Karzai apóia-se nos ‘senhores da guerra’ em eventual segundo mandato

Com menos apoio do Ocidente, presidente volta-se aos chefes de milícias dos quais se tinha afastado por pressão de americanos e europeus

 

CABUL – Se as pesquisas estiverem certas, o presidente Hamid Karzai deve reeleger-se por mais cinco anos, ainda que no segundo turno, dentro de um mês e meio. Mas seu segundo mandato não será a continuação do primeiro, num aspecto fundamental: sua base de poder. A eleição de ontem culminou uma guinada de Karzai, com a sua reaproximação de ex-comandantes de milícias – os chamados “senhores da guerra”.

Até a invasão do Afeganistão pela União Soviética, em 1979, o poder local estava nas mãos dos líderes tribais. Pela tradição, as decisões importantes se tomavam reunindo esses líderes na chamada loya jirga – literalmente, “grande assembléia”. A invasão soviética deslocou o poder local desses líderes para os comandantes “mujaheddin”, ou “guerreiros da liberdade”, que resistiriam nos dez anos seguintes à ocupação.Depois de vitoriosos, armados até os dentes com ajuda dos Estados Unidos, da Arábia Saudita e do Paquistão, eles passaram a disputar poder entre si.

Criados pelo Paquistão para reunificar o Afeganistão sob influência paquistanesa, os taleban começaram a conquistar o país, pelo sul, em 1994, chegando a Cabul dois anos depois. Os mujaheddin passaram então a lutar contra os taleban, concentrando-se no norte, sob o comando do general tajique Ahmed Shah Massud. Nesse ponto, um ex-militar e chefe de milícia que tinha estado do lado soviético, o general uzbeque Abdul Rashid Dostum, juntou-se aos mujaheddin. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, com apoio americano, eles derrubaram o Taleban.

No calor de sua participação na guerra contra os taleban, os mujaheddin tiveram presença de destaque na loya jirga que ungiu Hamid Karzai chefe do governo interino, e assumiram postos importantes nele. Mas seu passado de crimes de guerra logo começou a incomodar os governos americanos e europeus que patrocinavam o novo regime. Pressionado, Karzai foi-se afastando da maioria deles, um a um.

O último foi Dostum, denunciado no ano passado pelo procurador-geral – com apoio velado de Karzai – de manter um desafeto político em cativeiro. Diante da iminência de sua prisão, Dostum, ainda no cargo de chefe de gabinete do comandante do Estado-Maior, partiu para o exílio na Turquia, país que procura exercer influência na Ásia Central e do Sul por meio das etnias túrquicas, como é o caso dos uzbeques.

No decorrer do ano passado, no entanto, Karzai foi-se sentindo abandonado pelo Ocidente, onde ganharam corpo as críticas à corrupção e ineficiência no uso dos US$ 30 bilhões doados pela comunidade internacional. O presidente George W. Bush, que tinha uma aliança quase incondicional com Karzai, foi substituído por Barack Obama, que mantém sérias reservas ao desempenho do líder afegão.

O definhamento do apoio de Karzai no exterior coincidiu com o recrudescimento dos ataques do Taleban. Mais recentemente, o ex-chanceler Abdullah Abdullah passou a ameaçar Karzai num eventual segundo turno da eleição presidencial. A sensação de fragilidade levou o presidente a reaproximar-se dos “senhores da guerra”.

Há diferentes visões sobre o tema no Afeganistão. O economista Haroun Mir, que lutou com Massud e hoje dirige o Centro de Pesquisa e Estudos de Políticas do Afeganistão, acha que a comunidade internacional cometeu um “grande erro” ao lançar os chefes de milícias no ostracismo. “O país não tinha ainda um Exército e uma polícia fortes. O Taleban se reagrupou e ocupou esse vazio.” Segundo Mir, os insurgentes precisaram só de cinco ou seis combatentes para ocupar vilarejos sem encontrar resistência alguma, na ausência total de autoridades.

O desarmamento das milícias, financiado pelo governo japonês, foi em grande parte uma encenação, recorda, entretanto, o cientista político francês Lorenzo Delesgues, no Afeganistão desde 2002. “Alguns entregaram só suas armas velhas e ficaram com as boas”, diz ele. “Outros chegaram a comprar armas no Paquistão para receber a indenização pelo ‘desarmamento’, com lucro.”

Para Wadir Safi, professor de ciência política da Universidade de Cabul, os “senhores da guerra” continuam armados e exercendo poder local por meio da força e do clientelismo. São parte da explicação do fracasso do Afeganistão em criar um Estado nacional forte.

Essa tese é reforçada pelo deputado independente Mir Ahmad Joyenda, do Movimento para a Democracia e o Progresso, que observa que o Exército afegão está dividido segundo linhas étnicas. Não há um alistamento militar obrigatório, e o recrutamento é feito de acordo com a lealdade aos comandantes de milícias. O comando do Exército reflete essa divisão, diz Joyenda: o chefe do Estado-Maior, general Bismillah Khan Mohammadi, é tajique; o segundo no comando, general Baz Mohammed Jawhari, é da minoria hazara; em seguida, vem o general Humayun Fawzi, da etnia uzbeque, ligado a Dostum.

Se no primeiro mandato Karzai simbolizou a conciliação e a união nacional, num eventual segundo governo ele pode vir a representar o oposto disso.


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