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O diário de sobrevivência
do gerente da TV Al-Manar |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Terça-feira,
22 agosto de 2006
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BEIRUTE No quinto dia, os
israelenses dispararam um míssil contra o prédio de sete
andares, decepando os três de cima. Os telespectadores não
notaram nada. Naquela mesma noite, despejaram uma bomba pesada que desintegrou
a superfície do prédio e ainda abriu uma cratera. "Agora,
vou lhe contar um segredo de guerra", diz o gerente administrativo
da Al-Manar, que está fazendo esse relato ao Estado, com
a condição de não ter seu nome divulgado. "A
bomba destruiu o edifício até o primeiro subsolo, mas a
emissora estava operando no segundo subsolo - sempre ao vivo." A equipe gravou uma
hora de programa, para dar tempo de chegar até novas instalações
- cujo local não é revelado -, e retomar a transmissão
ao vivo. O espectador, de novo, não notou nada. "Os israelenses
ficaram loucos", diverte-se o gerente. "Eles bombardearam a
sede da TV por quase 24 horas. No dia seguinte, demoraram a entender o
que se passava." A emissora recebeu a informação de
que alguns equipamentos tinham ficado intactos no segundo subsolo, e mandou
três técnicos para o local. O movimento atraiu a atenção
dos israelenses, que bombardearam o local. Os funcionários se salvaram
por pouco. O gerente conta que
os executivos do Hezbollah pararam de usar celulares, porque os israelenses
entravam na freqüência para dizer que sabiam onde eles estavam
e insultá-los. Segundo ele, quando notavam que os aviões
com câmera não-tripulados os estavam seguindo, os executivos
paravam o carro numa garagem subterrânea, trocavam de carro e seguiam,
enquanto os MKs, como são chamados aqui, continuavam parados no
local. Ao concluir que a
Al-Manar se tinha mudado, os israelenses passaram a atacar outros prédios,
e chegaram a anunciar que tinham destruído a nova sede da TV inimiga.
Primeiro foi um prédio ao lado, depois, no décimo dia, uma
academia de ginástica, e, no 21º, o Edifício Haimodi,
a algumas quadras dali. Quatro minutos antes de entrar em vigor o cessar-fogo,
dia 14, os israelenses atacaram uma antena da Al-Manar na Montanha de
Keifun, ao leste de Beirute. "Eles começaram e terminaram
com a Al-Manar", conclui o gerente. Durante a manhã,
a emissora transmite ao vivo entrevistas num estúdio improvisado
debaixo de um toldo montado na rua, em Haret Hreik. À tarde, os
trabalhos são transferidos para o prédio secreto. No local
onde antes estava o seu prédio, foi colocada uma faixa: "A
chama da Al-Manar (que significa 'a luz') nunca se apagará."
Em redor, no bairro devastado, há várias faixas do Hezbollah
colocadas sobre os escombros, ironizando o bombardeio: "The new Middle
Beast" (um trocadilho com a expressão "novo Oriente Médio,
usada pelo governo americano) ou "Made in USA - trade mark",
e ainda "Alvo extremamente acurado". Formado em engenharia
eletrônica, o gerente conta que participou da montagem da emissora,
em 1999, quando a equipe se resumia a cinco pessoas. Na TV estão
investidos US$ 15 milhões, e o custo operacional mensal é
de US$ 500 mil. A Al-Manar tem 400 funcionários, dos quais 92 mulheres.
Sua programação é composta de noticiário,
entrevistas e propaganda do Hezbollah. A emissora tem correspondentes
na França, Inglaterra, Bélgica, Itália, Turquia,
Irã e todos os países árabes. Sua transmissão
para os Estados Unidos e Austrália é bloqueada. Nos países
da União Européia, foi proibida nos canais a cabo, mas quem
tem antena parabólica pode captá-la. No resto do mundo,
incluindo o Brasil, ela pode ser vista. No Líbano, ela é
a terceira em audiência, mas se torna a primeira em tempos de guerra.
Não há estimativas do número de telespectadores. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |