Isolados, IRA e ETA vivem hora da verdade

Extremistas irlandeses e bascos assemelham-se, tentando nadar contra a corrente européia

 

Nas duas últimas semanas, os dois grandes remanescentes do terrorismo europeu, o Exército Republicano Irlandês (IRA) e a Pátria Basca e Liberdade (ETA), fecharam um ciclo. Cada um reagindo de sua maneira peculiar, ambos provaram o gosto – amargo para eles – das mudanças que se vão fermentando na percepção política européia.

O IRA anunciou mais um cessar-fogo, no entanto inédito pela perspectiva real de seu braço político, o Sinn Fein, participar de uma solução negociada viável para o conflito da Irlanda do Norte. A ETA, neste momento histórico, é a imagem do IRA no espelho. Seu último ato empurrou seu braço político, Herri Batasuna, à marginalização do processo político espanhol. Essas situações inversas orientam uma só constatação: depois da exaustão do terrorismo político-ideológico, o terrorismo separatista vive a hora da verdade.

Num continente em movimento vertiginoso de integração econômica e política o IRA e a ETA já nadam há um bom tempo contra a corrente. Ostensivamente, o terrorismo sempre foi considerado abjeto. Numa esfera mais íntima no entanto, ele se beneficiou de simpatias mais ou menos confessáveis, nutridas em ressentimentos históricos e interesses políticos.

O Sinn Fein e o Herri Batasuna coincidiram até agora em receber sagrados 10% dos votos, em eleições locais e distritais. Mas sua importância política tem decorrido do potencial destrutivo dos grupos armados que representam. Um processo de negociações sobre Irlanda do Norte sem o Sinn Fein sempre foi considerado ocioso. Quer os ingleses queiram, quer não, o IRA é o principal motivo pelo qual a insatisfação de uma parte da minoria católica com o dominio britânico é um tema político relevante.

A decisão política de “entregar” a Irlanda do Norte, ou seja, de criar um estatuto político para os “condados do norte” que contemple os anseios dos 40% de católicos e dos 60% de protestantes, já foi tomada há muito tempo por Londres. O exprimeiro-ministro John Major avançou multo, no plano conceitual, com a Declaração Anglo-Irlandesa, parâmetro de uma soluçãode compromisso negociada por todas as partes envolvidas. Major, entretanto, tinha minoria precária demais no Parlamento e de pendia do voto dos partidos unio nistas, que representam os protestantes norte-irlandeses desejosos de permanecer plenos cidadãos britânicos.

Tony Blair, com sua folgada maioria trabalhista, pôde dar um passo que Major adoraria ter dado, para entrar para a História: incluir o Sinn Fein nas negociações antes de o IRA começar a entregar seu arsenal, bastando o cessar-fogo. Pelo que o arsenal significa, como capital político, entregar armas antes de negociar, como propunha Major, equivalia a uma rendição para o IRA.

A reação atual dos unionistas,contra a inclusão do Sinn Fein sob essas condições, é importante como posição tática inicial de negociaçao, mas não compromete o processo de paz em sua dimensão estratégica. Primeiro, porque a iniciativa no conflito sempre esteve com o IRA. Os paramilitares protestantes são historicamente reativos ao terrorismo católico. No último cessar-fogo do IRA, em 1994, os paramilitares também declararam o seu pouco tempo depois. Além disso, é perfeitamente viável acomodar os unionistas com concessões pontuais, até porque o governo central não é mais seu refém no Parlamento. A exclusão é mais um ônus do que uma arma dos unionistas.

O paralelismo entre a Irlanda do Norte e o País Basco, como toda comparação, é imperfeito. Os nacionalistas católicos da Irlanda do Norte gostariam de cortar laços com Londres para, eventualmente, unir-se a Dublin; os nacionalistas do País Basco gostariam de tornar esse nome realidade política. Há diferenças e seria ridículo forçar a analogia. Mas há semelhanças também, que definem um momento histórico para o terrorismo e o separatismo na Europa Ocidental.

Como na Grã-Bretanha, mudanças na política nacional da Espanha redefiniram a situação dos nacionalistas bascos. Nas eleições gerais do ano passado, o Partido Popular, do primeiro-ministro José Maria Aznar, não obteve maioria absoluta. Uma coalizão com o outro grande partido, o PSOE, do ex-primeiro-ministro socialista Felipe González, estava fora de cogitação, devido às incompatibilidades das plataformas econômicas. Restaram os deputados da Convergência e União, catalã, e do Partido Nacional Basco, para completar a maioria absoluta.

O preço, no entanto, foi alto dada a hostilidade dos autonomistas em face do PP, defensor de um goverão central forte. Seguiu-se um elenco de concessões na área política e fiscal que beiram o esdrúxulo. Aznar comprometeu-se a consultar os governos regionais antes de definir posições no âmbito União Européia, sobre questões que afetem as regiões. O repasse de impostos foi duplicado. Impostos pagos por empresários de origem basca instalados fora do País Basco, revertem para a região. E assim por diante. Ironicamente, o caráter nacionalista do novo governo o empurrou para uma plataforma radicalmente autonomista que favoreceu os regionalistas moderados e aumentou o isolamento da ETA e de seu braço político, Herri Batasuna.

Escalada do terror – Foi esse isolamento que conduziu a ETA à escalada na violência e na selvageria, que culminou no assassinato do vereador Miguel Angel Blanco, do PP, ignorando os apelos de todo o país para que o poupasse, enquanto estava em cativeiro. Há um ano e meio, o IRA viveu o mesmo acirramento. As exigências de Major para incluir o Sion Fein nas negociações levaram o IRA a romper o cessar-fogo e a uma onda de atentados, inclusive com a detonação de uma bomba no centro comercial de Manchester, num sábado de manhã, ferindo 200 pessoas.

Hoje, a comoção nacional diante de dois atos terroristas especialmente chocantes é outro ponto em comum nos dois países. Na Irlanda do Norte, há duas semanas, a católica Bernadette Martin, de 18 anos, foi morta enquanto dormia na casa de seu namorado protestante, num bairro limítrofe das duas comunidades, em Craigavon. Os assassinos, paramilitares protestantes, entram por uma porta destrancada dos fundos da casa. O namorado dormia no quarto ao lado.

O pai de Bernadette apressou-se em implorar publicamente ao IRA para que não vingasse o assassinato, por sua vez o mais recente numa cadeia interminável de vinganças entre os dois grupos. “Se a morte dela for a última neste país, talvez tenha valido e possamos viver em paz.” Foi nesse contexto que o IRA anunciou o seu cessar-fogo, unindo a razão política ao momento psicológico.

Em meio à comoção que tomou conta da Espanha diante do assassinato do vereador Miguel Angel, o jornal El País foi o que colheu o depoimento mais contundente: “Eu me chamo Teresa Múgica e sou do Herri Batasuna”, o braço político da ETA. “Se a Ema quiser mais vítimas, moro no número 7 da Calle Iparraguirre, em Ermua.” Duas casas abaixo de onde morava o vereador morto.

Teresa Múgica, cuja irmã Marisol morreu em abril de 1991, destroçada por uma bomba enquanto preparava um atentado da ETA, personifica os sentimentos extremos entre os quais o nacionalismo basco e o terrorismo da ETA se polarizam. A filiação ao HB denota profimda rejeição ao domínio do governo central espanhol sobre o País Basco; a oferta de seu sangue, entre amarga e sarcástica, sintetiza o ódio e a repulsa que tomou conta dos espanhóis.

Em Ermua, muitas lojas estampam um cartaz com os dizeres: “Depois do ocorrido, nossas vidas mudaram. Também vamos mudar as vidas dos que apóiam os assassinos. Quem conhecer lojas que apoiem o HB, não compre absolutamente nada delas.” Ao lado dos grandes cálculos políticos, é também no microcosmo da comunidade, no coração do País Basco, que se tecem as relações determinantes nas atitudes da ETA, da mesma maneira que nas atitudes do IRA.

Na pequena Ermua, como em qualquer reduto nacionalista, os moradores sabem quem dá dinheiro espontaneamente para “los chicos con las pistolas”, ou simplesmente “the boys”, na Irlanda do Norte, quem dá sob pressão, e quem não dá de jeito nenhum, arriscando-se a ter um vidro quebrado-ou as duas pernas. Nas comunidades nacionalistas, mergulhadas num ressentimento ancestral perante o poder dominador, venha ele de Madri ou de Londres, as fronteiras da ética tendem a ser flexíveis. Há uma certa complacência diante da violência.

É por isso que este é um momento especial para a Espanha é o País Basco, em particular. Os terroristas da ETA, certamente sem querer, com a gratuidade de sua ação do fim de semana retrasado contribuíram decisivamente para que os bascos desenhassem uma linha, um limite. “Bascos, sim, terror, não, é o mote extremamente significativo das manifestações que reúnem milhões de pessoas. Com a captura e o assassinato do jovem vereador, é como se os terroristas tivessem embarcado espontaneamente numa rota autodestrutiva, que não só os isola politicamente como os marginaliza de sua própria comunidade.

Todos os outros partidos bascos decidiram cortar relações com o HB. A previsão é de que o partido perca as 25 prefeituras, de um total de 251, que detém no País Basco, sustentadas por coalizões. Também no nível nacional, enquanto o HB não condenar a violência da ETA, não participará mais de quaisquer foros de negociação. Exatamente como acontecia com o Sinn Fein, antes do cessar-fogo do IRA.

Acontece que os dois movimentos têm tido em comum o método terrorista não só como recurso político, de eficácia cada vez menor, mas como modo de vida de seus militantes. Nos dois casos, trata-se de uma geração de terroristas profissionais, que encontram no terrorismo sustento, proteção e poder dentro de sua comunidade.

Na medida em que suas ações perdem em eficácia política assumem mais o caráter de crime comum. Ao lado do tradicional racketeering, a extorsão de comerciantes e moradores, crescem as ocorrências de assaltos e furtos praticados por terroristas do IRA e de seqüestras, com cobrança de resgate, por parte dos terroristas da ETA.

O cessar-fogo do IRA entre setembro de 1994 e fevereiro de 1996 não eliminou, mas intensificou essas ações. Isso porque elas se referem à preservação social do grupo, posta em xeque uma vez que suas causas políticas estão em parte perdidos, em parte defasadas e em parte diluidas nas concessões já feitas pelos governos centrais. Se Madri dá maior autonomia ao País Basco, Londres encara seriamente a possibilidade de uma solução de compromisso anglo-irlandesa para a Irlanda do Norte.

 

De tudo isso torna-se finalmente evidente que o terrorismo separatista europeu se esvaziou. Hoje lhe resta seu impulso mais visceral: o da imposição violenta de uma vontade, seja ela idiossincrática ou política.

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