Tribos sunitas impõem condições para lutar contra EI

Em entrevista ao “Estado”, líder exige autonomia para províncias e punição de milícias xiitas

Ali Hatem al-Suleima

ERBIL – O Conselho Revolucionários das Tribos, que representa os milicianos sunitas, afirmou que só vai enfrentar o Estado Islâmico (EI) depois que suas reivindicações por mais autonomia para as províncias forem atendidas pelo governo xiita do Iraque. Os líderes tribais também exigiram que os políticos sunitas mantenham-se fora das negociações para a formação do governo do primeiro-ministro interino Haidar al-Abadi enquanto não forem punidos os responsáveis pelo massacre de 68 pessoas em uma mesquita na província de Diyala, ao norte de Bagdá.

“Nem os Estados Unidos nem todo o mundo nem esse governo podem derrotar o EI”, disse Ali Hatem al-Suleiman, chefe da maior tribo do Iraque, e um dos líderes do Conselho, em entrevista exclusiva ao Estado. “Só as tribos e o povo dessa terra podem. Mas, para os  sunitas, a luta contra o EI ficará para depois”, ressalvou, em seu escritório em Erbil, capital do Curdistão iraquiano, onde está exilado há dois meses, depois de ter sido emitida uma ordem de prisão contra ele. “Lutaremos contra o EI quando alcançarmos nossos direitos.”

Depois de apoiar a Al-Qaeda, na década passada, as tribos sunitas formaram um movimento chamado Despertar, no qual se uniram aos militares americanos e iraquianos para expulsar o grupo. Depois que as tropas americanas se retiraram do Iraque, em dezembro de 2011, no entanto, o governo do ex-primeiro-ministro Nuri al-Maliki deu início a uma caçada contra os líderes tribais e seus comandados, acusando-os de ligações passadas com a Al-Qaeda. “Lutamos no passado e depois, Maliki nos perseguiu”, disse Suleiman. “Não queremos ser vítimas de outro cenário em que expulsamos o EI e Maliki nos aterroriza com suas milícias xiitas e processos políticos, com apoio do Irã.”

“Depois de alcançar os direitos dos sunitas, as tribos e os revolucionários limparão as cidades do EI”, garantiu o líder tribal. “Mas precisamos de garantias antes de começarmos o trabalho.” Ele acusa os xiitas de manterem 30 milícias com fardas e apoio do governo, de políticos e de clérigos.

Suleiman listou algumas das 14 reivindicações apresentadas pelo Conselho: a adoção de um sistema federativo, com ampla autonomia para as províncias; a libertação de todos os presos políticos sunitas; o julgamento de Maliki e “de todos os criminosos que tomaram a decisão de entrar em guerra contra os sunitas do Iraque”; expor publicamente “todos os crimes de desvio de dinheiro”; “soberania de decisões no Iraque, sem intervenção do Irã”; e principalmente “não considerar os sunitas como subalternos, mas como parceiros”.

Suleiman concedeu a entrevista ao Estado depois de ler para a imprensa um comunicado, em nome do Conselho, no qual exige que os políticos sunitas interrompam as negociações para a formação do governo.

“Os que continuarem negociando não são sunitas”, condenou o xeque. “Se os responsáveis não forem punidos, nós nos vingaremos.”

O Conselho reúne milhares de homens armados das comunidades sunitas, incluindo, segundo ele, 3 mil “combatentes de elite”. O massacre da mesquita, por sua vez, tinha sido uma vingança a um atentado a bomba contra o chefe de uma milícia xiita, no qual três de seus homens foram mortos.

O comunicado do xeque é mais um complicador nas difíceis negociações para a formação de um novo governo no Iraque. Antes mesmo do comunicado, Saleh Mutlaq, o vice-primeiro-ministro sunita do Iraque, e  Salim al-Jiburi, presidente do Parlamento, haviam anunciado sua retirada das negociações até que fossem apresentados os resultados de uma investigação sobre o massacre.

Suleiman disse que não vê diferença entre Maliki e Abadi, ambos do grupo xiita Partido da Pregação Islâmica, assim como o primeiro-ministro anterior, Ibrahim al-Jafari. “Maliki continua no controle”, avaliou o líder tribal. “Saiu pela porta e entrou pela janela.”

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