Belfast, no coração da guerra, vive inédito clima de trégua

BELFAST — As torres da Cátedral de São Pedro dominam a vista de Belfast Ocidental, lado católico da cidade.

 

Em seu escritório na principal igreja católica da Irlanda do Norte, monsenhor Tener reflete sobre sua identidade. Nasci e fui criado em Belfast Ocidental, e não consigo me ver de outra forma a não ser como irlandês, emociona-se o padre, que só foi conhecer protestantes na universidade. “Mas não tenho hino, bandeira, idioma – nem mesmo um time de futebol!”

Monsenhor Toner, hoje com 58 anos, lembra-se do tempo em que todos eram obrigados a ouvir de pé o hino da Grã-Bretanha antes das sessões de cinema. “Fizeram a gente engolir muita coisa.” Não faz muito tempo, as melhores escolas, empregos e bairros eram dos protestantes. Hoje, a Irlanda do Norte tem a legislação mais rigorosa do mundo para coibir a discriminaçao. Mas a província continua profundamente dividida entre as duas comunidades religiosas.

Como duas alas cristãs podem servir de pretexto para a segregação, o ódio, a luta armada e o terror? Não se trata de firulas teológicas, da interpretação do Sacramento ou do uso de imagens de santos, nem de hinos e ritos diferentes. “O invasor britânico coincidiu de ser protestante, enquanto o povo que morava aqui originalmente era católico”, explica o monsenhor. “Temos todos a mesma cor de pele, e a religião funciona como um rótulo para distinguir o privilegiado do discriminado.”

Monsenhor Toner está muito longe de ser um radical. “Perdão” é a palavra-chave de seus sermões e de seus conselhos no confessionário. “Os sacerdotes dos dois lados sabem o quanto as pessoas estão dispostas a perdoar.” Sobretudo as mulheres cujos maridos e filhos morreram no conflito que nesses 25 anos matou mais de 3 mil pesseas. “Quanto mais durar a paz, mais as pessoas vão se acostumar com ela, e não vão querer voltar atrás.”

Desde o dia 1° de setembro, quando começou a vigorar o cessar-fogo do IRA, Belfast já mudou muito. É verdade que as delegacias de polícia ainda são minibases militares, o tráfego entre o lado católico e protestante continua controlado pelo Exército, e se vêem comboios de veículos blindados nas ruas, com soldados nas escotilhas apontando fuzis-metralhadoras para as calçadas.

Mas os clientes já nao são mais revistados na entrada das lojas, não hä mais controle do identidade nas ruas, os soldados que aos pares patrulham a cidade a pé trocaram a metralhadora pela pistola automática, e o capacete pela boina. Os helicópteros que controlam todos os movimentos da cidade 24 horas por dia voam agora mais alto e são em menos número, e se ouvem menos sirenes. Sem contar que o risco de morrer num atentado a bomba ou a tiros se tornou quase nulo, para os dois lados da comunidade, já que pouco depois do início do cessar-fogo do IRA, os paramilitares protestantes aderiram.

Todos enfatizam que o clima é muito mais relaxado. Mas isso não muda a seguinte realidade: metade da Doculacao Quer uma coisa. e a outra metade quer o contrário.

A protestante Pauline Barrow, de 29 anos, pertence à geração do conflito, e esta entusiasmada com a paz, que nunca tinha experimentado. Sua mae, Evelyn Davidson, diz que Belfast agora voltou ao que era antes de 1969. Pauline e o marido estão desempregados, e têm três filhos. Mesmo assim, eles têm casa, comida e uma vida decente, graças ao seguro-desemprego do Reino Unido, que ainda mantém um dos sistemas de assistência social mais eficazes do mundo, embora falido e decadente.

Há um mês e meio, pela primeira vez Pauline visitou Dublin, aproveitando o clima de distensão e os esforços das duas Igrejas de integrar as comunidades. Diz que foi muito bem-recebida na Irlanda, onde os católicos são maioria absoluta. Mas constatou que como desempregada, se fosse cidadã irlandesa, estaria na miséria.

Junto com Grécia e Portugal, a Irlanda está entre os paises pobres da Uniao Européia, que recebem ajuda dos outros membros. A GraBretanha é um dos mais ricos e poderosos. “Não queremos ser irlandesas, queremos continuar britànicas”, diz Pauline. Sua irmã, Leigh Mullan, trabalha num grande escritório de contabilidade, onde tem colegas católicos. “Não tenho nenhum problema com eles”, diz Leigh. “Mas o que seria de mim se eu não tivesse a sorte de ter um bom emprego?”

Em Dublin, Pauline se assustou de saber que os irlandeses costumam dizer que o vermelho da bandeira da Grã-Bretanha e mancha de sangue. E em lodos de futebol,gostam de queimar a bandeira britânica.

Os protestantes, que são maioria da população da Irlanda do Norte (60%), estão em geral confusos. Eles sabem que para a Gra-Bretanha a questão é como se livrar deles. A economia da Irlanda do Norte, baseada na indústria naval e têxteis, que nunca foi muito atraente, está em decadência. O governo britânico gasta por ano cerca de US$ 1 bilhão para manter o aparato de segurança na provincia e as despesas sociais relacionadas ao conflito.

A alternativa, ou seja, a unificação da Irlanda, não parece encorajadora. “É fácil para a Irlanda tratar bem os protestantes. Eles são uma minoria insignificante”, diz Norma Dodds. “Mas, se houver a unificação, a relação vai mudar completamente.” Norma e o marido, o reverendo Barry Dodds, trabalham pela integração das duas comunidades num ponto sensível de Belfast — o encontro entre a área católica e a protestante. Duas casas germinadas, uma de um lado e outra do outro, são usadas para reunir as famílias, que de outra forma nunca fariam contato.

Um muro que às vezes chega a ter 6 metros, mais alto que o de Berlim, separa os quarteirões nas confluências entre os dois lados. Paradoxalmente chamada de Linha da Paz, essa barreira é composta de 14 seções descontínuas, algumas de concreto, outras de aço e, numa versão mais moderna, de tijolo aparente, todo colorido e decorado, mas igualmente sólido e intransponível. Foram as comunidades dos dois lados que nos últimos 25 anos pediram às autoridades que erguessem o muro, para se proteger dos ataques, confrontos e vandalismo.

 

Até semanas antes do cessar-fogo do IRA, novos segmentos eram erguidos aqui e ali, sempre a pedido dos moradores. “É prematuro pensar em começar a demolir”, diz o reverendo Dodds. Até porque os paramilitares dos dois lados ainda estão muito ativos. No mês passado, comandos rebeldes do IRA assaltaram e mataram um carteiro. Mas o que caracteriza a nova fase são espancamentos punitivos, contra colaboracionistas e outros desafetos. Continuam também os atos de vandalismo, os assaltos e extorsões.

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