Favorito na Rússia, Medvedev entra na disputa americana

Em aparente ataque ao republicano McCain, candidato critica ‘pessoas com visões semi-retardadas’

 

MOSCOU

Com a vitória virtualmente garantida na eleição de domingo na Rússia, o candidato a presidente Dmitri Medvedev resolveu meter-se numa outra corrida presidencial – a dos Estados Unidos. “Vamos cooperar com qualquer administração formada nas próximas eleições”, disse ontem Medvedev, apoiado pelo presidente Vladimir Putin. “Seria, no entanto, claramente mais fácil lidar com pessoas dotadas de uma perspectiva atualizada, em vez daqueles que têm reflexos do passado em seus olhos, ou simplesmente advogam visões semi-retardadas.”

O ataque parece dirigido ao senador republicano John McCain, que defende a manutenção da linha dura na política externa. Há pouco mais de uma semana, McCain qualificou Medvedev de “fantoche” de Putin. Mas pode atingir também a senadora democrata Hillary Clinton, que, na comparação com o seu rival nas primárias, o senador Barack Obama, tem sido identificada como a candidata do establishment e do “passado”. Obama, em contrapartida, apresenta-se como o candidato da “mudança”. 

A declaração de Medvedev é parte de uma escalada nos atritos entre Moscou e Washington, por numerosas razões. Entre elas estão o projeto americano de instalar sistemas antimísseis na República Checa e na Polônia e o apoio dos EUA à independência de Kosovo em relação à Sérvia, tradicional aliada da Rússia, que também enfrenta movimentos separatistas em seu vasto território. 

Vice-primeiro-ministro e ex-chefe de gabinete de Putin, Medvedev detém 73% da preferência do eleitorado, segundo a última pesquisa, realizada nos dias 16 e 17 pelo VTsIOM. Num distante segundo lugar vem o candidato comunista Gennady Zyuganov, com 15%, seguido pelo ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky (11%). Embora o instituto seja do governo, sondagens independentes não obtiveram resultados muito diferentes.

A intenção de voto em Medvedev se aproxima do resultado obtido por Putin em sua última eleição, em 2004 (71%) e dos impressionantes índices de popularidade do presidente russo, que oscilam entre 70% e 80%. Eleito pela primeira vez em março de 2000, Putin, de 55 anos, não pode disputar um terceiro mandato, e escolheu Medvedev o candidato de seu partido, Rússia Unida. Ele anunciou que pretende assumir o cargo de primeiro-ministro. Deve manter-se, na prática, como homem forte no país. 

A Comissão Eleitoral, controlada pelo governo, rejeitou boa parte das candidaturas que representavam, se não uma ameaça, pelo menos algum desconforto para Putin e seu partido. Em relatório divulgado ontem, a Anistia Internacional desenhou um quadro sombrio da democracia na Rússia: “Defensores dos direitos humanos, organizações independentes da sociedade civil, opositores políticos e cidadãos comuns têm sido vítimas de um retrocesso nos direitos políticos e civis.” A Anistia avalia que “o espaço para visões discordantes, para a mídia e organizações independentes está encolhendo” na Rússia. 

Na contramão das declarações de Medvedev e da política externa de Putin, o candidato nanico à presidência pelo Partido Democrático, Andrei Bogdanov, defendeu ontem negociações com os Estados Unidos e o ingresso da Rússia na União Européia, que, na visão dele, deve fatalmente acontecer, seja dentro de 10 ou de 20 anos. “A Rússia é um país europeu”, definiu Bogdanov, um cientista político de 38 anos, que tem apenas 1% de intenção de voto da última pesquisa. “Devemos criar, com a Europa, uma nova estrutura militar, ao estilo da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).” Segundo ele, uma pesquisa realizada depois do referendo que aprovou a entrada da Estônia na UE, em 2003, mostrou que 64% dos russos eram a favor da adesão da Rússia, situada entre a Europa e a Ásia. 

Acusado de ser um candidato consentido pelo Kremlin, para ajudar a legitimar o processo eleitoral, Bogdanov criticou o governo e defendeu o liberalismo econômico. “A base política do Rússia Unida é o funcionalismo público”, disse ele, respondendo a uma pergunta do Estado sobre o que o diferenciava de Medvedev. “O Estado está crescendo (no governo Putin). As pequenas empresas têm enfrentado muitas dificuldades. Somos contra a intervenção do Estado na economia. Nossa base é a classe media, os pequenos empresários.” Ele assegurou, no entanto, que essas eleições são “legítimas e justas”, ao contrário das anteriores.

 

Militantes ultranacionalistas têm espalhado a versão de que Medvedev tem origem judaica, e portanto não é adequado à presidência, segundo a agência Reuters. O candidato de Putin, que recebeu o apoio declarado da Igreja Ortodoxa Russa – em retribuição a políticas do governo favoráveis à religião -, nega que o sobrenome de solteira de sua mãe, Shaposhnikova, seja prova de origem judaica.

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