Bosquímanos são vestígio de povo antigo e quase extinto

ANDRIESVALE, África do Sul – Vestido apenas com um saiote de pele de gazela e um tapa-sexo de raposa, Hans Witbooi caminha descalço por entre os arbustos e o capim, com uma vara e arco e flecha nas mãos. Ao meio-dia, o sol esquenta a savana seca, apesar de ser inverno. “Aqui passaram mais ou menos 5 gazelas entre 2 e 3 horas”, diz Witbooi, apontando pegadas redondas na areia. Um desvio no rastro mostra para onde elas se dirigiam: um grande arbusto cujas folhas as gazelas apreciam.

“Por volta das 5 horas, passou aqui um gato selvagem”, continua o rapaz de 27 anos, falando em africâner, a língua dos descendentes de holandeses. Witbooi sabe que ele passou mais tarde porque as marcas de suas garras estão sobre as pegadas das gazelas. “Estava procurando pássaros e ratos para comer.” Seus rastros levam a um pé de jatobá com um imenso ninho de pássaros tecelões, que vivem em numerosas comunidades. Mais adiante, pegadas na forma das garras de tamanduá conduzem a um buraco sob a sombra de uma árvore, partilhado com pássaros que lhe servem de guarda e anunciam a chegada de algum perigo.

Witbooi vive de rastrear vestígios de animais na areia vermelha do Deserto do Kalahari, para os turistas que vêm fazer safári nessa região inóspita do noroeste da África do Sul. Mas ele próprio é o vestígio de um povo antigo e quase extinto. Os bosquímanos, ou homens dos bosques, vivem no sul da África há pelo menos 100 mil anos, segundo datação de carbono em pinturas feitas nas rochas. Primeiros habitantes da região, elo mais antigo dos homens das cavernas, eles caçavam e colhiam frutos na savana e nos bosques quando os negros bantos vieram do norte e tomaram suas terras para plantar e criar animais, há cerca de 2.500 anos. Exames de DNA provaram que eles estão entre os povos mais misturados – e portanto mais antigos – do mundo.

Os bosquímanos foram legalmente reconhecidos em 1996 com o nome de povo san na África do Sul, Namíbia, Botsuana e Angola, mas pelo menos os sul-africanos gostam mesmo é de ser chamados de bushmen, ou bosquímanos em inglês. “Os negros, para se tornarem homens, têm de ir para o mato. Nós nascemos no mato”, orgulha-se Andries Steenkamp, de 50 anos, presidente do Conselho San da África do Sul. Segundo ele, há no país cerca de 9 mil bosquímanos reconhecidos. Somando com os outros países, totalizam por volta de 100 mil.

Em cada região os bosquímanos falam uma língua diferente. Na África do Sul, sua língua original é o !nu (com ponto de exclamação no início, que assinala um dos 74 estalos que constituem fonemas do idioma), mas apenas sete anciãos ainda falam essa língua. Ao perder suas terras, primeiro para os negros e depois para os mulatos e brancos, eles passaram a trabalhar para os descendentes de holandeses, e por isso a língua materna das últimas gerações tornou-se o africâner. Como aconteceu com os escravos no Brasil, eles adotaram até mesmo os nomes dos donos das fazendas. Um dos trabalhos do Conselho é promover aulas de !nu para crianças, que são dadas por três anciãos, na tentativa de evitar que a língua desapareça completamente com a morte deles.

Os bosquímanos distinguem-se dos negros pela estatura mais baixa, compleição mais franzina, pele alaranjada, cabelos de um crespo mais arredondado, pálpebras protuberantes, a testa mais sobressalente e os olhos afundados. E pela atitude diferente: “Você percebe quando entra numa comunidade de bosquímanos”, descreve Steenkamp. “Eles são muito medrosos, não são ousados. Se querem ir até aquele carro, não vão diretamente, mas esgueirando-se. Têm muito medo de conviver com outras pessoas. Em geral não conseguem terminar o ensino médio. Já no mato são os melhores. É a vida deles.”

No ambiente árido do Kalahari, os bosquímanos desenvolveram técnicas ancestrais de sobrevivência. No período da chuva, armazenam água em ovos de avestruz, que enterram e depois retiram para beber na seca. Alimentam-se também de uma espécie de melão chamado tsama, que contém bastante líquido, e da hoodia, um cacto que além de matar a sede elimina completamente o apetite. E são notáveis caçadores, embora se tenha perdido no tempo o veneno que colocavam na ponta de suas flechas, e que matava lentamente os animais sem contaminar a carne.

Os bosquímanos contam que, em 1992, Regostaan Kruiper, pai do atual chefe deles, Dawid, curou de uma doença, com rituais e plantas medicinais, o advogado de direitos humanos sul-africano Roger Chennells, hoje com 60 anos. O advogado perguntou o que Regostaan o queria em troca. O chefe respondeu: “Quero minha terra de volta.” Até aqui, trata-se de uma lenda, disse Chennells ao Estado. Mas o que se segue é fato. Chennells conseguiu que o governo do então presidente Nelson Mandela desapropriasse 36 mil hectares de seis fazendas no município de Andriesvale, ao norte da província de Eastern Cape, perto da fronteira com Botsuana.

Duas delas são reservas de caça, que renderam 1.630 rands (US$ 217) em 2009, além de 35 gazelas caçadas pelos bosquímanos para seu consumo. Este ano, não poderão ter esse uso, porque parte das cercas está danificada e os animais fogem para outras fazendas. Outras três fazendas são destinadas à criação de animais, mas sem muito êxito. “Precisamos que fazendeiros nos ensinem a administrar fazendas”, pede Frederik Brow, de 29 anos, gerente do South African San Institute (Sasi). A sexta é usada para cultivar plantas medicinais.

 

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