Comandante americano elogia destreza de Bin Laden

Podemos aprender com o inimigo sua habilidade em se adaptar, diz general

 

CABUL – O general David Barno, comandante das forças da coalizão liderada pelos Estados Unidos no Afeganistão, admira a capacidade de adaptação e o desembaraço da al-Qaeda de Osama bin Laden. “Podemos aprender com o inimigo sua habilidade em se adaptar”, reconheceu Barno, em entrevista a jornalistas estrangeiros em Cabul. Segundo o general, Bin Laden tem sabido “evitar contatos (com a coalizão), a não ser nos seus próprios termos”, e tem também explorado bem as vantagens da fronteira com o Paquistão.

“Nós respeitamos a fronteira”, explicou Barno. “Eles, não.” O general acrescentou, no entanto, que a cooperação com os militares paquistaneses tem aumentado. Ele citou um caso em que homens da al-Qaeda voltaram para o lado paquistanês depois de um confronto com as forças da coalizão, que avisaram os comandantes do Paquistão. As forças paquistanesas saíram no encalço dos membros da al-Qaeda. “Estamos tendo uma cooperação muito boa com o Paquistão.”

À pergunta sobre se tem evidências de que Bin Laden esteja vivo, Barno, que está há um ano no Afeganistão, respondeu: “Não tenho evidências de que ele tenha morrido, portanto presumo que esteja vivo.” O Estado perguntou se o chefe da al-Qaeda permanecia num mesmo lugar ou em movimento. “Ele alterna as duas situações”, afirmou. O general se recusou no entanto a especular sobre a localização exata de Bin Laden. “Se soubesse onde ele está, eu iria pegá-lo.” Mas confirmou que a al-Qaeda tem atuado ao longo da fronteira com o Paquistão, uma faixa de 2.500 quilômetros na qual predominam tribos autônomas em relação ao governo de Islamabad.

Já os taleban, cujo regime abrigava a al-Qaeda no Afeganistão até serem derrubados em dezembro de 2001 pelos militares americanos, numa aliança com seus opositores afegãos, concentram-se nas províncias de Oruzgan, Zabul e Helmand, no sul do país. Finalmente, o outro grande inimigo da coalizão, os mujaheddin (“combatentes da liberdade”) liderados por Gulbuddin Hekmatiar, têm atuado no leste do país e nas cidades de Cabul e Kandahar.

Os jornalistas perguntaram qual era a missão dos militares americanos e o que definiria o seu sucesso e o seu fim. Segundo o general, sua missão está relacionada ao contexto maior da “guerra global contra o terrorismo”, e no atual estágio se estende a ações de “contra-insurgência” e à assistência ao governo afegão para alargar o seu alcance sobre o país. “O fim da nossa missão será definido pelo povo e pelo governo afegão”, disse Barno. “Os afegãos querem muito que nós fiquemos aqui.”

As forças da coalizão, cujo quartel-general funciona em quarteirões de casas de classe média alta no noroeste de Cabul, compradas pelos Estados Unidos, mantêm 20 mil soldados no Afeganistão, a grande maioria formada por americanos. Outros 16 países têm uma participação quase simbólica.

Além dela, há a Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf, na sigla em inglês), que atua com mandato da ONU, sob o comando do general francês Jean-Louis Py. Seu contingente é normalmente de 7 mil soldados, mas atualmente ela conta com 9 mil, devido a um reforço recebido para ajudar a garantir a realização da eleição presidencial, a primeira na história do país, dia 9.

Os 26 membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e mais 11 países que não integram a aliança participam dessa força. A maioria são países europeus, com exceção dos EUA – que contribuem com 181 soldados -, Nova Zelândia e Azerbaijão. O maior contingente é o da Alemanha, com 2.111 militares, seguido pelo da Espanha, com 983, o da Itália, com 932 e o da França, com 917. Instalada no antigo Clube de Oficiais de Cabul, a força não realiza ações ofensivas, mas apenas de manutenção da segurança.

Um novo Exército afegão está sendo criado com assistência dos militares americanos, que já formaram quase 30 mil soldados. No fim, o contingente deverá somar 70 mil homens. Outros 13.500 policiais já foram treinados pelos alemães. O objetivo é chegar a um efetivo de 65 mil homens, incluindo a polícia de trânsito.

O Japão está conduzindo um programa de desmobilização, desarmamento e reintegração dos membros do antigo Exército afegão, a maioria dos quais se engajou nas milícias formadas depois da expulsão dos soviéticos, em 1989. Embora o contingente estimado do antigo Exército regular fosse de 100 mil, foram identificados 24 mil militares na ativa. Desses, 13 mil entregaram suas armas e se engajaram em programas de capacitação profissional. O Japão já investiu US$ 740 milhões nesse programa.

De acordo com a Isaf, quase a totalidade do armamento pesado que havia em Cabul e nas redondezas já foi “acantonada”, ou seja, reunida em locais controlados pela força multinacional. Esse equipamento, em geral de origem soviética, ficará à disposição do Ministério da Defesa afegão.

Caberá ao novo Exército e à nova polícia afegã vigiar os locais de votação em 21.700 cidades, no dia 9. As forças da coalizão e da Isaf estarão de prontidão para dar apoio. A estimativa dos militares americanos é a de que o momento para uma grande campanha de desestabilização para inviabilizar a realização das eleições já passou. Pode haver ações isoladas de sabotagem, mas nada que impeça a votação, adiada duas vezes este ano.

Lourival Sant’Anna é o único latino-americano num grupo de 11 jornalistas convidados pelo governo dos EUA para um “tour pré-eleitoral” no Afeganistão.


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