Guerra deixa cicatrizes nos sudaneses do sul

Moradores de Juba, capital do Sudão do Sul, reclamam de preconceito e de como são tratados como cidadãos de segunda classe no norte do país

 

JUBA

Deng Duom tem uma imagem bastante africana da forma como os sul-sudaneses se sentem em relação aos habitantes do norte. “Na nossa sociedade o homem pode ter várias esposas, você sabe, e a primeira é sempre a mais importante”, diz Duom, um corretor de seguros de 27 anos. “Os árabes nos tratavam como a segunda esposa. Agora não precisamos mais lidar com eles.”

Duom sai na porta do seu escritório no centro de Juba, a capital do Sudão do Sul, e mostra a paisagem desoladora ao redor: “Você esteve em Cartum. Como as duas cidades se comparam? Veja essas ruas de terra. Eles não cooperam conosco.” O jovem vê com otimismo o futuro de seu país: “Definitivamente será um país rico, se for um Estado de Direito e combater a corrupção. Temos petróleo, minérios e agricultura. Juba será como Nairóbi”, completa Duom, que viveu no Quênia como refugiado ao longo de 12 anos.

Assim como nos habitantes do norte, a guerra civil deixou cicatrizes físicas e psicológicas nos sul-sudaneses. “A guerra começou na minha terra”, conta Duom, nascido em Abodid, no Estado de Jonglei, 300 km a nordeste de Juba. Seu pai morreu em combate, em 1988. 

“Votei pela separação porque os sudaneses do norte nos tratam mal”, afirma Charity Natahiel, de 28 anos. Ela dá um exemplo: “A passagem de Juba para Cartum é muito mais cara do que a de Cartum para Juba. Não nos querem lá. E os salários lá são muito melhores que os daqui.” 

Didi Peter, de 33 anos, apresentadora de um programa de auditório na nova TV estatal sul-sudanesa e filha de pastor presbiteriano, conta que no norte os cristãos do sul são hostilizados durante celebrações como Natal e Páscoa. Sua família se mudou para o norte em 1980, quando Didi tinha dois anos de idade, e ela só pôde rever sua terra natal, Akuba, na província de Jonglei, em 2007, ao voltar pela primeira vez ao sul. 

“Dizem que Cartum é muito melhor, e que Juba não passa de uma vila”, diz Mary Peter, de 38 anos, vendedora de roupas e artigos de decoração, que voltou há pouco tempo de Cartum. “Pode ser, mas é a nossa vila. Estamos muito felizes.” 

 

Ao seu lado, sua prima Aisha Nour Shor, de 40 anos, com o cabelo coberto por um véu, conta que também voltou recentemente de Cartum, onde tinha um restaurante, e procura agora emprego de cozinheira em Juba. Aisha pertence à minoria muçulmana no sul, em que predominam o cristianismo e crenças africanas. “É só religião”, diz ela. “Não faz diferença aqui.”

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