Rússia defenderá vaga na ONU para o Brasil

É a primeira vez que uma potência com direito a veto apóia tese de País integrar Conselho de Segurança

 

MOSCOU – A Rússia apoiará hoje oficialmente a reivindicação do Brasil por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O anúncio foi feito ontem pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista coletiva no Kremlin, depois de desembarcar em Moscou, para visita de três dias.

“Em comunicado conjunto, que vamos apresentar, pela primeira vez uma das cinco potências com direito a veto no Conselho dirá que vê com bons olhos a participação do Brasil”, celebrou o presidente. “Isso é muito significativo.” De acordo com Fernando Henrique, o gesto da Rússia marca sua “parceria estratégica” com o Brasil.

“A Rússia tem relações especiais com a China, a França, o Brasil e mais um ou outro país”, disse ele, mencionando as missões freqüentes de intercâmbio em várias áreas, subordinadas a uma Comissão de Alto Nível, chefiada, do lado brasileiro, pelo vice-presidente Marco Maciel e, do lado russo, pelo primeiro-ministro Mikhail Kassianov.

O apoio russo será formalizado numa declaração conjunta, que os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Vladimir Putin assinam hoje no Kremlin, às 14 horas (9 horas em Brasília). A Rússia já anunciou o mesmo tipo de respaldo para a Índia, seu tradicional parceiro no Sul da Ásia. O governo russo é a favor da ampliação do número de cadeiras permanentes, com direito a veto, que atualmente são cinco – Estados Unidos, Rússia, China, França e Grã-Bretanha – e também dos assentos rotativos, atualmente dez, para o ingresso de países desenvolvidos, como a Alemanha, e em desenvolvimento, como o Brasil e a Índia.

Fernando Henrique disse que, na conversa que teve com o primeiro-ministro Kassianov, no mês passado em Brasília, viu “muita coincidência” no pensamento dos dois países, por exemplo, no que se refere ao “combate ao terror nos moldes da ordem jurídica internacional”. Traduzindo da linguagem diplomática, o presidente quis dizer que os dois países preferem que ações como a dos Estados Unidos no Afeganistão ocorram sob mandato da ONU, e não unilateralmente. “A Rússia e o Brasil acreditam na multipolaridade.”

Segundo Fernando Henrique, o presidente dos EUA, George W. Bush, reafirmou-lhe, em conversa telefônica na semana retrasada, motivada pela crise argentina, que “assim pensava” também, e lhe pediu que transmitisse a Putin seus “votos de simpatia”. Fernando Henrique acrescentou: “Essa aproximação facilita uma revisão da política internacional”, com vistas a “uma melhor distribuição do poder”.

Ainda no campo estratégico, mas também comercial, a Rússia entrou na licitação da Força Aérea Brasileira para lhe vender caças Sukhoi. O ministro da Defesa, Geraldo Quintão, deve vir em breve a Moscou, para tratar do assunto. Os dois governos também vão discutir a possível transferência de tecnologia russa para a construção, pelo Brasil, do Veículo Lançador de Satélite. Há, ainda, a possibilidade de os russos alugarem a base espacial de Alcântara, para lançamento de foguetes, embora as negociações nesse sentido estejam mais avançadas com a Ucrânia, para onde o presidente e a comitiva seguirão, na quarta-feira de manhã.

O Brasil deseja entrar na disputa para a venda de jatos regionais para a Rússia. O presidente da Embraer, Maurício Botelho, está entre os 70 empresários que vêm a Moscou, para uma exposição dos produtos brasileiros. O comércio com a Rússia foi um dos responsáveis pelo superávit da balança comercial brasileira em 2001. O Brasil exportou US$ 534,8 milhões para o país e importou US$ 224,9 milhões.

Mas a pauta de exportações brasileiras é dominada pelo açúcar e por outros produtos primários, como café solúvel, carnes de frango e suína e fumo.

“Estamos interessados em mudar a pauta, que é de commodities, para maior valor agregado”, declarou Fernando Henrique. O presidente fará, amanhã, o encerramento de um seminário com cerca de 120 empresários brasileiros e russos.

O avião do presidente, um Airbus 330 fretado da TAM, pousou às 16h10 (11h10 de Brasília), sob uma neve fina e temperatura de zero grau, na base aérea de Vnukovo 2, em Moscou, e seguiu para o Kremlin. É a primeira visita oficial de um presidente brasileiro à Rússia, o que significa hospedar-se no Kremlin e seguir todo o protocolo de viagem de Estado. José Sarney e Fernando Collor realizaram visitas de trabalho e o próprio Fernando Henrique veio, em 1994, como presidente eleito.

O presidente está acompanhado dos ministros das Relações Exteriores, Celso

 

Lafer, do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, e da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, além do secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Márcio Fortes. Também fazem parte da comitiva dois governadores, Jaime Lerner, do Paraná, e Espiridião Amin, de Santa Catarina, e o prefeito de Joinville, Luís Henrique – Lerner, sobretudo por causa da expressiva colônia ucraniana no Paraná; Amin, por causa das exportações de carne; e Luís Henrique, por causa da filial do grupo de balé Bolshoi em Joinville.

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