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Xiitas
compram terras para criar território contínuo do Hezbollah
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| LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
1.º de julho de 2007
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A geografia humana do Líbano sofre uma transformação silenciosa. Comunidades xiitas estão se alastrando do sul para o norte, e, em menor medida, do leste para o oeste, formando um desenho que lembra uma espinha dorsal com suas ramificações nervosas. É uma conquista amigável. Num movimento de pinça, as famílias xiitas compram faixas de terras em torno de cidades e até de cazas inteiras, como se chamam as regiões libanesas. O interior das áreas cercadas é abandonado pelos moradores cristãos e sunitas. A área mica, diz o político libanês-brasileiro Carlos Eddé, empregando uma gíria que aprendeu em São Paulo, onde viveu entre 1975 e 2000, e aonde vem visitar as duas filhas e a mãe. Estão tentando comprar terrenos a peso de ouro. Preço não importa, diz Eddé, um cristão maronita, dirigente do Bloco Nacional, que apóia o governo do primeiro-ministro Fuad Siniora e as forças do 14 de Março, que resistem à influência da Síria sobre o Líbano. Ele acredita que o Hezbollah, movimento xiita financiado pelo Irã e apoiado pela Síria, esteja custeando essas aquisições de terras. O objetivo, analisa Eddé, é conectar todas as regiões de maioria xiita - uma comunidade cuja taxa de natalidade é o dobro ou o triplo da dos cristãos e dos sunitas - para, em caso de uma guerra de secessão do Líbano, o Hezbollah assumir o controle sobre um território contínuo. Algumas dessas cazas, como as de Jbeil (antiga Biblos) e Kesrouan, no centro-oeste do país, já tiveram no passado presença xiita. Outras são áreas antes predominantemente drusas e cristãs, esvaziadas pela guerra de meados do ano passado entre o Hezbollah e Israel. Assim, ironicamente, a estratégia de ocupação é facilitada por uma desocupação causada indiretamente pelo próprio Hezbollah. Uma nova guerra civil no Líbano - que, todos concordam, seria mais devastadora ainda que a de 1975 a 1990, que deixou mais de 100 mil mortos - poderia ser evitada por um acordo político entre as forças do 14 de Março (formadas depois do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri em 2005) e as da oposição, lideradas pelo Hezbollah. Mas isso parece cada vez menos factível, reconhece Eddé, encarregado em 2004 de intermediar, sem sucesso, a adesão do general cristão maronita Michel Aoun à aliança do governo. Aoun, antes o maior inimigo da Síria, deixou-se cooptar, em troca da chance de se tornar presidente (e de recuperar sua fortuna confiscada). O Hezbollah retirou-se do governo de coalizão no fim do ano passado, por discordar da aprovação, pelo gabinete, da criação de um tribunal internacional para julgar os suspeitos do atentado a bomba contra Hariri - quatro ex-comandantes das forças de segurança, todos ligados à Síria e presos a pedido do promotor designado pela ONU, o alemão Detlev Mehlis. Desde então, o presidente do Parlamento, Nabih Berri, líder da facção xiita Amal, aliada do Hezbollah, não convoca sessões. Eles impedem a realização do diálogo onde ele pode ser feito, diz Eddé. MÉTODO MACABRO As forças do 14 de Março obtiveram 71 das 128 cadeiras do Parlamento nas eleições de 2005 e têm também maioria no gabinete de união nacional. O político libanês-brasileiro recorda os assassinatos do deputado sunita Walid Eido e do ministro da Indústria, Pierre Gemayel, cristão maronita, e faz uma observação macabra: Não podendo forçar a queda do governo ou mudar a composição do Parlamento pelas vias legais, foi achado um meio de impedir o quórum: matando deputados e ministros. A questão-chave é o julgamento dos suspeitos ligados à Síria. Eddé e outros políticos e analistas no Líbano acham que a condenação desses militares poderia marcar o início do fim do regime sírio. Cada avanço rumo ao julgamento deles é pontuado por ações violentas. A própria guerra de julho de 2006 foi desencadeada pela captura de dois soldados israelenses pelo Hezbollah, no momento em que as investigações chegavam a um desfecho. No domingo passado, uma bomba matou seis soldados da ONU no sul do Líbano, depois que o Conselho de Segurança aprovou a criação do tribunal internacional para julgar os suspeitos. Outro embate se avizinha. A partir de setembro, o Parlamento deveria eleger um sucessor para o presidente Émile Lahoud, há nove anos no cargo. Lahoud é apoiado pela Síria, que foi forçada a retirar suas tropas do Líbano depois do assassinato de Hariri, mas mantém a influência no país vizinho por meio do presidente, do Hezbollah e de seus aliados. Eddé não vê saída para essa disputa: a eleição de mais um presidente pró-Síria seria considerada intolerável pela maioria governista; a escolha de um anti-Síria desencadearia uma reação violenta do poderoso país, por meio de seus aliados locais. CLIMA HOSTIL A polarização e o nível de hostilidade entre os dois grupos - sunitas e cristãos, de um lado, e xiitas e os partidários de Aoun, de outro - foram ilustrados por uma gafe cometida pela âncora da TV NBN, pertencente a Berri. Depois de noticiar o assassinato do deputado Eido, no dia 13, ela comentou com um colega, sem perceber que seu microfone continuava ligado: Então, por que demoraram tanto para matá-lo? Ahmed Fatfat (outro deputado sunita) deve ser o próximo. Estou fazendo a contagem. O colega deu risada. Ambos foram demitidos. Além dos atentados a bomba, há freqüentes escaramuças entre jovens. Mas é visível o esforço das lideranças dos dois lados de evitar que a hostilidade degenere em guerra civil. O Hezbollah ainda não está pronto para isso, analisa Eddé. Eles ainda não têm um território só deles. No médio ou no longo prazo, no entanto, a consolidação de uma base territorial do Hezbollah contínua ao longo do território libanês poderá se somar a um domínio xiita sobre o centro-sul do Iraque e à conquista da Faixa de Gaza pelo Hamas (grupo sunita apoiado pelo Irã e pela Síria). Um cenário impensável antes da invasão do Iraque pelos EUA, há apenas quatro anos. O Estado fez
contato com a assessoria de imprensa do Hezbollah em Beirute. Uma entrevista
com um dirigente chegou a ser prometida, mas não se concretizou.
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