Parentes acompanham tentativa de resgate nos escombros

PORTO PRÍNCIPE- A pá da retroescavadeira tateia às cegas o monte de escombros a que se reduziu o edifício de quatro andares do Ministério do Planejamento, sob o olhar aflito de dezenas de familiares dos funcionários ali soterrados. Dois deles sobem nos pedaços de concreto e começam a gritar. De lá de baixo, duas pessoas respondem. Um dos soterrados pede que a máquina não avance sobre os escombros, porque ele tem uma pedra sobre o peito.

As lagartas da retroescavadeira recuam cautelosamente. Os espectadores se agitam. A tarde cai sobre Porto Príncipe, e não resta muito tempo de luz. O cheiro forte de carniça que exala dos escombros – e que se sente por todo o centro da cidade – é outro indicador de que não resta muito tempo. Cinco sobreviventes foram retirados desses escombros nos dois dias anteriores. Ninguém sabe dizer quantas pessoas – vivas e mortas – restam ali.

O pedreiro Diosenes Jackson, de 46 anos, move-se de um lado para o outro, os olhos injetados e a voz rouca, depois de três dias esperando que seu irmão ressurja do prédio onde trabalhava. ” Tenho certeza de que meu irmão está vivo, porque ele tem um grande coração e um grande espírito “, assegura. “Ele é um lutador, é sexto dan no karatê”, orgulha-se.

Seu irmão, o agrônomo Roberto Jackson, de 57 anos, era o diretor de Planejamento do ministério. Sua mulher aguarda chorando, recostada no peito de uma parente, num banco de praça em frente ao prédio. Ela diz que 50 famílias dos funcionários soterrados juntaram US$ 5 mil para pagar o serviço da retroescavadeira, embora a máquina pertença ao Ministério de Obras Públicas.

Embora grande parte do centro e de outros bairros da cidade tenha vindo abaixo, há muito poucas máquinas auxiliando no resgate de corpos, incluindo algumas da ONU. A poucas quadras do prédio do ministério, os escombros de uma casa funerária caíram sobre o carro que transportava os defuntos, numa confirmação irônica de que os mortos foram deixados à própria sorte. Muitos corpos continuam jogados nas calçadas, os membros retorcidos e enrijecidos. Alguns moradores andam de máscaras ou protegem a boca e o nariz com panos; outros passam pasta de dente em torno do nariz e da boca, num artifício quase supersticioso para livrar-se do mau cheiro e das pestilências que ele evoca.

Depois de um primeiro momento de frenética atividade, tentando arrancar com as mãos as pedras que cobriam seus parentes e seus bens, os haitianos parecem ter entrado numa fase de letargia, de impotência diante da dimensão da destruição e da falta de meios materiais para enfrentar os escombros – que, a maioria acredita, ainda mantêm presos muitos vivos.

Na calçada em frente ao mercado central de Porto Príncipe, inteiramente destruído pelo tremor de 7 graus na escala Richter, dezenas de proprietários das antigas lojas passam o dia sentados, como se continuassem esperando os fregueses. “Ninguém do governo veio aqui, nenhuma máquina, nada”, exalta-se Jacques Weber, de 33 anos, que tinha uma loja de roupas e calçados esportivos. “Eu pago imposto todos os meses”, protesta, ainda usando o verbo no presente. Os lojistas guiam o repórter sobre os escombros, apontando: “Aqui embaixo existem muitos corpos, e pessoas ainda vivas também.”

Na Rua Bonne Fois (Boa Fé), que cruza o mercado central, Paule Sonia, de 40 anos, pica repolhos e descasca mandioquinhas e batatas num caldeirão, para um cozido que vai distribuir aos parentes e vizinhos, com ingredientes que seu irmão Celan, um ex-dono de loja no mercado, comprou com suas últimas economias. Paule improvisou a sua cozinha na frente dos destroços de sua casa, e dedica-se placidamente a fazer o cozido, como se tentasse reviver por um momento a sua antiga rotina.

 Em contraste, muitos moradores de Porto Príncipe estão deixando tudo para trás. Carregando trouxas sobre as cabeças, eles caminham em direção aos terminais de micro-ônibus na saída da cidade, ou seguem a pé pelas estradas. Seu destino em geral são as casas dos parentes nas províncias. Alguns poucos seguem para a República Dominicana, que divide a Ilha de Hispaniola com o Haiti. Mas só aqueles que já tinham visto ou residência no país vizinho podem cruzar a fronteira.

Publicado em O Estadão. Copyright: Grupo O Estado. Todos os direitos reservados. 

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