Berço de Mandela, entre o luto e a festa

Mthatha comemora 1º empate dos Bafanas na Copa, enquanto chora a morte da bisneta do líder negro

 MTHATA, África do Sul – A estridência das vuvuzelas escondia um certo toque de tristeza nas ruas de Mthatha e na pista de atletismo do estádio da cidade, onde 3 mil pessoas se reuniram para ver num telão a África do Sul enfrentar o México ontem à tarde. A cidade, na província de Eastern Cape, abriga os vilarejos de Mvezo, onde Nelson Mandela nasceu há quase 92 anos (ele faz aniversário dia 18), e de Qunu, onde mora até hoje. “É tão triste que a bisneta dele tenha morrido, porque ele não pode celebrar a abertura da Copa”, lamentou Nozuko Bodlani, de 34 anos, funcionária administrativa da Polícia de Mthatha. “É mais um desafio que ele tem de enfrentar. “.

Mandela é simplesmente venerado em Mthatha, onde estava até a quinta-feira, no seu amplo sobrado de cor pêssego guardado pela polícia. “Só me dá vontade de chorar quando falo dele”, disse Bongeka Tsholonga, de 28 anos, gerente comercial de um banco. “Se não fosse o grande coração de Mandela, a África do Sul seria muito infeliz. “.

Shaun Martins, um mulato de 26 anos, descendente de portugueses e negros, resume: “Se não fosse por ele, não estaríamos todos unidos. ” Os mulatos, assim como os brancos, representam 9% da população, enquanto os negros são 79% e os indianos e outros asiáticos, 3%.

O jogo não pôde ser visto no estádio de futebol (esporte identificado com os negros) porque ele ainda está em construção. Já o estádio de rúgbi (associado à minoria branca) existe há muito tempo. Martins, que trabalha numa gráfica, empolgou-se com o gol no início do segundo tempo. “Eles (os Bafanas) passaram o primeiro tempo sob pressão, mas no segundo estão jogando futebol brasileiro”, festejou antes de se desanimar com o gol mexicano, em seguida: “Esse é o problema. Eles tendem a relaxar na defesa.”

O carpinteiro Loyola Nqetha, de 23 anos, saiu revoltado com o fato de o técnico brasileiro Carlos Alberto Parreira ter mantido o atacante Katlego Mphela no time. “Ele deveria ter colocado o (Siyabonga) Nomvethe. ” Já Ndibongo Sanene, estudante de serviço social de 22 anos, estava mais conformado: “Perdemos muitas oportunidades, mas nossos jogadores são bons. No próximo jogo, eles podem ganhar.”

O Brasil é de longe a seleção mais querida na África do Sul, depois dos Bafanas. Eles invariavelmente perguntam, quando descobrem que seu interlocutor é brasileiro: “Por que Ronaldinho (Gaúcho) não foi escalado? ” O frentista Sidney Ayanda, reclama: “Elano e Ramires são muito piores que Ronaldinho. ” Sanene completa: “Ronaldinho tem sempre um sorriso no rosto.” É algo que os sul-africanos prezam.

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