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Bairro de ex-escravos brasileiros precisa ser recuperado |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
3 de Agosto de 2008
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LAGOS Como resultado, surgem
mais obras em Lagos, como a urbanização da Praia de Bar,
a cargo de uma empresa chinesa, e a remodelação da Praça
de Campos, onde fica a casa de outro escravo liberto no Brasil que voltou
à Nigéria. Construída em 1849, em estilo brasileiro,
a casa de Hilário Campos foi doada ao Brasil pela Nigéria
para converter-se em centro cultural, e deverá ser restaurada.
Mas esse não
é o destino do restante do bairro Lafiaji, localizado no centro
da Ilha de Lagos, onde a cidade teve início. Caindo aos pedaços,
centenas de casas de ex-escravos que voltaram para a Nigéria no
século 19 resistem ao assédio do governo local e de investidores
que as querem demolir para construir novos prédios. Sem entender o que
elas dizem, o engenheiro mecânico aposentado José Onabode
Vera Cruz guarda as cartas em português do bisavô Manuel Vera
Cruz, que voltou na primeira metade do século 19 à Nigéria.
"Não recebemos nenhuma ajuda para conservar a casa",
diz Onabode, de 76 anos. "O governo não está interessado.
O que quer é derrubar." O imóvel de dez cômodos
que herdou do pai - que poderia, pela arquitetura, estar em qualquer povoado
colonial brasileiro - foi atingido em 2004 por um incêndio, que
destruiu a decoração de terracota do teto. Chamados de "aguda", por causa das roupas de algodão trazidas do Brasil, os ex-escravos eram vistos como "estrangeiros", e ainda é assim com seus descendentes. No Brasil, muitos perderam seus nomes africanos e adotaram os sobrenomes de seus senhores. Esses sobrenomes brasileiros são até hoje a marca dos "agudas", que não falam português, mas conservam costumes de seus antepassados, incluindo a culinária brasileira. Foram os ex-escravos
que trouxeram o catolicismo para a Nigéria, onde o candomblé
convive com o islamismo (na metade norte do país) e o protestantismo
(ao sul). Eles construíram duas igrejas católicas em Lagos:
a Catedral da Santa Cruz e a de São Miguel, que ostenta uma escultura
do santo lutando contra o demônio. Assim como as obras de urbanização, outro sinal de que as coisas podem mudar para melhor foi o que aconteceu com a coleta de lixo. Até o início da década, havia montes de lixo nas ruas, e metade das 6 mil toneladas geradas por dia terminava em aterros clandestinos, incluindo a lagoa. Os subsídios eram baixos e as empresas recebiam um valor fixo. O governo passou a pagar por tonelada de lixo entregue, e o serviço melhorou visivelmente. Hoje, estima uma fonte oficial, 90% dos resíduos vão para lixões, 2% para usinas de reciclagem e 8% para a lagoa. Ainda faltam planejamento e transparência. O Plano Diretor, de 1980, expirou em 2000, e não foi substituído. "Herança dos militares, que não acreditavam em planejamento", analisa o urbanista Olugbenga Akinmoladun, que chefiou em 2005 uma comissão de revisão do Plano Diretor. "Vários crimes foram cometidos." Leis de zoneamento
têm sido aprovadas para áreas isoladas da cidade. Akinmoladun
diz que isso não é suficiente. Afirma também que
é necessária maior coordenação entre os governos
federal e dos Estados de Lagos e de Ogun, cuja fronteira a mancha urbana
de Lagos cruzou. A megalópole abrange 20 das 22 administrações
regionais do Estado de Lagos e 4 de Ogun. O plano da megacidade tem horizonte de dez anos. "Não para fazer tudo, mas para colocar as coisas para andar", define Dada Alamutu. Os moradores de Ajegunle não esperam de braços cruzados. Na manhã ensolarada, carregam pesados blocos de concreto para calçar os buracos cheios de água e lama e tentar tornar as ruas transitáveis. Como o homem arrastando a tora na lagoa, mais um retrato do esforço inacreditável para suprir, com os braços, a ausência do Estado e de seus serviços. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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