Hezbollah posa de guardião nacional
Grupo procura ser retratado não mais como uma força xiita, mas como defensor da dignidade libanesa

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial
Domingo, 27 agosto de 2006

BEIRUTE

Nos últimos dias, o Hezbollah espalhou pelo Líbano outdoors associando a sua pretensa vitória na guerra contra Israel a símbolos nacionais, como o Exército e a bandeira do Líbano. É clara a intenção, já implícita nos pronunciamentos à nação do seu líder, Hassan Nasrallah, que durante a guerra trocou a retórica incendiária pela de estadista: o grupo quer emergir, não mais como um partido e uma milícia xiitas, mas como o guardião da dignidade nacional.

"Sempre ocorre o mesmo", diz Jihad Zein, editor de opinião do jornal An-Nahar. "Quando acaba uma guerra, começa a guerra das interpretações. Até hoje não sabemos se perdemos ou ganhamos a guerra de 1973 (em que Israel enfrentou simultaneamente o Egito, a Síria e a Jordânia). Se você disser que os árabes foram derrotados, é considerado traidor. Até agora, o Hezbollah está vencendo a guerra das interpretações", admite Zein, que, apesar de xiita, opõe-se ao grupo.

"O povo estava à procura de um 'Führer'", diz George Jeadah, um cristão de 53 anos, jornalista da Agência de Notícias Nacional, usando o título de "líder", em alemão, conferido a Adolf Hitler. "Pois encontraram", prossegue Jeadah, referindo-se a Nasrallah, cujo nome significa "vitória de Deus", o slogan do Hezbollah para esta guerra. "O Hezbollah é bem organizado e equipado, enquanto que a oposição está paralisada", resigna-se Jeadah. "Eles vão assumir o poder."

O termo "oposição", no Líbano, é sintomaticamente aplicado ao grupo do primeiro-ministro Fuad Siniora, porque se opõe à influência da Síria, que, mesmo tendo sido obrigada a se retirar militarmente do Líbano no ano passado continua com seus interesses representados pelo presidente da República, o cristão Émile Lahoud, e pelo do Parlamento, o xiita Nabih Berri.

"Acho que a propaganda do Hezbollah está funcionando mais no mundo árabe do que no Líbano", estima Zein, fazendo uma distinção habitual para os libaneses, embora também sejam árabes. "Sim, eles são corajosos e fiéis, mas, precisamos disso? Não sei como podem falar em vitória diante de tanta destruição."

O irônico é que essa destruição, produzida pelos bombardeios israelenses, mas provocada pela captura de dois soldados de Israel pelo Hezbollah, tem servido para o grupo xiita demonstrar sua capacidade de organização e sensibilidade social, calcada no pródigo patrocínio iraniano. No primeiro dia do cessar-fogo, há duas semanas, Nasrallah anunciou à nação: "Amanhã mesmo começaremos a reconstrução. Não dá para esperar o governo. É muito burocrático e lento."

Um executivo do Hezbollah ouvido pelo Estado estima o gasto total em US$ 1 bilhão. Além de reconstruir as casas e prédios, o grupo distribui entre US$ 12 mil e US$ 15 mil para cada família alugar uma moradia temporária e comprar móveis e pertences destruídos. Por conta disso, Faddoul Elias Faddoul, presidente do Sofres, o mais importante instituto de pesquisas de opinião no Líbano, acha que não é hora de fazer uma sondagem: "A população xiita está sendo literalmente comprada."

Para Faddoul, de família cristã maronita, a resposta à pergunta sobre se o Hezbollah destruiu ou salvou o Líbano depende do grupo religioso a que cada um pertence. "Os xiitas pensam diferente dos sunitas, e os cristãos estão divididos, entre os que pensam como os xiitas e como os sunitas", resume o especialista.

"As pessoas estão conscientes do que se passa, mas sabem que não podem fazer nada", interpreta Faddoul. "É um governo fraco, de um país fraco. O Líbano foi completamente destruído na guerra civil de 1975 a 1990 e ocupado pelos sírios entre 1990 e 2005. As pessoas estão cansadas."

Faddoul reconhece, no entanto, que há um resquício de sentimento de união nacional, deixado pelo Movimento 14 de Março, uma explosão de indignação que levou mais de 1 milhão de pessoas às ruas depois do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, no ano passado, e que resultou na expulsão da Síria. "Pela primeira vez, o povo sentiu que tinha poder. Mas a identidade religiosa é um grande obstáculo para o sentimento nacional."

"O Hezbollah venceu politicamente e ideologicamente", avalia o sunita Ahmed Moussalli, de 50 anos, professor de ciência política da Universidade Americana de Beirute, e um dos mais prestigiados analistas no Líbano. Moussalli acredita que o Hezbollah terá mais força na política libanesa em geral e que tenha ganhado mais "credenciais" na comunidade sunita, ao passo que já tinha feito uma aliança tática com um dos principais líderes cristãos, o general Michel Aoun.

Mas o cientista político adverte que ninguém foi capaz, até agora, de unificar as comunidades cristã e sunita sob sua liderança. O sistema eleitoral libanês privilegia as divisões religiosas. Se um partido obtém 51% dos votos e outro, 49%, o que teve 51% fica com toda a bancada daquela base eleitoral no Parlamento. Assim, para eleger deputados nos distritos eleitorais cristãos e sunitas, o Hezbollah teria de ter mais votos do que os partidos que pertencem a essas comunidades, o que seria impensável.

Apesar dessas garantias, muitos cristãos libaneses começam a suspeitar que a consolidação do poder do Hezbollah, combinada ao acelerado crescimento demográfico da população xiita, tornará gradualmente inviável sua permanência no país. "Os cristãos têm de ir embora daqui", diz a dentista Josephine Nasser, de família maronita, cujo filho de 30 anos está providenciando os papéis para emigrar para o Canadá. "Temos de aceitar que esta é uma região islâmica. Acabou. Estive em todas as guerras. Para mim, chega."

A composição demográfica do Líbano é um tema tão delicado que o governo não se atreve a fazer um censo completo desde 1935. Oficialmente, o Líbano tem 35% de xiitas, 30% de sunitas, 30% de cristãos e 5% de drusos - em números arredondados, de um minicenso realizado em 1995 com 10% da população. O estatístico Faddoul estima que, na realidade, já sejam 45% de xiitas, 27% de sunitas, 23% de cristãos e 5% de drusos.

Um funcionário cristão do governo, que se identifica apenas como Youssef, desabafa: "Coexistência, sim, mas desde que haja acordo sobre alguns princípios básicos. Se querem destruir nosso país para ir para o paraíso, não podemos coexistir."

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