Cúpula apresenta pobreza como agente poluidor

Apesar de a Rio+10 focar o debate no combate à pobreza, estudos mostram que países industrializados poluem muito mais que os menos abastados

JOHANNESBURG – Se um extraterrestre aterrissasse na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10) ficaria com a impressão de que os únicos que poluem o planeta são os pobres. Nos discursos de abertura, nas entrevistas coletivas com funcionários dos organismos multilaterais e mesmo no esboço de Plano de Implementação da Agenda 21, que está em discussão, a eliminação da pobreza tem um peso maior do que as metas especificamente relacionadas com a questão do meio ambiente, com base numa relação de causalidade entre pobreza e desenvolvimento insustentável.

“Os tóxicos, resíduos químicos, lixo nuclear e a poluição dos automóveis são muito mais produzidos pelos países industrializados do que pelos pobres”, observa o representante da organização não-governamental Third World Networ, Chee Yoke Ling. “Os ricos poluem mais porque consomem mais”, acrescenta Marcelo Furtado, coordenador do Greenpeace na América Latina. “A equação da sustentabilidade só pode ser resolvida se mudar o padrão de consumo.”

De acordo com um estudo do grupo ambientalista WWF, o consumo médio de recursos naturais no mundo é de 2,3 hectares por pessoa. O de um africano ou asiático, no entanto, é de 1,4, enquanto o de um europeu ocidental é de 5 hectares e o de um americano, de 9,6. Ou seja, o consumo médio de um americano é quatro vezes maior que o de um cidadão das regiões mais pobres do mundo.

Dificilmente alguém se oporá ao objetivo de reduzir a pobreza no mundo. E o subdesenvolvimento tem um reconhecido papel na degradação ambiental, por exemplo, pela falta de saneamento básico ou por práticas rudimentares, como a queima de lenha para gerar energia. “A pobreza fomenta a degradação ambiental, que fomenta a pobreza”, resume Furtado. A dúvida é se, uma vez atingido esse objetivo, o planeta estará a salvo da degradação ambiental.

Representantes de organizações não-governamentais na cúpula de Johannesburgo acreditam que os países ricos tenham estimulado essa agenda, à qual se apegaram os governos da África e de outras regiões pobres do mundo, para desviar o foco de suas responsabilidades na área ambiental e dos compromissos não cumpridos da Agenda 21, firmada há dez anos no Rio.

“No Rio, tivemos um debate honesto”, diz Chee, de Kuala Lumpur, na Malásia. “Agora, o debate é desonesto. Aqueles que não cumpriram seus compromissos de mudar seu padrão de produção e consumo vêm aqui falar em dar dinheiro para os pobres resolverem seus problemas. E dizem que todo o problema está na governança local, que há corrupção demais nos países pobres. Estamos de acordo que é preciso combater a pobreza e a corrupção, mas as causas não são só essas.”

Ao mesmo tempo em que impõem a boa governança local como condição para ajudar os países pobres e em desenvolvimento, os países ricos, Estados Unidos à frente, rejeitam compromissos na esfera da governança global, que implicaria a obediência às instâncias multilaterais de decisão.

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