, eles têm
27% do Parlamento. No campo militar,
o Hezbollah dispõe de todo o armamento a que um grupo guerrilheiro
pode aspirar: mísseis iranianos de até 120 quilômetros
de alcance, mais que suficientes para atingir Tel-Aviv; milhares de foguetes
russos Katiusha e respectivas bases de lançamento; fuzis russos
Kalashnikov e americanos M-16, comprados no mercado negro de armas; e
farta munição. Mas o que talvez diferencie
o Hezbollah seja o elemento humano. Durante a guerra, os combatentes se
recusavam a se revezar na frente de batalha. Para eles, é uma oportunidade
única de morrerem como mártires incontestáveis, levando
para o paraíso a si mesmos e 16 familiares. Até mesmo suas
mães se regozijam com sua morte. "Se Deus quiser, vamos para
o paraíso", disse ao Estado, na sexta-feira, a brasileira
Saqiba Kourani, depois do enterro de seu filho Ibrahim Saleh, de 17 anos,
morto lutando pelo Hezbollah. Ao menos simbolicamente, esses 33 dias de guerra com Israel elevaram o Hezbollah, da condição de milícia xiita, à de conquistador árabe-islâmico, como quer o seu dístico impresso nas camisetas vendidas na porta da cidadela de Baalbek. E, talvez ainda mais significativamente, à de resistência nacional libanesa. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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