Partidários de Obrador prometem resistir ‘até o fim’

Manifestantes não aceitam resultado e mantêm concentração no centro da capital mexicana

CIDADE DO MÉXICO – Sob o sol do meio-dia, o executivo de vendas Roberto Arroyo, camisa de manga comprida rosa choque e gravata, aguarda sua vez numa fila de 30 pessoas na Praça da Constituição, no centro da Cidade do México, para credenciar-se como delegado à Convenção Nacional Democrática, dia 16. “Sou da opinião de que aqui só vai haver mudança pelas armas”, diz Arroyo, 44 anos. “Peça ao presidente Lula para nos mandar umas metralhadoras.”

O repórter do Estado observa que o executivo não tem pinta de guerrilheiro. “Ah, não? Pois me dê uma arma e verá. Tiro essa gravata e vou à luta.” Ante o olhar incrédulo do repórter, Santiago Ortiz, de 72 anos, o próximo na fila, apressa-se a confirmar: “É verdade. Estamos dispostos a tudo.” Ortiz, encanador, foi funcionário federal, e recebe 1.500 pesos (US$ 136) de aposentadoria. Paga exatamente isso de aluguel. “Não me sobra nada para o feijão.” Ele complementa a renda como vendedor ambulante.

“Precisamos de justiça neste país”, afirma Arroyo, que trabalha numa firma que importa corantes. “Andrés Manuel López Obrador representa os interesses populares. Felipe Calderón é da gente do dinheiro.” A administradora Mónica Galindo, de 36 anos, interpreta: “Os da direita não queriam que cortassem suas rendas, por isso não o deixaram ser presidente. Andrés Manuel tem um ideal muito forte de ajudar os pobres.”

Não resta dúvida de que muita gente gosta de López Obrador, mas rejeitar o resultado da eleição e tentar criar um governo e uma assembléia constituinte paralelos não é um caminho perigoso? “Claro que é arriscado, mas voltar a aceitar de novo é deixar que continuem esse faz-de-conta da democracia mexicana”, responde Marta Esteba, de 38 anos, que faz doutorado em ciência política na Universidade Nacional Autônoma do México, e ontem distribuía panfletos convidando para uma conferência sobre a Convenção Nacional Democrática.

Marta se referia à eleição presidencial de 1988. “Cuauhtémoc Cárdenas (do PRD) ganhou, e impuseram Carlos Salinas de Gortari (do PRI)”, disse ela. “Cuauhtémoc decidiu não fazer um movimento social. De nada nos ajudou. Veio o governo corrupto de Salinas. Se não enfrentarmos, o que vai ser do país? Não podemos ter medo sempre. Nossa geração tem de assumir sua responsabilidade.”

Os cerca de dez quilômetros ao longo dos quais se estendem as barracas do movimento pró-López Obrador, na Avenida Reforma, uma das principais artérias da capital, são como uma vitrine das ideologias de esquerda. “Revolucionário é transformar nosso universo”, ensina uma faixa com um astronauta no espaço, do movimento larouchista, antiglobalização.

“Estamos apoiando o resgate da soberania nacional”, diz Alex Balam, de 29 anos, que deixou o curso de engenharia do petróleo quando constatou que o setor estatal no México estava sofrendo desinvestimento e sendo privatizado. “Não estamos investindo em maquinário e tecnologia para deixarmos de ser um país de montadoras”, queixou-se Balam, um dos 15 militantes acampados nas barracas do movimento, cujo guru, o americano Lyndon LaRouche, figurava ontem de uma teleconferência transmitida via internet, sobre as mazelas da globalização.

Publicado em O Estadão. Copyright: Grupo Estado. Todos os direitos reservados.

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