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Lagos:
milhões vivendo no pântano |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
3 de Agosto de 2008
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LAGOS Entreposto a céu aberto para onde convergem as toras do interior do país, o Timber Center domina a vista das congestionadas pontes que ligam continente e ilhas. Em seu esforço quase sobre-humano - e aparentemente inútil -, o homem pequeno no grande cenário da lagoa encarna a luta pela sobrevivência nessa cidade singular. Se Lagos tivesse comparação, a imagem mais próxima seria a de um formigueiro humano. Em geral carregando alguma coisa, seus 15 milhões de habitantes movem-se incessantemente, disputando o espaço exíguo, roubado da água pelos aterros, na densidade de 4.193 habitantes por quilômetro quadrado. Apesar de 40% de sua área estar coberta pela lagoa, rios e pântanos - o que lhe valeu o nome, dado pelos portugueses -, água tratada e encanada chega, segundo dados oficiais, a apenas 6,39 milhões de pessoas (42,6% da população). Embora a Nigéria seja o sétimo maior produtor entre os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e goze de notável potencial hidrelétrico, a eletricidade funciona algumas horas por dia. A demanda é
de 6 mil megawatts e a oferta, de 1 mil. Pelo menos metade da atividade
econômica é informal. Daí o leva-e-traz incessante:
de galões de água, de querosene para iluminar e cozinhar
e de todo tipo de produtos vendidos na rua, nos colossais engarrafamentos
da cidade de 1 milhão de veículos e praticamente nenhum
semáforo (os poucos existentes vivem desligados). A água é
um problema - e negócio - antigo. Em Lafiaji, o bairro dos escravos
libertos que voltaram do Brasil no século 19, ainda está
a casa de Cândido Rocha, que furou um poço em seu quintal
e ficou rico vendendo água. A história foi celebrizada no
romance A Casa da Água, de Antonio Olinto, adido cultural em Lagos
nos anos 1960. Hoje, a cidade está repleta de poços artesianos
comerciais, aonde os vendedores de água - profissão comum
- vão se abastecer. Ao lado de seu carro
de mão que comporta 10 galões de 25 litros, Aruna Anabowo
conta que paga 20 nairas (R$ 0,26) por recipiente, e o vende nas ruas
por 40 a 50 nairas (R$ 0,54 a R$ 0,66), ganhando entre 300 e 400 (R$ 4,05
a R$ 5,40) por dia. Como Anabowo, pelo menos 20 pessoas vão todos
os dias comprar água no poço, segundo o seu dono, Aloka
Abu Bakar. A maioria faz mais de uma viagem e ele enche entre 40 e 45
carretas como a de Anabowo por dia. Mas não é
só água que se vende nas ruas. Eis a lista compilada num
engarrafamento, pela ordem de aparição: verduras para ogu
(molho tradicional), cartões de telefone, tábua de passar
roupa, gravatas, refrigerantes, quitutes, estabilizadores de voltagem
(que varia muito entre um blecaute e outro), frutas, jornais, rodelas
de banana fritas, estilingues, salada de fruta cozinhando ao sol de 38
graus, CDs, cuecas, camisetas, teclado de computador, kits para cortar
as unhas e fazer a barba, DVDs do filme O Anão Desaparecido (vendidos
por anões que batem no vidro do carro e se dizem os protagonistas),
vestidos, sapatos, bichos de pelúcia e controles remotos. As ruas
de Lagos equivalem a um shopping center drive-thru. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |