Observadores aprovam eleição e impasse é superado

Clima ‘razoavelmente democrático’ marcou votação, apesar do boicote de candidatos 

 

CABUL – As incertezas criadas pelo boicote de todos os 15 adversários do presidente interino Hamid Karzai à eleição de sábado pareceram em grande parte superadas ontem, depois que os organismos que monitoraram a votação aprovaram formalmente o processo. Havia informações ontem em Cabul de negociações em curso para alguns dos candidatos voltarem atrás e reconhecerem a legitimidade do pleito – e, com ela, a eleição praticamente certa de Karzai já no primeiro turno.

A Equipe de Apoio Eleitoral da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa distribuiu ontem em Cabul um comunicado rejeitando a exigência dos candidatos da oposição de anular o pleito. O comunicado apóia a decisão de sábado do Comitê Conjunto de Gestão Eleitoral (JEMB, na sigla em inglês), composto por representantes da ONU e do governo afegão, de levar adiante a votação.

 

“Com base nos relatos de nossas próprias equipes, assim como a informação dada por especialistas em eleições da União Européia, monitores afegãos e delegações de vários países, concordamos com a visão do JEMB de que o pedido dos candidatos de anular a eleição é injustificado”, afirma o comunicado. “Essa ação colocaria em questão o desejo expresso de milhões de cidadãos afegãos que saíram para votar, registraram os eleitores e trabalharam nas seções eleitorais, apesar do grande risco pessoal.”

Funcionários de algumas seções eleitorais confundiram a tinta que deveria ser usada pelos eleitores para assinalar o candidato escolhido na cédula eleitoral com a tinta indelével destinada a marcar o polegar esquerdo. Um número indeterminado de eleitores lavou o dedo e votou de novo. As seções não tinham listas de eleitores. Eles podiam votar onde quisessem. Além disso, segundo os oposicionistas, a votação foi encerrada mais cedo em redutos eleitorais de seus candidatos. O porta-voz da ONU em Cabul, o português Manoel de Almeida e Silva, informou que as queixas dos candidatos estão sendo estudadas pelo Comitê Eleitoral.

Apesar dos problemas, a Fundação Eleições Livres e Justas do Afeganistão, que conta com mais de 2.300 observadores em 100 distritos eleitorais de todo o país, também aprovou o processo. “Embora as razões para a aplicação incorreta da tinta indelével precisem ser esclarecidas, um ambiente razoavelmente democrático foi em geral observado na maioria dos locais de votação”, declarou ontem a fundação. “Isso inclui a presença de observadores locais e internacionais e fiscais partidários. A segurança, de maneira geral, foi bem melhor que o esperado pelos pessimistas.”

As urnas estão sendo levadas das 22 mil seções eleitorais para os oito centros de votação montados no país – em aviões, helicópteros, caminhões e até burros de carga. A contagem dos votos deve começar somente dentro de três ou quatro dias, estima o porta-voz da ONU. O resultado final sairá dentro de duas ou três semanas. Segundo o Comitê Eleitoral, 483 mil refugiados afegãos votaram no Paquistão, o que representa 79% dos eleitores inscritos. Outros 260 mil votaram no Irã.

Ao longo das últimas semanas, as preocupações se centravam nas tentativas do grupo terrorista Al-Qaeda e do movimento Taleban – derrubado no fim de 2001 por uma coalizão liderada pelos EUA – de sabotar a eleição. Houve no sábado uma série de incidentes violentos em todo o país, com impacto limitado a algumas seções eleitorais, segundo o Ministério da Defesa. Três policiais e um miliciano das forças sob comando do Ministério da Defesa foram mortos em confronto com taleban. “Nas últimas 12 horas, os ataques dos taleban foram descoordenados e ineficazes graças ao patrulhamento agressivo da polícia, do Exército e das forças internacionais”, disse ontem à noite o porta-voz do Ministério do Interior, Lutfullah Mashal.

A maior ameaça ao processo eleitoral partiu dos candidatos da oposição, que se uniram no sábado para denunciar a votação. A atitude não foi de todo surpreendente: vários analistas e mesmo pessoas comuns previam que os candidatos anunciassem apoio a Karzai ou rejeitassem o pleito. Dois candidatos escolheram a primeira opção; os outros 15, a segunda. Com isso, Karzai concorreu sozinho.

“Esses candidatos já tinham decidido fazer isso bem antes”, diz Maula Tanival, membro da Academia de Ciências do Afeganistão. “Não foi correto eles saírem no dia da votação. Mas isso não terá conseqüências. A grande maioria dos afegãos apóia Karzai.” A Academia, que funcionou precariamente durante o regime taleban (1996-2001), com muitos de seus membros sendo expulsos ou indo embora voluntariamente, está agora se revigorando, diz Tanival, com 180 membros, dos quais 4 mulheres – banidas desse tipo de atividades pelos taleban.

“Claro que não haverá problema, porque os Estados Unidos estão com Karzai”, diz Farhad Olomi, de 24 anos, dono de uma loja de informática. “É só os americanos lhes darem dinheiro que eles ficarão quietos.” Cético em relação aos políticos, Olomi não foi votar no sábado. “Sabe o que as pessoas diziam? Que as urnas já chegariam às seções eleitorais cheias de votos para Karzai. Então, para que votar?”

Karzai foi escolhido presidente do governo interino em dezembro de 2001, numa loya jirga (assembléia de líderes) emergencial, depois que os Estados Unidos derrubaram o governo taleban.

“Tudo está nas mãos dos americanos”, concorda o antiquário Per Mohammed Qudosi. “Quem eles apoiarem não terá problemas para governar. As potências estrangeiras têm o poder neste país.” Tanival, Olomi e Qudosi estão longe de serem pró-taleban. Eles se exilaram no Paquistão durante o regime fundamentalista, e voltaram para o Afeganistão depois de sua queda, assim como outros 3,7 milhões de afegãos.

“A maioria das pessoas votou em Karzai e os candidatos procuraram uma desculpa por vergonha de não receber votos”, opina Abdel Rahman, um vendedor de produtos eletrônicos de 24 anos. “Não se pode tapar o sol com dois dedos”, diz ele, citando um provérbio popular.

“Definitivamente, o boicote dos candidatos não compromete a legitimidade da eleição e a autoridade de Karzai em seu novo governo”, acredita Asila Jamal, diretora em Cabul do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres. “Quinze candidatos não representam dez milhões de eleitores afegãos.”

Asila, que trabalhou para incentivar as mulheres a irem votar, na primeira eleição presidencial com voto direto e universal da história do Afeganistão, declarou-se contente com a participação feminina. Ela estima que metade dos afegãos que foram às urnas no sábado eram mulheres. 


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