Depois do caos, Rússia comemora liberdade econômica

Livre mercado trouxe possibilidades de futuro ao povo russo, mas o país continua a perseguir o crescimento para alcançar o Primeiro Mundo

 

MOSCOU – O dia mal clareou, às 9h da manhã de domingo, e Natasha Simionava já saiu de casa. Sob uma neve fina e um frio de zero grau, Natasha, de 21 anos, atravessa o Parque Gorki em direção ao trabalho. Ela é estudante do Instituto Politécnico de Moscou, e mora com os pais, mas, nos fins de semana e nas férias, faz bico trabalhando em parques de diversão e animando festas infantis, para ganhar algum dinheiro.

Natasha está contente. “A situação no país está muito melhor do que antes”, diz ela. “Não sou tão velha assim, mas percebo que há muito mais liberdade.

Antes, por exemplo, as pessoas não davam entrevistas na rua, como estou fazendo agora.” Mas as condições econômicas também melhoraram? Natasha responde com um lugar-comum hoje em dia em Moscou: “Tudo depende da força de vontade da pessoa”.

Dez anos depois da dissolução da União Soviética, em dezembro de 1990, muitos moscovitas nem sequer vêem sentido na pergunta sobre se valeu a pena mudar de sistema. “Sem mudança, como poderia ser?”, pergunta o economista Serguei Garodnikov. “A revolução burguesa foi uma necessidade histórica”, analisa o economista, de 43 anos, adaptando os conceitos do materialismo histórico que sua geração aprendeu na escola.

A avaliação que os russos fazem de suas mudanças recentes entrou numa segunda fase, depois que o presidente Vladimir Putin assumiu o governo, no rastro da renúncia de um Boris Yeltsin subjugado pelo alcoolismo e por problemas de saúde, na passagem do ano de 1999 para 2000. Ficou para trás o estágio mais traumático da transição do comunismo para o capitalismo, que chegou numa onda de caos social e econômico, culminando na moratória russa de agosto de 1998.

No governo Putin, que assumiu na condição de vice de Yeltsin e depois foi eleito em março de 2000, com 53% dos votos, a economia russa voltou a crescer e reencontrou a estabilidade. No ano passado, a inflação foi de 18,6%, ainda alta em termos absolutos, mas razoável em contraste com a hiperinflação dos primeiros anos de capitalismo. Como no Brasil, a alta é puxada pelos serviços públicos, que, em conjunto, subiram 56,8%.

A desvalorização do rublo e a alta nos preços do petróleo renderam ao país no ano passado um superávit de US$ 60 bilhões – do qual o presidente Fernando Henrique Cardoso não escondeu sua inveja, durante a visita a Moscou no início da semana. Parte desses dólares, no entanto, vai embora, numa evasão de divisas de US$ 1,5 bilhão ao mês – que mostra que ainda há muito o que fazer para atrair e fixar o capital no país.

Mas o mais importante, para os russos, é que a Rússia voltou a crescer. No fim da tarde de sábado passado, na elegante galeria GUM, construída na década de 1880, em frente da Praça Vermelha, os operários da construção civil Anatoly, Iuri e Arkady fazem seu happy hour num bar. Tomam doses de vodka de 100 gramas (a medida usada pelos russos) ao lado de um copo de suco de tomate. “Nós nos sentimos muito bem”, diz Anatoly, de 50 anos. “A vida hoje é seguramente melhor.”

Eles ganham cerca de US$ 500 por mês, como operários de uma construtora estatal. Estão terminando a reforma do centro comercial e cultural Gastinidivor, construído no século 18. A economia russa é puxada por um boom da construção civil, sobretudo de reformas e restaurações, que têm tornado Moscou irreconhecivelmente bem cuidada, para quem esteve aqui em meados da década.

Boris Arutuinian é um dos beneficiados por esse boom, aliado ao novo regime de liberdade econômica. Antes operário de uma fábrica estatal, há dez anos Arutuinian passou a trabalhar como empreiteiro de pequenas obras. E não tem do que se queixar. “A vida melhorou, é mais fácil trabalhar agora”, diz ele, enquanto passeia pela Praça Vermelha com a mulher, Anida Petrussia, e o filho, Levon.

Oito milhões de russos tocam hoje pequenos negócios como o de Arutuinian, e respondem, segundo as estatísticas oficiais, por 5% da produção industrial e 15% dos serviços. Levon, de 17 anos, prepara-se para entrar na universidade, mas ainda não sabe o que vai fazer. Ele sorri timidamente diante da pergunta sobre se acha que terá mais oportunidades que seu pai, e olha para Arutuinian, que responde com um mote meritocrático: “Bons filhos e bons alunos sempre superam os pais.”

Natasha Smirnova, de 20 anos, não tem dúvida: “Seguramente estamos melhores do que nossos pais.” Sua amiga Yevguenia Shiekatishena, também de 20 anos, completa: “Temos mais perspectivas”. As duas ganham US$ 200 por mês, trabalhando numa fábrica de bolos e doces. Embora não se interessem muito por política, respondem com um “naturalmente”, quando lhes perguntam se vão votar em Putin. O presidente ostenta índice de aprovação de 70% e deve candidatar-se à reeleição dentro de dois anos.

No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4%. É bem menos do que a Rússia precisa para atingir suas ambições mais modestas. Nesse ritmo, para alcançar o nível de prosperidade de Portugal, um dos países mais pobres da União Européia, com o qual Putin costuma estabelecer comparações, a Rússia levaria 40 anos, segundo cálculos publicados na revista inglesa The Economist; crescendo 8% ao ano, demoraria 15 anos.

Cifras são importantes, mas não dizem tudo. A renda dos russos pode parecer baixa em dólares, mas as coisas também são mais baratas. A cesta básica em Moscou, depois de um aumento de 21% no ano passado, ainda custa US$ 35. E a educação e a saúde públicas funcionam razoavelmente.

A professora Marina Kossarik, chefe do departamento de Línguas Latinas da Faculdade de Letras da Universidade de Moscou, recebe um salário de US$ 350 e mais uma aposentadoria de US$ 50. Somando todos os serviços públicos e o condomínio do prédio onde vive, o custo mensal é de US$ 30. Sua renda dá e sobra para manter uma casa de campo, num vilarejo a 89 quilômetros de Moscou e, regalia suprema nos velhos tempos, pagar uma faxineira, que vem limpar a casa semanalmente.

“Antes, simplesmente não havia ninguém para fazer esse tipo de serviço”, lembra Marina, de 55 anos. Ela compara as oportunidades entre a sua e a atual geração com um exemplo simples. A mãe de Marina e a sogra eram médicas, seu pai, engenheiro, o sogro, economista, o marido, químico, e ela, professora universitária. Nenhum deles, no entanto, chegou a ter um carro. O filho Dmitri, no entanto, de 31 anos, também professor de português, já tem o seu carro.

A vida de Marina e do seu marido foi de casa para o trabalho e do trabalho para casa, no metrô. Tinham vontade de ir à noite a um restaurante, mas desanimavam, pensando na fila de duas horas. Agora, a noite de Moscou se parece com a de outras capitais européias.

“Hoje em dia, as pessoas podem fazer trabalhos particulares, como nós, de intérpretes, e completar a renda”, diz Marina. “Apesar de a vida ser mais difícil agora, em muitos aspectos, francamente não gostaria de voltar atrás. Agora, as pessoas são mais ativas e há muito mais oportunidades. Sei que há novos ricos, mas também há classe média.”

As dificuldades de hoje em dia a que se refere Marina são as imprevisibilidades da economia de mercado. “Desapareceu o mito de que o Estado podia resolver todos os problemas”, testemunha o engenheiro industrial Iuri Pavlenkov.

“Antes, estava tudo programado, e eu pensava que sabia como seria até o fim da vida dos meus netos”, lembra Marina. “Era uma vida pobre e nada cômoda, mas previsível. Agora, as pessoas mais velhas se ressentem da insegurança, mas as perspectivas se abrem para os mais jovens e há trabalho para quem queira.”

Talvez o sinal mais evidente disso seja a quantidade de imigrantes das antigas repúblicas soviéticas, que vêm para Moscou em busca de trabalho e de uma vida melhor do que a que têm em seus países. O casal de namorados moldavos Elena Prodan e Andrei Untura admirava, na tarde de sábado, a magnífica Igreja de São Basílio, que Ivã, o Terrível, mandou construir na década de 1580, para celebrar a vitória sobre os invasores tártaros, e depois, fazendo jus ao seu cognome, mandou cegar os dois arquitetos, que lhe disseram que podiam projetar uma ainda mais bonita.

Elena, de 18 anos, mudou-se de Kishinov, na Moldávia, para Moscou, há seis meses, para estudar administração de empresas no Instituto de Economia.

Andrei, de 20, ainda mora em Kishinov, onde estuda educação física. Mas ambos querem viver na Rússia. “Aqui, o nível é muito mais alto, há muito mais chances”, dizem. “Na Moldávia, está tudo parado.”

A mãe de Andrei é ucraniana. Mesmo assim, ele optou pela Rússia, e o motivo se pode deduzir na estação de trem Kyivskaia, por onde chegam todos os dias centenas de sacoleiros ucranianos, para vender suas mercadorias em Moscou. Embora a Ucrânia também apresente índices macroeconômicos bastante positivos, como crescimento de 9% da economia e de 14% da produção industrial, ao lado de uma inflação controlada no patamar de 6%, o poder aquisitivo dos russos e o dinamismo de seu mercado são maiores.

A história de três jovens que matavam o tempo do lado de fora da galeria GUM no sábado passado ilustra a atração que a Rússia exerce sobre os antigos satélites soviéticos, ou “o exterior próximo”, como se dizia há alguns anos. Alexei Sinsov, de 25 anos, é originário do Azerbaijão, de onde veio há dez anos. Foi enviado como soldado para o Tajiquistão, onde tentou a sorte.

“Lá, não funciona nada. A situação é horrível”, diz Sinsov.

Ruslan Bakharav veio da Quirguízia. “Lá é muito pior, não há perspectiva, não há nada”, resume. Leonid Ifriemov vivia na Bielo-Rússia: “Lá é muito bom, só que não há dinheiro. Não pagam nosso serviço”. Alexei, Ruslan e Leonid fazem biscates em Moscou. Imigrantes, sem qualificação, ocupando a base da pirâmide social, eles dizem que a vida em Moscou é difícil, mas vale a pena.

Outro sinal é o que se passa dentro da própria galeria GUM (sigla em russo de Armazéns Estatais Gerais). Durante o regime soviético, havia muita gente fazendo fila e pouca coisa para comprar. Na década de 90, havia muito o que comprar e apenas estrangeiros comprando. Agora, a galeria está cheia de novo – de russos.

Ao lado das chances de trabalho e de iniciativa, a Rússia herdou do comunismo um sistema de bem-estar social de fazer inveja em muitos países emergentes. A educação e a saúde públicas funcionam relativamente bem.

Marina conta que seu marido, Lev, teve um enfarte há dois anos e meio. Foram buscá-lo de ambulância em casa e o levaram para o Hospital Número 15, perto de sua casa, no bairro de Wikhina, a leste de Moscou.

Lev foi submetido a uma angioplastia. “Não tivemos que pagar nada”, lembra Marina. O que lhes disseram foi que, se fosse necessário instalar um aparelho microscópico dentro de sua artéria, teriam de pagar pelo preço do aparelho. Mas não foi preciso. E a educação pública, orgulha-se a professora, “é muito boa”.

Outra herança do sistema antigo é a relativa homogeneidade social.

As classes já existiam na União Soviética, em que um abismo separava a elite da burocracia estatal do restante da população. Agora, ganham gradualmente uma configuração capitalista. Os tecnocratas se deram bem com a transformação das estatais em companhias de sociedade anônima, embolsando partes substanciais de suas ações. Outros emergiram, com as novas oportunidades de negócios, tanto lícitos quanto ilícitos. E muitos profissionais instruídos ingressaram na nova classe média.

Mas as fronteiras seguem sendo tênues. O lugar escolhido por Anatoly, Iuri e Arkady para seu happy hour é um testemunho disso. Seria o equivalente a três pedreiros em São Paulo saírem da obra para tomar uma cachaça num bar grã-fino do Shopping Iguatemi.

Depois de uma guinada brusca como a que a Rússia sofreu, as marcas do sistema antigo estão por toda parte, e elas não são necessariamente agradáveis. Parte da arquitetura e da infra-estrutura soviéticas, que, quando novas, já não eram grande coisa, ainda estão visivelmente deterioradas, embora Moscou se tenha convertido num canteiro de obras.

A burocracia e sua co-irmã, a corrupção, ainda são ostensivas. Mas até nessa área Putin tem feito avanços. O ex-chefe da KGB afastou de seu governo vários funcionários corruptos, alguns dos quais estão presos ou sendo processados.

O caso mais notório é o de Rem Vyakhirev, ex-controlador da gigantesca Gazprom, acusado de envolvimento na drenagem de US$ 85 milhões do patrimônio da companhia, por meio da transferência ilegal de seus ativos para uma subsidiária. Vyakhirev foi removido da direção da Gazprom, da qual o governo ainda é acionista majoritário, e está sob investigação. O presidente da subsidiária, Yakov Goldovsky, e um membro de seu conselho e sócio de Yyakhirev, Vyacheslav Sheremet, foram detidos.

A administradora Lhubov Virbitzkaia, que trabalha num escritório de advocacia especializado em empresas, diz que nunca teve contato com a grande corrupção, mas só com a pequena – que, de resto, faz parte do dia-a-dia de todos os russos, em seu convívio com funcionários mal pagos e regras profusas e impossíveis de cumprir. Nessa escala menor, a corrupção tem o nome de “niparariaditchne”, equivalente russo do jeitinho.

Confiante e bem-humorada, Lhubov patinava sobre o gelo que cobria o Parque Gorki na manhã de domingo. “A burocracia é muito grande”, diz Lhubov, cujo escritório, criado há oito anos, ajuda as empresas a sobreviver à complexa legislação. “Mas é graças a essa burocracia que existimos”, sorri a administradora.

Não é só no funcionamento prático das coisas que o comunismo e a delicada transição para o capitalismo cobram o seu preço. “O que mais faz falta aqui é uma mentalidade empreendedora”, queixa-se o economista Gorodnikov. “É preciso que, em cada nível, as pessoas não se comportem só como empregadas, mas que cada um se sinta e aja como se fosse dono”, completa Andrei Pordin, restaurador de armas antigas do Museu da Glória dos Cossacos.

 

Talvez seja pedir muito, depois de apenas uma década e meia de entrada em circulação da palavra perestroika (abertura). Ninguém duvida que tudo esteja por fazer: reformas, privatizações, sistema regulatório, etc. Mas o fato é que os russos estão se saindo melhor do que os mais otimistas podiam esperar.

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