|
Mesquita do Hezbollah recebe
ajuda do Brasil |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sexta-feira,
8 de dezembro de 2006
|
|
BEIRUTE São 17h20 no
horário de inverno libanês, e a noite já caiu sobre
Beirute. Sete garotos, na faixa dos 12 anos, saem da oração
vespertina na mesquita Al-Mahdi al-Muntasar empunhando uma bandeira verde-amarela
do Hezbollah. Os fiéis calçam seus sapatos e cruzam o grande
vão sob a fachada em reforma. Alguns depositam dinheiro num dos
três cofres de arrecadação de donativos, à
sua esquerda. Um azul, com duas
mãos amarelas em forma de oração, diz: A caixa
da caridade e da bondade. Noutra caixa, de vidro, está escrito
que o dinheiro é para ocasiões especiais. A terceira, branca
com letras vermelhas, tem um destino mais específico: A Resistência
é seu orgulho, portanto, apóie-a. Na parede ao lado,
Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, aparece em fotos com um
olhar paternal dirigido a fotos de mártires, homens
mortos na resistência contra Israel a causa que
faz jus à existência do Partido de Deus. Al-Mahdi al-Muntasar,
cujo nome remete ao Imam Oculto, o 12.º mensageiro de
Deus que os xiitas aguardam, é uma mesquita do Hezbollah como tantas
outras no sul de Beirute. Mas ela guarda uma peculiaridade. O dinheiro
que a ajudou a construir, em 1994, e que a está ajudando a reformar
agora, depois de ter sido danificada por fragmentos dos bombardeios israelenses
de julho e agosto, vem da comunidade xiita do Brasil e do Paraguai, na
Tríplice Fronteira. Um dos xeques da mesquita,
Akram Assaad Barakat, tem um irmão preso desde 2003 no Paraguai,
por ter arrecadado e remetido dinheiro para o Hezbollah. Como no Paraguai
não havia uma lei antiterrorista na época de sua condenação
a cinco anos de prisão, ele foi enquadrado na lei de evasão
de divisas e sonegação fiscal um crime não
exatamente incomum no Paraguai; o extraordinário é que seja
punido. Assaad Ahmed Barakat,
libanês naturalizado paraguaio, preso em Foz do Iguaçu e
extraditado para o Paraguai, nega que tenha ajudado a financiar atividades
terroristas. Ele diz que o que fez foi levantar fundos para a mesquita
de seu irmão e para instituições de caridade
uma atividade não só aceita como valorizada nas comunidades
de imigrantes xiitas ao redor do mundo. A partir dos atentados
de 11 de setembro de 2001, no entanto, os Estados Unidos incluíram
em sua lista negra os orfanatos e outras entidades sociais ligadas a grupos
considerados terroristas. Primeiro, porque as contas bancárias
e pessoas jurídicas às vezes se confundem. Segundo, porque,
na visão do governo americano, essas entidades incentivam o terrorismo,
ao oferecer dinheiro mensal, educação e assistência
médica aos filhos, viúvas e pais dos mártires. Na quarta-feira, o
Departamento do Tesouro americano proibiu a realização de
negócios com nove pessoas e duas empresas supostamente vinculadas
a Barakat e ao financiamento das atividades do Hezbollah, na Tríplice
Fronteira. O Estado marcou dois encontros no decorrer do dia de ontem
na mesquita com o xeque Akram, o destinatário do dinheiro arrecadado
por seu irmão e outros integrantes da comunidade. O xeque faltou
aos dois, alegando imprevistos. Mas seu colega na
mesquita, o xeque Mohamed Khatoun, confirmou que ela foi construída
e agora está sendo reformada com ajuda vinda do Brasil. Isso
é normal, sempre recebemos donativos de todos os lugares,
disse o xeque. Khatoun não soube precisar o volume de dinheiro
vindo do Brasil. Segundo ele, muitas vezes são doações
individuais e pequenas, em valores como US$ 100. O xeque afirmou nunca
ter ouvido falar do empresário Muhammad Yusif Abdallah, apontado
pelo Departamento do Tesouro americano como um importante líder
e principal financiador do Hezbollah na Tríplice Fronteira. O xeque contou que
os EUA congelaram as contas de um grande empresário, por ter mandado
1 milhão de liras libanesas o equivalente a US$ 600. Estava
claro que era uma doação para o orfanato, disse Khatoun.
Mas os americanos acham que todo dinheiro arrecadado é para
comprar armas. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |
|