Sudão se divide para fugir de pressões

País aceita ”sacrifício” para se reintegrar à comunidade internacional, mas o futuro Sudão do Sul é ameaçado por novos conflitos étnicos

 

CARTUM

“Sudão” significa “terra dos negros” em árabe. Um olhar estrangeiro, que vê a pele, o nariz e o cabelo, confirma essa generalização. Mas muitos sudaneses não se vêem como negros, e sim como árabes. Ao longo de cinco décadas, desde um ano antes da independência em relação à Grã-Bretanha em 1956, até o acordo de paz de 2005, os árabes muçulmanos do norte e os negros cristãos e de religiões africanas do sul se enfrentaram em guerras intermitentes que deixaram centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados. 

As potências mundiais e toda a região se envolveram nessa disputa pelo território do maior país da África, que ganhou contornos de choque de civilizações entre o mundo árabe-muçulmano e o negro cristão. O Sudão abrigou entre 1991 e 1994 Osama bin Laden, que morava no elegante (para os padrões de Cartum) bairro de Riyadh, convenientemente próximo do aeroporto. A Corte Internacional de Haia emitiu em 2009 ordem de prisão por genocídio contra o presidente Omar al-Bashir, no poder desde 1989, por causa do conflito na região de Darfur (oeste do país), também entre árabes e negros, embora todos muçulmanos, que teria deixado 300 mil mortos.

Os Estados Unidos impõem embargo econômico contra o Sudão, além de o manterem na lista dos patrocinadores do terrorismo. A grande aposta do governo sudanês, com o “sacrifício” da divisão do país, é o levantamento das sanções, a reintegração do país à comunidade internacional e a pressão dos Estados Unidos e da Europa para que os rebeldes de Darfur – que exigem mais autonomia, não independência – negociem com o governo o fim do conflito, como já fez uma das facções.

Conforme previsto no acordo de 2005, os sul-sudaneses realizaram referendo entre 9 e 15 de janeiro, quando 98,8% votaram pela separação. O Sudão do Sul terá cerca de 11,4 milhões de habitantes; o Sudão tem outros 33,6 milhões, incluindo os 7 milhões de Darfur. A independência do Sudão do Sul será proclamada em julho. Seu governo e Parlamento foram eleitos em abril do ano passado, em eleições gerais, que deram a Bashir mais cinco anos de mandato. O vice-presidente do Sudão, Salva Kiir Mayardit, será o presidente do 193º país do mundo.

Tanto os cidadãos comuns quanto as autoridades dos dois lados falam da separação como um casal, numa espécie de diálogo virtual promovido pelo Estado nas capitais Cartum, do Sudão, e Juba, do Sudão do Sul. Os sudaneses do norte se sentem rejeitados e prejudicados; os do sul, aliviados e otimistas. É do sul que sai a principal riqueza do país, o petróleo. Mas é para duas refinarias do norte que o petróleo é levado. A divisão da receita é meio a meio.

Resta sem solução a situação de Abyei, região da nova fronteira, rica em petróleo, disputada entre negros dinkas e árabes misseryas, nômades que tradicionalmente no verão levam seus rebanhos para pastar nas terras mais úmidas do sul. A partir de julho, estarão cruzando a fronteira de outro país.

 

Mas o sul também não está livre de conflitos internos. As tribos equatoriais, de agricultores sedentários, em cujas terras está a nova capital, Juba, sentem-se prejudicadas pelas tribos nilóticas, originalmente nômades, que são maioria no novo país. Fala-se em um novo conflito étnico, entre os povos do sul.

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