‘Patrulheiros do correto’ assaltam Inglaterra

Pertencer a uma maioria sexual, étnica, ou religiosa pode dificultar a vida das pessoas

 

LONDRES – Já há quem diga em Londres, meio de brincadeira e meio a sério, que um homem branco, heterossexual e cristão está perdido: ninguém o ajudará, pois essas características só se aplicam à maioria, sendo, portanto, “politicamente incorretas”. Pode soar exagerado, mas o fato é que a patrulha do politicamente correto, do sexualmente correto e demais “correções” está definitivamente instalada na Grã-Bretanha, onde segundo as últimas estatísticas do governo, as mulheres têm muito mais chances de conseguir emprego do que os homens.

Um dos casos mais gritantes de “defesa da correção” ocorreu há pouco mais de uma semana, quando a diretora de uma escola primária do leste de Londres, a área mais pobre da cidade, rejeitou a oferta de ingressos subsidiados para seus alunos verem Romeu e Julieta quase de graça no Royal Opera, onde uma cadeira custa em torno de US$ 75. A diretora, Jane Brown, de 36 anos, considerou o clássico de Shakespeare “agressivamente heterossexual”, e portanto inadequado para a formação das crianças.

Até o primeiro-ministro John Major reagiu, dizendo que esse tipo de “correção política” não é bem-vindo. Jane foi chamada às pressas para se explicar ao Conselho de Hackney (onde fica a escola), dirigido pelos trabalhistas, e que busca justamente dissipar a imagem de reduto da esquerda sectária. Depois de levar uma bronca do secretário de Educação do Conselho, Gus John, que por sinal é negro, Jane pediu desculpas publicamente pelo “embaraço” que causou, e disse esperar ansiosamente por uma nova oportunidade de receber ingressos subsidiados para seus alunos assistirem a um clássico.

Mas a história não parou por aí. A imprensa investigou a vida da diretora, e descobriu que a mulher com quem ela mora, Nicki Thorogood, presidiu a banca examinadora que elegeu Jane diretora da escola. Jane havia feito o exame antes, sem a participação de Nicki, cujos três filhos moram com o casal, e fora reprovada. Foi aberto um inquérito, e se ficar provado “conflito de interesses” Jane perderá o cargo.

Itens menos clássicos do que Shakespeare, mas não menos tradicionais na cultura inglesa, também têm sido vítimas do policiamento sexual. Entre eles estao os – até então aparentemente inofensivos – biscoitinhos “gingerhead men” (homenzinhos de pão-de-mel). Por considerar discriminatório ver um homenzinho no biscoito feito desde o século 17 com forma humana, funcionários da rede de supermercados Gateway corrigiram o rótulo da embalagem para “gingerbread persons”.

“Isto é absolutamente ridículo” explodiu o diretor da Associação Nacional dos Panificadores, David Harbourne. “Por que temos de interferir no nome que todo mundo entende e aceita, por causa de umas poucas pessoas obcecadas em serem politicamente corretas?” Olhando para o emasculado biscoitinho, num supermercado Gateway, a consumidora Debbie Elliott, de 33 anos, conta: “Quando vi, achei que fosse uma piada, mas alguém aqui da loja me disse que os gingerbread men poderiam ser ofensivos. Não pude acreditar. Como é que algo tão inocente como um gingerbread man pode ser ofensivo?”

Por enquanto, o tradicional pudim negro, ao qual se ateia fogo para flambar, está a salvo, mas muitos temem por seu futuro. Os bolinhos do tipo dumplings, identificados com pessoas baixinhas e gordinhas, estremecem nas prateleiras. “Como é que se estabelece um limite?”, pondera um porta-voz da Biscuit, Cake, Chocolate and Confectionary Alliance. “Será que as pessoas vão parar de estocar produtos com o rótulo Papai Noel?”

 

Nem os encanadores escaparam dos “corretivos”. Eles receberam novas diretrizes que recomendam rebatizar as triviais bóias de caixa-d’água de “válvulas operadas por flutuação”. É que o termo comum, “ballcocks”, estaria carregado de conotações fálicas.

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