Em Cartum, divisão desperta indignação e rejeição

CARTUM – Uma cicatriz na testa lembra os dez anos que o engenheiro mecânico Walid Hussein, de 34 anos, passou na guerra contra o Sul, entre 1995 e 2005.

“Dividir o país é como cortar parte do nosso corpo”, resume Hussein, que hoje trabalha numa joint venture entre as estatais de petróleo sudanesa e chinesa. “Tive de participar da guerra para defender meu povo”, continua Hussein, recrutado pelo serviço militar obrigatório. “Entendo que as riquezas do país devam ser distribuídas de forma justa, mas acho que a forma de conseguir isso não deveria ser a guerra, mas a negociação.”

“Acho um grande erro”, lamenta Rasha Ali Adhlan, dona-de-casa de 32 anos, formada em psicologia. “Desde criança aprendemos na escola que o norte e o sul eram um só país. É muito duro assimilar a separação”, acrescenta Rasha, saindo do Shopping Afra, o único de Cartum, com um véu florido na cabeça e um casal de filhos pequenos. 

Mas há reações também de conformismo no norte. “É melhor perder uma parte do país do que continuar numa guerra que ninguém vence”, pondera Nohizy Arufai, de 33 anos, que trabalha na Companhia de Açúcar Kenana, cuja usina de etanol foi montada com equipamento do grupo brasileiro Dedini. “Eles precisam ter a chance de se autogovernar para ver como é. Muitos povos se separaram e depois voltaram. Vamos torcer para que isso aconteça.” 

Outros retribuem a rejeição. “Acho muito boa a divisão, porque os sul-sudaneses estavam criando muitos problemas no Sudão”, diz Hamjed Mergani, de 21 anos, que importa celulares. “Vendem bebidas alcoólicas, bebem demais, metem-se em brigas e não vêem o que fazem.” O jovem empresário muçulmano reconhece que, para os negócios, não é bom: “O mercado era maior quando estávamos juntos.”

“Sou a favor da divisão porque somos diferentes nos costumes, nas tradições, na mentalidade”, concorda Maisa Mohamed, uma estudante de turismo de 21 anos, de véu cor de rosa e blusa lilás, saindo da Universidade Internacional do Sudão, privada. “A economia vai piorar, porque o petróleo é do sul.”

Amna Ibrahim Amin, de 20 anos, estudante de economia, chama de “absurda” a alegação de que os sul-sudaneses são tratados como cidadãos de segunda classe pelo governo central de Cartum: “Há muitos sul-sudaneses na universidade, somos bons amigos e todos são tratados igualmente.”

O motorista de ônibus Makke Mohamed, de 50 anos, reclama: “O governo dá a eles mais que aos do norte. Nós daqui é que somos maltratados quando vamos para o sul.” 

Habituados a interferências externas, muitos sudaneses se preocupam com o flanco aberto no sul. “Agora os Estados Unidos e Israel vão colocar bases militares lá e incentivar o sul a fazer guerra contra o norte”, teme Fathi Ali Ahmed, de 21 anos, estudante de comércio eletrônico. 

Altom Abdullah Youssef, prefeito de Bara, a 290 km de Cartum, e chefe do clã Darham, tem receio de que as interferências de fora fomentem conflitos internos e transformem o Sudão num Iraque. “Não tenho medo do Sudão do Sul, mas dos países que querem vender armas para eles, como os Estados Unidos”, explica Youssef, no meio de 400 cabras que pastores do seu clã trouxeram para vender em Cartum, depois de viajar quatro dias e quatro noites com camelos e jumentos.

“É tempo de globalização, não de divisão”, analisa o economista Mohamed Jubara, de 55 anos, que assessora empresas agrícolas. “Se você fica sozinho, sai prejudicado.” Jubara observa que as agriculturas do norte, produtor de tâmaras, do centro, de açúcar, e do sul, de banana, manga, chá e café, são complementares. “Eles precisam de nossos produtos, e nós dos deles. A água e o petróleo estão unidos debaixo da fronteira.” 

O governo prevê que haja uma união aduaneira entre os dois países, para livre trânsito de produtos e pessoas.

“Fizemos tudo o que podíamos para evitar a separação”, disse ao Estado o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Khalid Musa Dafalla. “Investimos mais de US$ 4 bilhões no desenvolvimento do sul. Um terço do governo nacional é composto por sul-sudaneses, assim como 22% dos funcionários públicos.” Dafalla atribui os persistentes problemas de infra-estrutura do sul a corrupção e má gestão.

 

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