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Política é
continuação da guerra |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo,
10 de dezembro de 2006
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BEIRUTE A bola rola no gramado
do Al-Ahad, o time do Hezbollah. O volante brasileiro Leandro Souza, que
chegou na véspera a Beirute, começa o seu primeiro treino
coletivo fazendo o sinal da cruz. Ninguém repara. Leandro, que
trocou o Anápolis pelo Al-Ahad e por um salário de US$ 6
mil (US$ 2 mil dos quais pagos pelo empresário libanês Samir
Shamkla, da Tríplice Fronteira), não é o único
não-xiita no time do Partido de Deus. Além do atacante
André Baracho, outro brasileiro que também chegou na quarta-feira,
vindo do time japonês Ventforet Kofu, jogam no Al-Ahad um nigeriano,
um armênio, um maronita e um sunita como o técnico
iraquiano Anuar Jassam, ex-treinador da seleção de seu país.
Nossa intenção não é misturar política
com futebol, pois isso tem gerado violência entre as torcidas,
diz o deputado Mohamed Haidar, do Hezbollah, que veio prestigiar o treino
do Al-Ahad, campeão libanês em 2004 e 2005. Investimos
nos esportes para manter os jovens longe do crime e das drogas. Al-Ahad A
Promessa, em árabe é parte de uma ampla teia
de instituições do Hezbollah, que inclui hospitais, escolas,
mesquitas, orfanatos e empresas, como a rede de postos de combustíveis
Al-Aytam (Os Órfãos). Mas, com sua escalação
timidamente ecumênica (a maioria dos jogadores ainda é xiita),
Al-Ahad encerra uma outra promessa: a projeção do Hezbollah
como liderança nacional, e não apenas xiita. A cidade de barracas
que a organização vem erguendo há uma semana na frente
do Grand Serail, o palácio do governo hoje cenário
de mais uma megamanifestação é a primeira
incursão da milícia xiita na esfera de ação,
digamos, cívica. Carl von Clausewitz escreveu que a
guerra é a continuação da política por outros
meios. Num certo sentido, o Hezbollah tenta fazer da política
a continuação da guerra. O estopim para a ruptura com o governo foi a criação de um tribunal internacional para julgar os suspeitos do assassinato do primeiro-ministro Rafic Hariri, em março do ano passado, e de outras 14 pessoas. Os suspeitos são vinculados à Síria, que, junto com o Irã, patrocina o Hezbollah. Depois da saída
do Hezbollah do governo e da aprovação do tribunal pelo
gabinete, a lista subiu para 16: o ministro da Indústria, o cristão
maronita Pierre Gemayel, foi morto numa emboscada, dia 21. A captura de
dois soldados israelenses e a guerra que se seguiu, em julho, também
coincidiu com o momento em que as investigações do assassinato
avançavam para uma conclusão, incriminando agentes de inteligência
ligados à Síria. O verdadeiro
motivo pelo qual saímos do governo é que ele é comandado
pelos americanos e franceses, disse na quarta-feira ao Estado
o deputado Mohamed Raad, do Hezbollah, líder da oposição
no Parlamento. Tem gente que quer assinar um acordo com Israel,
esquecendo as Fazendas de Cheba (ocupadas no sul) e os prisioneiros
libaneses, acusou, listando os contenciosos que justificaram captura
dos soldados. É natural que
em sua cruzada rumo ao poder, o Hezbollah atraia políticos não-xiitas,
como o general cristão maronita Michel Aun e três ex-primeiros-ministros
sunitas: pela Constituição libanesa, o presidente da República
é cristão maronita; o primeiro-ministro, sunita; o presidente
do Parlamento, xiita. Mas, nas praças e ruas em frente ao palácio,
ocupadas por milhares de manifestantes vigiados por tanques e soldados
do Exército, é visível a desproporção
entre xiitas e cristãos (quase não há sunitas). Para
compensá-la, a Amal escalou militantes xiitas para ostentar o laranja
do movimento de Aun outrora um feroz líder nacionalista
anti-sírio. A militância
do Hezbollah não é muito sutil, ridiculariza Samir
Franjieh, um dos mais importantes líderes cristãos maronitas
no governo. Na primeira manifestação (dia 1.º),
Aun fez um discurso exigindo a renúncia do governo e a multidão
respondeu: Allah-u-Akbar (Alá é grande). Ele
não estava falando para o público dele. NOVO LÍBANO A mistura de grupos
religiosos antes nitidamente separados reflete a redistribuição
territorial de comunidades deslocadas pela guerra civil (1975-90), pela
ascensão social dos xiitas e pela emigração ou empobrecimento
dos cristãos. No passado, os investimentos franceses e americanos
eram destinados preferencialmente a parceiros locais cristãos.
A partir de 1990, eles deram lugar aos sauditas, associados aos libaneses
sunitas; e, mais recentemente, ao dinheiro do Irã, que irriga comunidades
xiitas por meio do Hezbollah. Essas mudanças
geram tensões. Um empresário sunita conta que se mudou de
seu apartamento em Ashrafiyeh, tradicional área sunita de Beirute,
para o bairro cristão de Ain Saadi, depois que três famílias
xiitas se mudaram para o prédio, durante a guerra com Israel. Cruzávamos
com as mulheres de chador (vestimenta islâmica que cobre todo
o corpo). Não quero que minhas filhas convivam nesse tipo de
ambiente, explicou o empresário. Trabalhei 20 anos
para comprar aquele apartamento. Eles, que são do Hezbollah, pagaram
à vista. Ironicamente, a guerra e a reconstrução
intensificaram o fluxo de recursos do Irã. Meus filhos
não vão viver na República Islâmica do Líbano,
disse um empresário cristão maronita falido. Estou
preparando os papéis para migrarmos para a Austrália. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |