Dentro do antigo santuário da Al-Qaeda

Cavernas e campos de treinamento ainda guardam vestígios da presença dos terroristas

 

DARGAI – Para Osama bin Laden e seus companheiros, era bem mais fácil chegar ao seu antigo santuário em Tora Bora, uma magnífica cadeia de montanhas na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Yunas Khalis, o principal arrecadador de fundos para a jihad (guerra santa), que trouxe Bin Laden para o leste do Afeganistão, mandou construir uma estrada de 15 quilômetros no topo das montanhas de 4.406 metros de altitude, para que seus amigos árabes pudessem chegar com seus veículos 4×4 até a porta de “casa”.

Depois de um mês de bombardeio e três anos de abandono, essa estrada está intrafegável. Quem quer conhecer hoje o antigo campo de treinamento e esconderijo da Al-Qaeda precisa seguir, a cavalo, as trilhas tradicionais usadas pelos pastores de ovelhas e cortadores de madeira que exploram os vales férteis de Tora Bora. Depois de duas horas de solavancos na acidentada estrada de terra partindo de Jalalabad, a principal cidade do leste do Afeganistão, a reportagem do Estado chegou ao vilarejo de Agam, a 50 quilômetros de distância, onde fica o último posto da polícia. Lá, um policial embarcou no jipe para escoltar os visitantes por uma área onde ainda há remanescentes do grupo terrorista árabe.

Mais uma hora para percorrer apenas 15 quilômetros pela estrada que acompanha o despenhadeiro, passando por chácaras e pequenos cemitérios de árabes da Al-Qaeda, bem cuidados pelos camponeses locais, que conservam bandeiras coloridas sobre túmulos marcados apenas por uma pedra irregular. O grupo chegou então a Dargai, a última vila ao pé das montanhas de Tora Bora, onde alugou dois cavalos, ao preço de 900 rúpias paquistanesas (US$ 16), para subir as trilhas cobertas de pedregulhos, que levam ao topo da montanha.

Depois de duas horas a cavalo, surge a paisagem esplêndida de campos verdes intercalados de areia amarela clara, que encobrem as montanhas onduladas. Essa era a vista das janelas da “casa de campo” de Bin Laden, semidestruída pelos mísseis lançados por aviões americanos, assim como numerosas casas de outros comandantes da Al-Qaeda e as trincheiras de pedra erguidas pelos combatentes, estimados em 600 homens.

Uma companhia contratada pelo governo americano retirou o grosso da sucata dos mísseis. Mas, depois de três anos, a miudeza dos projéteis e cartuchos de foguetes disparados pelos árabes continua ali, semi-enterrada, junto com embalagens de biscoito, creme de leite, pilhas, cacos de porcelana, solas de sapato, um quepe branco e até rações despejadas pelos aviões americanos durante a guerra, com a mensagem: “Um presente do povo dos Estados Unidos da América”.

Do topo da montanha, onde ficavam as casas, o terreno desce em direção a um córrego cristalino, passando por grandes degraus terraplanados, onde os antigos ocupantes plantaram batatas, tomates, cebolas e outros mantimentos. Do outro lado do córrego, estão as famosas cavernas, escavadas na terra dura do pé da montanha seguinte. No chão de uma dessas cavernas, que não passam de 3 metros de largura por 3 de profundidade, com cerca de 2,5 metros de altura, ainda brilha a embalagem dourada dos biscoitos Golbou, com recheio de creme de limão, fabricados em Tabriz, no Irã.

Bin Laden e seus companheiros ocuparam Tora Bora durante praticamente todo o período que durou o regime taleban (1996-2001), transformando-a em refúgio e campo de treinamento.

Moradores das montanhas, como o pastor de cabras Gulabdjan Khan, que nasceu em Tora Bora, contam que foram proibidos pela Al-Qaeda de entrar na área, aonde costumavam levar seus animais para pastar e beber água – como fazem agora de novo. Os árabes alegaram que realizavam treinamentos ali e havia risco de atingi-los.

Em Dargai e nos barracos de argila que circundam a montanha, os moradores se acostumaram com os estrondos dos disparos feitos durante os treinamentos. Até que, numa noite, chegaram os aviões de guerra americanos, cujos sobrevôos e mísseis chacoalhavam as casas. Por essa época, as forças especiais americanas montaram acampamento em Dargai, cujos moradores tiveram então a chance de ver pessoas negras pela primeira vez.

Os moradores de Dargai, um povoado de 200 habitantes, não gostam de falar disso – dizem ter “medo de ir para Guantánamo”, onde os americanos mantêm presos membros da al-Qaeda -, mas trabalharam intensamente para os árabes, como entreposto de abastecimento e transporte. “A Al-Qaeda chegou aqui e disse que ia impor as leis islâmicas”, lembra o líder da comunidade, Baghram Khan, de 99 anos. “Ficamos felizes com isso. Eles eram muçulmanos.”

Mas quem tem a lembrança mais vívida daqueles dias é o policial Khaista Gul, de 27 anos. Na época integrante do grupo mujaheddin comandado por Haji Zaman, que se juntou à Aliança do Norte e aos americanos para expulsar a Al-Qaeda e derrubar os taleban, Gul recorda que estava com 3 mil combatentes afegãos em Dargai quando 40 soldados chegaram e jogaram as armas no chão: “Não vamos mais lutar contra os árabes.”

Os soldados contaram que tinham sido presos pela Al-Qaeda em Tora Bora, e que os terroristas os libertaram sob a condição de jurar que não os combateriam mais: “Vocês são muçulmanos”, disseram eles. “Por que vêm lutar com árabes? Por que não mandam os americanos virem lutar?”

 

Haji Zaman foi incumbido de negociar um cessar-fogo com a Al-Qaeda. Contam em Jalalabad que Bin Laden lhe teria oferecido patrimônio na Arábia Saudita e dinheiro em conta na Suíça no valor de US$ 50 milhões. Zaman teria aceitado, dizendo aos americanos que os terroristas iam se entregar, e pediam uma trégua de 18 horas. Foi o tempo suficiente para Bin Laden e seus companheiros fugirem. Zaman também nunca mais foi visto. 

 

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