Necessidade de reforma política é o maior consenso

Esquema atual dificulta obtenção de maioria estável no Parlamento, o que prejudica a governabilidade da Itália

ROMA – Quando se pergunta ao economista-chefe da Confederação das Indústrias da Itália quais os problemas mais graves da economia, ele se põe a falar de política. “O problema maior é a falta de reformas, que por sua vez se deve à ingovernabilidade”, diz Luca Paolazzi. “Para recuperar a governabilidade, é preciso fazer uma reforma política, que garanta uma maioria estável no Parlamento.”

A necessidade da reforma política é o maior – senão o único – consenso da Itália, cuja ingovernabilidade é ilustrada por um dado impressionante: os italianos elegerão, entre hoje e amanhã, o seu 62º governo desde a 2ª Guerra Mundial. Isso dá uma média de um governo por ano. O último, de Romano Prodi, acabou depois de 20 meses, quando uma legenda que obtivera 1,4% dos votos e três cadeiras no Senado retirou-se da coalizão de nove partidos.

O sistema tem um desenho frankensteiniano, que privilegia a formação de grandes coalizões, mas ao mesmo tempo as solapa, dando peso desmedido aos pequenos partidos. Na Câmara, pelo menos, a formação de maioria é garantida por um “prêmio” que assegura um mínimo de 340 cadeiras à coalizão vencedora, do total de 630. Já no Senado, a base de cálculo é regional (são 20 regiões). Por isso ele é o foco da instabilidade – e da imprevisibilidade.

Antonio Noto, diretor da IPR Marketing, que realiza as pesquisas eleitorais para o jornal La Repubblica, conta que sua equipe fez um exercício com a variação de um ponto porcentual dos votos para o Senado – que está dentro da margem de erro das sondagens. Constatou que esse ponto pode representar, para a coalizão de Silvio Berlusconi, a diferença entre ficar empatado com Walter Veltroni no Senado ou ter sobre ele uma folgada maioria de 15 cadeiras. A última pesquisa da IPR, feita há duas semanas, quando se encerrou o prazo legal para as sondagens, conferiu vantagem de cinco pontos para O Povo da Liberdade, de Berlusconi.

Segundo Noto, a abstenção deverá manter-se dentro da margem histórica de 20% a 25%. Mas as pesquisas indicaram que até um terço dos eleitores italianos estava indeciso. As eleições se realizam sob um clima de desilusão, depois de cinco anos de governo de Berlusconi e dois de Prodi. Ambos primeiros-ministros pela segunda vez, eles não conseguiram arrancar a Itália da estagnação econômica. O eleitor se sente impotente diante desse sistema eleitoral tão complexo. O voto é em lista, tornando ainda mais indireta a relação entre a escolha do eleitor e resultado final.

À pergunta sobre se essa desilusão favorece a algum dos candidatos, tanto Noto quanto Renato Mannheimer, do Instituto de Estudos da Opinião Pública, respondem que não. “A desilusão geralmente não é de esquerda nem de direita, mas transversal”, define Noto.

Ao longo das últimas semanas se especulou sobre a composição de uma “grande coalizão” entre a centro-direita e a centro-esquerda. O analista político Lucio Caracciolo considera isso pouco provável. Ele acha mais plausível, em caso da falta de uma maioria convincente no Parlamento, a formação de um “governo tecnocrata”, chefiado pelo presidente do Banco Central, Mario Draghi, conforme ventilado até por Berlusconi. “Em qualquer caso, essa eleição será transitória”, prevê Caracciolo. “Não teremos um governo de cinco anos.”

Publicado em O Estadão. Copyright: Grupo Estado. Todos os direitos reservados.

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