Diretor de escola vê conspiração contra o Islã

AKORA KHATTAK, Paquistão — A voz do maulana Sami-ul-Haq ecoa na varanda da madrassa, ou escola religiosa, que ele dirige.


“Há duas religiões que querem ficar sós no mundo: o Cristianismo e o Judaísmo. Não querem paz. Querem eliminar o Islã”, diz o diretor da Madrassa Darul Uloom Haqqania, a mais proeminente do Paquistão, da qual saíram líderes do Taleban (estudantes, no idioma pashto) para conquistar o Afeganistão, na década passada. “É por isso que George W. Bush lidera uma coalizão. É uma conspiração cristã-judaica contra o islamismo.”

De acordo com o maulana (título dado aos teólogos), um dos mais importantes líderes religiosos do país, ex-senador pela Província da Fronteira do Noroeste, que faz divisa com o Afeganistão, “Bush sabe muito bem” que não foi Osama bin Laden quem perpetrou os ataques do dia 11, “mas não pode fazer nada, porque é uma gente muito poderosa nos Estados Unidos”. Indagado pelo Estado se ele se referia aos judeus, principal alvo das suspeitas conspiratórias no mundo muçulmano, o líder espiritual respondeu: “É lógico que sim.” À pergunta sobre queb provas tem contra os judeus, já que ele exige provas contra Bin Laden, Ul-Haq disse que “as evidências sobre os movimentos dos judeus vêm de todo o mundo, mas os americanos querem atacar países pobres, como os muçulmanos.”

À ponderação de que sua acusação seria considerada altamente ofensiva em muitas partes do mundo, ele reagiu dizendo que, “desde 1996, os EUA vêm fazendo propaganda contra Osama, sem apresentar nenhuma evidência, e isso também é ofensivo para paquistaneses e afegãos”.

 

Os EUA acusam o grupo Al-Qaeda (“A Base”), liderado por Bin Laden, de envolvimento nos atentados à bomba contra as embaixadas americanas da Tanzânia e do Quênia, em agosto de 1998, e no ataque ao navio USS Cole, em outubro, na costa do Iêmen, além dos ocorridos em Nova York e Washington.

A Madrassa Darul Uloom Haqqania, que tem atualmente 3 mil estudantes, e já formou 56 mil, ao longo de seus 54 anos de existência, fica a 45 quilômetros da fronteira com o Afeganistão. Nela se formaram o vice-presidente do regime taleban, Molvi Kabir Haqami, e o presidente da Corte Suprema, Noor Mohammed Saqib. A província, pela qual se espalha boa parte das 35 mil madrassas do Paquistão, é de maioria patan, grupo étnico predominante no Afeganistão, e abriga também muitos imigrantes afegãos.

Nessa província, que, por sua geografia, deverá servir como uma das bases de operação dos EUA, o fervor fundamentalista atinge o ponto de ebulição — graças a pregações como a do xeque Sami-ul-Haq. “Todos os chamados ‘grupos extremistas’ do Paquistão e do Afeganistão condenaram o ataque aos EUA, mas os americanos nunca condenaram o massacre de caxemires pela Índia ou de palestinos por Israel. Pelo contrário: estão apoiando, elogiando, protegendo. Isso é que é terrorismo”, argumenta Ul-Haq, cujo pai, Sheikh ul-Hadith, foi fundador da madrassa e discípulo de Sahib Turangzai, veterano da guerra contra o domínio britânico. Seus filhos lecionam nos cursos de nove anos, que incluem a interpretação literal do Alcorão e mais as disciplinas normais de qualquer escola.

 

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