Sem espaço para todos, a cidade se duplica

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial

Domingo, 3 de Agosto de 2008

LAGOS
Lagos é uma cidade 24 horas, talvez não no mesmo sentido que Tóquio e Nova York. Parte dos vendedores ambulantes dorme de dia nas favelas e nos baixos das pontes para suprir de noite os trabalhadores diurnos. Ao anoitecer, barracas de suya - um popular espetinho de carne, lingüiça ou peixe - dividem com sapateiros e lavadores de carros as calçadas, liberadas pelo fechamento das lojas e escritórios.

Sem espaço para todos, a cidade se duplica. Nos caóticos cruzamentos sem sinalização, homens sem pernas movem-se com destreza sobre carrinhos de rolimã, com uma vara nas mãos, ameaçando golpear os carros e motos que se atrevem a negar passagem aos seus "clientes" - motoristas que lhes pagam com notas de 20 nairas (o equivalente a R$ 0,26). Na ausência de virtualmente todos os serviços públicos, os homens fazem as vezes até de semáforos.

Outra ocupação característica é a de "area boy" - termo assimilado pelo "pidgin English", a incompreensível língua franca que permeia os 374 idiomas identificados na Nigéria. Geralmente desarmados, mas vociferantes, numerosos e ameaçadores, esses "donos do lugar" conseguem, literalmente no grito, intimidar vendedores ambulantes a dar-lhes uma porcentagem de seu ganho e transeuntes brancos desavisados a pagar-lhes uma espécie de pedágio - que dividirão depois com policiais, que assistem a tudo impassíveis.

A manicure e maquiadora Tawa Bilighamin Calitsu, de 25 anos, há 4 com um salão de beleza numa calçada da favela Makoko, uma das maiores de Lagos, diz que atende de 15 a 20 mulheres e ganha entre R$ 13,50 e R$ 33,80 por dia. As mulheres de Lagos são visivelmente vaidosas, com notável capacidade de se manterem limpas e elegantes enquanto caminham sobre a lama e desviam das poças d’água e do esgoto que aflora.

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