Maioria protestante no Ulster é artificial

BELFAST — A crise de identidade da Irlanda do Norte não se resolve num simples plebisito.

 

Os católicos, 40% da população, consideram (e alguns protestantes admitem) que a maioria protestante da provincia é artificial. A história remonta ao início do século. Em 1920, depois da guerra de independência da Irlanda em relação ao Reino Unido, um tratado de paz determinou que os seis condados do Norte continuariam sob domínio britânico.

Nessa época já havia uma política deliberada de migração de protestantes sobretudo para o Norte da Irlanda vindos da Inglaterra e da Escócia Com a declaração de independencia irlandesa a maioria protestante do Sul migrou para o Norte, consolidando a maioria protestante do que os britânicos chamam de a província do Ulster. O Sinn Fein liderou a guerra de independência e não aceitou o tratado de partição da Irlanda.

Seguiu-se uma guerra civil entre os grupos que apoiavam e os que rejeitavam o tratado. Os primeiros vencerarn. De grupo de liberadas nacional, o IRA se transformou numa organização clandestina, lutando pela república e sobretudo pela reunificacão da Irlanda Em 1924, o IRA se aliou ao Sinn Fein, que se tornou seu braço político.

Desde o século 17, quando o rei britânico James I iniciou a colonização maciça do Norte da Irlanda, os nativos encaram os britânicos como invasores. Os católicos eram desapropriados das melhores terras, para dar lugar a assentamentos protestantes.

A resistência à invasão britânica sob forma de sabotagens, levantes e guerras foi conduzida pelos fenians, guerreiros irlandeses que o jornalista Tim Pat Coogan, autor de um dos maiores estudos sobre o IRA, definiu como “uma mistura de cavaleiro da Távola Redonda e samurai japonês”. A Irmandade Feniana, fundada em 1858, daria origem ao IRA no início deste século. Um dos fatos mais curiosos e que dá a dimensão da escalada do conflito: os fenians encomendaram o primeiro submarino americano, o Fenian Ram, lançado ao mar em 1881.

Mas já no século 18 havia a percepção na Grã-Bretanha de que o domínio da Irlanda era insustentável. O Partido Liberal, o mais importante da época, tentou várias vezes implantar um sistema de autonomia o chamado Home Rule. Uma segunda resistência, esta pela manutenção do domínio britânico sobre a Irlanda nasceu daí. Em Londres, o Partido Conservador, hoje, aliás, no poder, mas na época minoritário, incorporou como bandeira o combate ao Home Rule e a manutenção do dominio britânico.

Na Irlanda os protestantes se mobilizaram. Em 1912, um documento jurando lealdade à coroa e prometendo lutar até a morte pela manutenção do domínio britânico sobre a Irlanda reuniu 471 mil assinaturas, algumas feitas com sangue. Figuras como George Bernard Shaw e Edward Carson, o promotor do julgamento de Oscar Wilde, emprestaram sua poderosa retórica à causa dos bravos colonos da Irlanda.

Desse movimento surguiu a Força dos Voluntários do Ulster (UVF), paramilitares protestantes que até hoje atuam na Irlanda do Norte. Mesmo desejando se livrar da Irlanda, o governo britânico temia um confronto com os chamados unionistas, pois teria enorme dificuldade de explicar uma represão Sangrenta a um mommento cujo objetivo era se manter leal ao rei. Em abril de 1914 por exemplo, os voluntários receberam um carregamento de 35 mil rifles no porto de Larne, descarregaram, distribuíram e guardaram as armas sem um único incidente com a polícia Londres se inclinava diante dos guerrilheiros protestantes.

 

Essa cumplicidade está na raiz da desconfiança dos nacionalistas católicos pelas forças de segurança britanicas, compostas de uma policia militar, a Royal Ulster Constabulary (RUC) e do próprio Exército da Grã-Bretanha Mas de 90% dos policiais na Irlanda do Norte são protestantes, apesar de recentes esforços da RUC de recrutar mais católicos. O IRA tem sido implacável com os católicos que vêem na polícia uma possivel fonte de emprego.

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