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'Fui o último a sair do hospital de Ras Lanuf' |
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LOURIVAL
SANT'ANNA |
Sexta-feira,
11 de março de 2011
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RAS LANUF, Líbia Os foguetes disparados
por terra sacudiam a casa em que estávamos em Ras Lanuf, e fiz
piada com os cinco líbios - dois médicos, um voluntário
do Crescente Vermelho e meus dois guias - que a dividiam comigo, lembrando
que, no dia em que chegamos, sábado, subíamos a cada dez
minutos no topo do sobrado, quando ouvíamos o avião se aproximando,
para ver onde os mísseis iam cair. Agora continuávamos conversando.
Havíamos nos acostumado. Deixamos o carro no
estacionamento do hospital e fomos ver um prédio residencial de
três andares que tinha sido atingido. O foguete fez um buraco na
parede de concreto, no último andar. O impacto derrubou as vigas
de aço que sustentavam o teto. Não havia ninguém
no prédio. Sem água e sob bombardeio, Ras Lanuf foi abandonada
por seus 10 mil moradores no início da semana. No hospital, feridos
e mortos chegavam em ambulâncias do Crescente Vermelho, como de
costume, mas havia um nervosismo diferente dos outros dias. Os foguetes
caíam cada vez mais perto do hospital. "A situação
mudou", disse eu a Sohaib, um dos meus guias. "Precisamos pensar
em sair daqui." Às 13 horas (8 horas em Brasília),
fui para o carro enviar twitts para o portal do Estadão,
conectando à internet via satélite. Daí a 15 minutos,
Sohaib passou pelo carro dizendo que ia rezar na mesquita a 300 metros
do hospital. "Se você sair do carro, verifique se trancou bem,
porque tem um fuzil aí dentro", pediu. Era de um dos médicos.
Às 13h40, o bombardeio se intensificou. Os foguetes caíam de todos os lados: atrás do estacionamento, na avenida em frente ao hospital, na mesquita. Estavam obviamente mirando no hospital. Coloquei o notebook e a antena do satélite na mochila , saí do carro, tranquei, verifiquei se tinha trancado, e saí correndo para a rua lateral, em direção ao prédio atingido de manhã. As caminhonetes e carros de passeio dos combatentes que estavam no hospital e algumas ambulâncias recolhiam as pessoas. Vi os dois fotógrafos e um cinegrafista com os quais conversara antes subindo na carroceria de uma caminhonete. Vários homens gritavam e acenavam para eu entrar num dos veículos. Eu não podia
ir embora com a chave do carro e deixar Sohaib na mesquita. Encostei-me
na parede do prédio, enquanto filmava os foguetes caindo, os combatentes
disparando seus fuzis para o alto e a desorientação de todos.
Cada um age de acordo com seu instinto nesses momentos. Atravessamos, abaixados,
correndo, os 300 metros de terra e pulamos a mureta em redor da mesquita,
eu com a mochila pesada nas costas e segurando com uma mão a câmera
pendurada no pescoço. Tirei os sapatos e entrei na mesquita. Sohaib
ficou do lado de fora. Ele estava lá dentro quando o foguete atingiu
a mesquita e não a achava segura. Os foguetes usados pelos líbios,
do tipo Grad, são mortalmente imprecisos. Dentro da mesquita, cerca de 20 homens rezavam. Alguns choravam. Um deles me perguntou se eu era muçulmano. Respondi que não. "Saia", disse apenas. Voltei para o pátio. Fotografei um foguete caído no chão e o estrago feito por ele no topo da mesquita. O homem que tinha me expulsado passou por mim. "Se você for a uma igreja no Brasil, será bem recebido", eu disse a ele. "OK", respondeu. Entrei de volta na
mesquita e me sentei no chão. Alguns minutos depois, um médico
entrou e me chamou: "O hospital está sendo esvaziado. Vamos
levar os feridos para Ajdabiya (200 km a leste). Queremos que você
venha fotografar um homem cujo crânio e rosto foram arrancados.Depois
pode ir embora conosco." Ele fez uma prece e saímos. Cruzamos
correndo de novo os 300 metros de terra. Sohaib me ligou. Estava no carro,
a caminho da estrada. "Vou de ambulância", disse eu. Os foguetes continuavam
caindo perto. Um fragmento havia atingido uma cadeira de rodas na entrada
do hospital, O corpo, com o crânio e boa parte do rosto arrancados,
estava numa maca, ao final de um rastro de sangue no piso de granito.
Abriram o saco plástico em que estava o cérebro, para eu
fotografar. "Veja o que Kadafi faz com o povo", gritou um dos
combatentes. O hospital estava
vazio. A última ambulância era a que levaria o corpo que
fotografei, o médico que foi me chamar e eu. Então ouvi
uma tentativa de pronunciar meu sobrenome: "Santos!" Era um
dos dois médicos que estavam na mesma que eu. Salah, meu outro
guia, estava com ele, noutro carro. Dispensei a ambulância. Fui
o último a sair do hospital de Ras Lanuf. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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