A Guerra Fria de Trump

TSAI ING-WEN, PRESIDENTE DE TAIWAN: sua ligação para Trump deu origem a uam crise diplomática com a China/ Taiwan Presidential Office/ Reuters

Lourival Sant’Anna

Há muito tempo que uma conversa telefônica de dez minutos não criava tanta confusão. Donald Trump quebrou um tabu de quase 40 anos ao atender o telefone no dia 2. Do outro lado da linha, estava a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. A China, que não aceita que países com os quais mantém relações façam o mesmo com Taiwan, reagiu inicialmente com certa cautela, aproveitando para dar uma aula de geopolítica ao presidente eleito antes de ele adentrar a Casa Branca.
Até que Trump tripudiou, no domingo, dizendo que estava perfeitamente consciente das implicações de seu gesto, e que pretende dessa forma arrancar concessões comerciais da China. Agora são os chineses que estão jogando lenha na fogueira, ameaçando romper a cooperação com os EUA em todos os níveis. Artigo do Washington Post desta segunda-feira afirma no título que “Trump arrisca causar uma guerra tentando barganhar com a política de Uma China” — como é chamada a reivindicação da China continental sobre a ilha de Taiwan.
Até onde se sabe, foi a primeira vez que um presidente americano, seja eleito ou no cargo, conversou com um governante taiwanês, desde 1979, quando os Estados Unidos estabeleceram relações diplomáticas com a China e romperam com Taiwan, no governo de Jimmy Carter. A situação, na verdade, é ambivalente, como é também entre o regime comunista chinês e o governo capitalista da ilha, para onde se refugiaram os nacionalistas de direita, depois de serem derrotados na guerra civil de 1946 a 1949. Tanto EUA quanto China mantêm intensos negócios com Taiwan, uma plataforma de exportações. Mas não há contatos oficiais. Ou não havia, no caso dos EUA.
No dia em que a conversa se deu, o presidente chinês, Xi Jinping, reuniu-se com o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, artífice da reaproximação entre os dois países, por meio da “diplomacia do pingue-pongue”, nos anos 70, e disse a ele que tinha esperança de que haveria “estabilidade” nas relações sob o governo de Trump. Depois do telefonema, o Ministério das Relações Exteriores chinês apresentou uma queixa formal ao governo americano. O chanceler Wang Yi procurou jogar a culpa em Taiwan, dizendo que tinha sido uma atitude “mesquinha” da presidente Tsai. Procurando ser didático, acrescentou: “O princípio de Uma China é a fundação para o desenvolvimento saudável das relações sino-americanas. Não queremos que nada obstrua ou arruine essa fundação”.
Estava preparado o terreno para pôr panos quentes. Mas claramente não era esse o desejo de Trump, que durante a campanha ameaçou impor tarifas de 45% sobre os produtos chineses. Em seguida à conversa, o presidente eleito tuitou: “A presidente de Taiwan me ligou para me desejar parabéns por ganhar a presidência. Obrigado!” Tecnicamente, o post já era um soco no estômago, não só porque demonstrava que Trump não tinha intenção de esconder a conversa, mas também por se referir a Tsai como “presidente”, o que implica a existência de um Estado. Pequim prefere o termo “líder”.
Dois dias depois, já instalada a polêmica por causa da conversa, Trump voltou ao tema no Twitter: “A China nos perguntou se era OK desvalorizar sua moeda (tornando difícil para nossas empresas competir), taxar pesadamente nossos produtos que entram no país deles (os EUA não os taxa) ou construir um enorme complexo militar no meio do Mar do Sul da China? Acho que não!”
Na noite de domingo 11, em entrevista à Fox News, Trump colocou as cartas na mesa. “Entendo perfeitamente a política de Uma China, mas não sei por que temos de ser obrigados a segui-la, a menos que façamos um acordo com a China, que tenha a ver com outras coisas, incluindo comércio”, disse ele. O presidente eleito repetiu as queixas em relação à desvalorização do yuan, às tarifas e às instalações militares chinesas no Mar do Sul do China, e acrescentou uma: “Francamente, eles não estão nos ajudando com a Coreia do Norte”, aliada da China que desestabiliza a região com testes de mísseis convencionais e nucleares. “Não quero que a China dite o que posso fazer”, concluiu.
Na segunda-feira, o governo chinês reagiu com o vigor máximo permitido pela linguagem diplomática. “A China notou a matéria (da Fox News) e expressa séria preocupação a respeito dela”, disse Geng Shuang, porta-voz da chancelaria em Pequim. A questão de Taiwan concerne à soberania e à integridade territorial da China, e envolve os interesses centrais da China.” Geng prosseguiu: “Manter o princípio Uma China é a base política para desenvolver as relações China-EUA. Se essa base sofrer interferência ou dano, o desenvolvimento saudável das relações China-EUA e a cooperação bilateral em áreas importantes estão fora de questão.”
O porta-voz ampliou o alcance da questão: “O relacionamento China-EUA tem significado global e estratégico. Isso não concerce apenas à felicidade de ambos os países e seus povos, mas à paz, estabilidade, desenvolvimento e prosperidade da Ásia-Pacífico e internacionalmente”. Durante uma viagem à Suíça, o chanceler Wang Yi declarou, respondendo à pergunta de um repórter: “Se qualquer força do mundo tentar afetar o princípio de Uma China e prejudicar os interesses centrais chineses, no fim estarão erguendo uma pedra e derrubando em seus próprios pés”.
Em editorial, o tabloide sensacionalista Global Times, que em geral expressa o que os governantes chineses não podem dizer com todas as letras, chamou Trump de “criança ignorante” no “campo da diplomacia”.
Como tudo em que Trump se envolve, a controvérsia deixou no ar uma dúvida acerca do quanto esse passo foi planejado e quanto foi improvisado — o que define, em parte, se é uma estratégia de fôlego ou um blefe do qual ele recuará em breve.
O pior é que Trump conseguiu desagradar todo mundo: o governo taiwanês não gostou de saber que a aproximação era uma carta na negociação do próximo presidente americano com a China, e não um genuíno interesse na ilha.
“Meu palpite é que Trump não fazia ideia do quanto Taiwan é nevrálgico para Pequim”, opina Bonnie Glaser, especialista em Ásia do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington. Para Susan Shirk, diretora do Programa China Século 21 da Universidade da Califórnia em San Diego, o telefonema foi um gesto “impulsivo” e um “mau sinal sobre a política externa” de Trump.
Paul Haenle, que foi assessor do Conselho de Segurança Nacional nos governos de George W. Bush e de Barack Obama, e agora dirige o Centro Carnegie-Tsinghua em Pequim, disse que o incidente mostrou a importância de o presidente eleito ouvir especialistas dos Departamentos de Estado e de Defesa, e de formar logo uma equipe para a China. O governo Obama ofereceu assistência nesse sentido, como é comum nas transições nos EUA, mas Trump até agora dispensou.
De acordo com reportagem do jornal The Washington Post, no entanto, que ouviu pessoas envolvidas, o telefonema “foi um gesto intencionalmente provocativo, produto de meses de planejamento, de silecionsas preparações e deliberações entre assessores de Trump sobre uma nova estratégia de engajamento com Taiwan que começaram antes até de ele ser nomeado candidato republicano”. A versão de Trump é a de que ficou sabendo apenas duas horas antes, e foi só uma conversa de congratulação pela vitória.
Nem todo mundo pensa que a atitude de Trump foi impensada ou descabida. “O telefonema não foi uma gafe de um presidente eleito inexperiente, ignorante sobre a etiqueta diplomática”, assegura Marc Thiessen, pesquisador do conservador American Enterprise Institute e ex-redator dos discursos de Bush. “Foi um passo deliberado e brilhante. Ele sabia exatamente o que estava fazendo: estava comunicando a Pequim que agora ela está lidando com um tipo diferente de presidente — um outsider que não será amarrado pelos cordões diplomáticos lilliputianos que ataram administrações anteriores”, descreveu, comparando os EUA a um gigante que se curvava a anõezinhos.
Derek Scissors, também pesquisador do American Enterprise Institute, propõe que Trump negocie um acordo de livre comércio com Taiwan, cuja população pequena não roubaria empregos industriais dos americanos — a grande restrição do presidente eleito contra o livre comércio.
Até onde Trump pretende chegar se poderá medir pelas nomeações de sua equipe de política externa. A especulação benigna é a de que ele planeja nomear embaixador em Pequim o governador de Iowa, Terry Branstad, que cultiva há muito tempo um bom relacionamento com a China, para onde o Estado exporta seus produtos agrícolas.
Um nome que iria noutra direção é o do embaixador John Bolton para secretário assistente de Estado. Em um artigo em janeiro no The Wall Street Journal, Bolton defendeu uma atitude mais dura de Obama em relação às investidas chinesas no Mar do Sul da China, onde Pequim tem disputas territoriais com a Austrália, Indonésia, Filipinas e Vietnã.
Bolton tem defendido uma “escalada diplomática”, que começaria recebendo diplomatas taiwaneses no Departamento de Estado, até chegar ao reconhecimento pleno do país. Depois do telefonema entre Trump e a presidente de Taiwan, Bolton opinou: “O presidente dos Estados Unidos fala com quem quiser se achar que é do interesse dos Estados Unidos, e ninguém em Pequim pode ditar com quem falamos”.
Nenhum desses defensores da aproximação com Taiwan considera que ela levaria à ruptura com a China. Sua premissa é a de que os EUA podem se relacionar com ambos. Não é a sensação de quem está na China. “Isto é um golpe pesado”, avalia Zhu Feng, diretor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Nanjing.
Aonde isso vai dar depende das intenções de Trump. Em maio, quando ainda disputava as primárias, o empresário disse: “Quem se importa se houver uma guerra comercial?”, em resposta às advertências de que a elevação de barreiras tarifárias contra a China levaria a retaliações que prejudicariam a economia americana.
Outro dado intrigante é que, de acordo com o jornal The New York Times, a imprensa taiwanesa noticiou no mês passado que um representante das Organizações Trump visitou Taipé e manifestou interesse no projeto de um hotel ao lado do Aeroporto Taiwan Taoyuan, que passa por uma grande ampliação. Parece que não vai ser fácil delimitar as fronteiras entre o Trump empresário e o Trump presidente. No mínimo, sua visão de mundo é moldada por sua vivência de empresário. Afinal, foi por isso que os americanos o elegeram.

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