Escândalo da Malásia abala conservadores

Londres tenta justificar negócios vantajosos, porém suspeitos, com ‘tigres asiáticos’

 

LONDRES – Nenhum dia se passa sem que haja depoimento no Parlamento britânico e novos desdobramentos no escândalo da ajuda à Malásia em troca de venda de armas e de contratos com construtoras que financiam as campanhas do Partido Conservador, no poder. Além dos ingredientes de todo escândalo – má fé, mentiras e corrupção –, este caso tem implicações muito mais abrangentes, não só politicas e éticas, mas também na economia e nas relações internacionais.

Há um mês, o jornal The Sunday Times publicou uma matéria dizendo que a empreiteira britânica Wimpey admitiu ter oferecido propina para um intermediário do primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, em troca de um contrato de construção de uma fábrica de alumínio. A notícia desencadeou uma devassa, pela própria imprensa britânica, nos contratos firmados entre Grã-Bretanha e Malásia.

As investigações dos jornalistas, e mais tarde de uma comissão parlamentar de inquérito, constataram um vínculo entre a venda em 1988 de US$ 1,5 bilhão em armas, incluindo navios de guerra, 28 aviões Hawk, radares Marconi e mísseis antiaéreos – e um empréstimo de US$ 350 milhões (com juros anuais subsidiados de apenas 0,8%) para a construção de uma represa hidrelétrica no nordeste da Malásia, ainda em obras. Na época, chefiava o governo a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, que poderá ser convocada a depor no Parlamento.

Mas estão envolvidos também ministros do atual gabinete, e a imprensa apurou ainda que o contrato incluiu grandes construtoras britânicas, que contribuíram pesadamente para os conservadores nas últimas eleições. A comissão parlamentar promete examinar todo o programa de assistência dos governos conservadores, no poder desde maio de 1979. O Plano de Ajuda e Comércio, criado em 1978, ainda sob os trabalhistas, estabelece claramente a ligação entre as duas esferas, uma espécie de “uma mão lava a outra” em escala internacional.

Em seu depoimento aos parlamentares, o chanceler Douglas Hurd deu uma aula de realpolitik, afirmando que na vida real, comércio, ajuda externa e defesa não podem ser tratados isoladamente. O ex-ministro-adjunto da Defesa e do Comércio Alan Clark, testemunha-chave também em outro escândalo, da venda ilegal de armas para o Iraque, foi mais cristalino ainda. “Era de fato um empréstimo suave para apoiar a construção de uma represa da qual companhias britânicas de engenharia civil se beneficiavam”, declarou Clark. “Foi um negócio fantástico. Estávamos de fora do mercado da Malásia há quase uma década. Se nenhuma lei foi violada, por que todo esse alarde?” Uma lei de 1966, no entanto, proíbe o vínculo entre venda de armas e assistência externa.

A imprensa ouviu executivos britânicos na Malásia, que confirmaram que os contratos se conseguem por meio de propinas para intermediários. Um representante de uma empresa de informática citou um caso em que, para firmar um contrato de US$ 68 milhões, um funcionário local embolsou US$ 150 mil.

A Malásia reagiu com um embargo a contratos com empresas britânicas. “Os dados foram lançados”, dramatizou o primeiro-ministro D.S. Mahatir Bin Mohamad numa carta publicada na quinta-feira pelo jornal Financial Times. “Não haverá mais contratos em troca da liberdade da imprensa britânica de contar mentiras.” O primeiro-ministro não entende ou não quer entender que o governo britânico não tem controle sobre a imprensa. Afinal, a imprensa da Malásia, controlada pelo governo, ignora solenemente o escândalo, enquanto o assunto é estardalhaço na Grã-Bretanha.

As sanções abrangem não só as empresas estatais, como as 60 privatizadas, o que inclui a companhia aérea, a de fornecimento de energia e a telefônica. Entre os contratos mais importantes está a construção de um aeroporto nos arredores de Kuala Lumpur, que totaliza US$ 3,5 bilhões. Em setembro, o primeiro-ministro John Major encabeçou uma comitiva de políticos e empresários britânicos na capital da Malásia, para obter os contratos, em consórcio com companhias japonesas. Mohamad tem pavio curto. Depois de chegar ao poder em 1981, ele lançou a campanha “Compre produtos britânicos em último caso”, em represália pela diminuição das bolsas do governo britânico para estudantes estrangeiros.

Mohamad se faz ouvir por uma razão simples: a Malásia é um dos mais promissores “tigres asiáticos”; sua economia está em constante boom nos últimos anos, graças ao pragmatismo e estabilidade política, e às oportunidades oferecidas pela própria região. O pais é o maior mercado para companhias britânicas no Pacífico, depois de Hong Kong.

Hoje a Malásia pode se orgulhar de exportar mais para a sua ex-metrópole colonial, a Grã-Bretanha (de que se tornou independente em 1957), do que de importar dela. Por exemplo, circulam pelas ruas da Grã-retanha 50 mil automóveis Proton, fabricados na Malásia.

E é aí que a política de ajuda externa da Grã-Bretanha se torna intrigante, só podendo se explicar por interesses que não o mero altruísmo. A Indonésia é outro candidato a “tigre asiático” que tem sido consistentemente assistido por Londres, ao mesmo tempo em que registra um dos piores desempenhos do mundo em direitos humanos.

 

Além disso, no caso da represa de Pergau, o empréstimo foi levado adiante contra a vontade de especialistas do meio ambiente que a consideraram um desastre ecológico, e de técnicos do Banco Mundial, para quem ela era inviável economicamente. E se a ajuda vem acompanhada de armas então, torna-se ainda mais indigesta para a opinião pública britânica.

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