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Em funeral, xiitas mostram
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Quarta-feira,
6 de dezembro de 2006
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BEIRUTE De acordo com a tradição
tribal, os homens da família de Ahmed Mahmud deveriam atirar em
sua cova os seus keffiehs (longos lenços quadriculados), e só
amarrar novos na cabeça depois de vingarem a sua morte. Dessa vez,
não foi assim. Mahmud, o mecânico xiita de 20 anos morto
a tiros num bairro sunita, teve ontem o funeral de um shahid (mártir),
mas em vez do grito de jihad (guerra santa), os participantes do enterro
procuravam conter os seus instintos. sul de Beirute, onde
Mahmud vivia. Temos de pensar no convívio entre os grupos
religiosos, no longo prazo. Sharif, pessoalmente, tem-se dedicado
a isso: ele é o representante xiita libanês no Diálogo
entre as Civilizações, patrocinado pela ONU. Mas não
era só ele que pensava assim ontem no Cemitério Hassan e
Hussein, dedicado aos dois netos de Maomé mortos na disputa entre
muçulmanos sobre quem deveria ser o califa (sucessor do profeta),
que originou a divisão entre sunitas e xiitas. A orientação
é não recorrer à violência, disse um
militante da Amal, o grupo xiita ao qual pertence a família de
Mahmud, que organizava ontem o funeral. Mesmo que batam neles, não
devem reagir, completou ele, na entrada do velório, sob duas
bandeiras da Amal, separadas pelas fotos do aiatolá Ruhollah Khomeini
(líder xiita da Revolução Islâmica no Irã),
de Mussa al-Sadr (fundador do grupo) e Nabih Berri (seu atual líder
e presidente do Parlamento). A morte de Mahmud e do sunita Mohamed Mustafa Eitani, de 26 anos, um líder do movimento estudantil do Partido do Futuro, do governo, foram os dois incidentes mais graves desde que os grupos xiitas Hezbollah e Amal e seus aliados cristãos reuniram 800 mil pessoas, na sexta-feira, numa manifestação para exigir a renúncia do primeiro-ministro Fuad Siniora. Milhares de opositores continuam ocupando a área em torno do palácio do governo, e prometem ficar até que Siniora caia. O assassinato de Eitani,
provavelmente por militantes xiitas, ocorreu poucas horas depois da morte
de Mahmud, provocando temores de uma escalada de violência que poderia
conduzir o país de volta a uma guerra civil. Não vamos
fazer nada, garantiu o motorista de ônibus Mohamed Fayad,
de 42 anos, amigo de Mahmud e simpatizante da Amal. Nossos líderes
não vão permitir nenhum erro. Vamos esperar as negociações
políticas. Seus amigos ao redor acenavam em aprovação.
Somos disciplinados,
orgulhou-se Hossein Khalife, de 24 anos, meio-campo do time de futebol
Al-Raian, campeão libanês, no qual jogam três brasileiros.
Estão esperando nossa reação. Não faremos
nada. Não queremos guerra. Só queremos participar de um
governo de coalizão nacional. Não que o outro
lado não seja visto com suspeita, para não dizer hostilidade.
Saad Hariri distribuiu armas, acusou o militante da Amal que
organizava o funeral, referindo-se ao filho do primeiro-ministro Rafic
Hariri (morto num atentado a bomba em março do ano passado) e líder
do Partido do Futuro. Os simpatizantes da
Amal têm uma versão muito diferente das duas mortes, daquela
divulgada pelas autoridades. Segundo eles, Mahmud vinha atravessando o
bairro de Cazcaz, predominantemente sunita, em direção a
sua casa, no vizinho bairro de Ard Jalloul, acompanhado de suas duas irmãs
e cunhados, que por sinal seriam sunitas. Caminhavam calmamente, quando
o jovem xiita tomou um tiro pelas costas. Segundo a versão divulgada,
Mahmud vinha num grupo de jovens depredando carros e lojas. Já o autor
dos disparos contra o sunita Eitani, pela versão que corria ontem
no funeral, seria o seu próprio irmão, que atirou por engano,
e não seis ou sete militantes xiitas que o seguiram até
a porta de casa, na noite de domingo para segunda-feira, algumas horas
depois da morte de Mahmud, como relatou sua família. Por enquanto, a guerra
é apenas de palavras. As lideranças dos dois lados parecem
estar tentando mantê-la assim. O Partido do Futuro só divulgou
a morte de Eitani depois de seu funeral, restrito à família,
na tarde de segunda-feira. A Amal não abriu mão de um enterro
de mártir para Mahmud. Mas, por enquanto, o movimento é
pacífico. Com a recusa de Siniora de ceder mais espaço para o Hezbollah e a Amal no gabinete, ou de renunciar, os dois grupos pretendem ampliar a pressão. O ex-ministro da Defesa Abdul Rahim Murad, um sunita pró-Síria que apóia o movimento, revelou ontem ao Estado que eles pretendem armar acampamentos de militantes como os que estão hoje na área do palácio na frente de outros prédios do governo e na estrada para o aeroporto. Para criar mais transtorno, explicou Murad, cotado para chefiar um eventual governo pró-Hezbollah. Hoje, eles só governam 500 metros quadrados, ironizou, referindo-se às salas do palácio onde Siniora e 17 ministros estão confinados desde o início do cerco, na sexta-feira. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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